O Zorro de Fernando Bento

zorro-bento capa DIABRETE

Embora não me conste ter havido, até hoje, uma  edição  portuguesa  em  livro de “O Sinal do Zorro”, a obra mundialmente famosa de Johnston McCulley (que já esteve exposta nesta montra), lembro a título de curiosidade que o Diabrete, em 1949, ofereceu aos seus leitores, a partir do nº 597, uma  adaptação desse romance, dividida em quarenta e três capítulos recheados de magníficas ilustrações de Fernando Bento, tão fieis à imagem do mítico personagem que se gravaram indele- velmente na memória de muitos leitores do “grande camaradão” da juventude portuguesa.

Uma nova adaptação da mesma novela surgiu (bastante a propósito) na revista Zorro, durante o ano de 1964, desta vez com ilustrações a lavis de outro mestre da BD portuguesa: José Garcês.

A nossa Montra dos Livros tem o grato prazer de apresentar aos seus amigos algumas das magníficas imagens de Fernando Bento publicadas no Diabrete, com um Zorro que se distingue pela elegância e leveza de movimentos, o porte romântico e audacioso, a aura de mistério e de fascínio que o envolve, quando usa o capuz para encobrir a sua identidade — e pelo cunho verídico (no sentido de fidelidade ao ambiente e aos elementos originais) que o saudoso mestre imprimia a todas as suas criações inspiradas em figuras literárias.

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Os livros que guardo na memória – 3

A MARCA DO ZORRO por Johnston McCulley

Johnston McCulley McCulley e Guy Williams(1883-1958), o criador da mítica figura do Zorro, um dos primeiros vingadores mascarados, teve uma prolífica e brilhante carreira como argumentista de cinema e autor de séries para os pulp magazines, pois, além do seu principal personagem, criou figuras que granjearam também grande popularidade na época, como Black Star, The Spider, The Green Ghost e The Crimson Clown — percursoras de alguns dos super-heróis com nomes bizarros e identidades secretas nascidos nas décadas seguintes —, satisfazendo a sede de emoções de um vasto público viciado na leitura de revistas de crime,Curse of Capristano mistério e aventura como o Detective Story Magazine.

Zorro nasceu em Agosto de 1919, nas páginas de outro título famoso na história dos pulps (magazines de índole popular, dedicados aos mais diversos géneros, que utilizavam a polpa de papel para reduzir os custos de impressão): o All-Story Weekly, sete anos depois desta mesma revista (então ainda mensal) ter publicado a primeira aventura de Tarzan, escrita por um tal Edgar Rice Burroughs. A história de McCulley intitulava-se The Curse of Capistrano e tinha como cenário o sul da Califórnia, no tempo em que essa região, colonizada desde o século XV pelos espanhóis, ainda não passara para o domínio do México.

Foi tal o aplauso dos leitores que, no ano seguinte, surgiu a primeira adaptação cinematográfica — cujo único defeito era não ter som —, com o nome do prota- Mark of Zorro - Douglas Fairbanksgonista bem estampado no título: The Mark of Zorro, e um lendário actor e espadachim de Hollywood, Douglas Fairbanks, no papel de Don Diego Vega (a identidade secreta do Zorro), ao lado de Noah Beery, no do antipático e fanfarrão sargento Gonzalez.

O êxito do filme, que contribuiu para o lançamento de um novo género, conhecido como swashbuckler (aventuras de capa e espada), deu origem a um livro com o mesmo título, The Mark of Zorro, em que McCulley desenvolveu consideravelmente o primitivo enredo. Em 1940, surgiu outra memorável versão dos estúdios de Hollywood, com três famosas “estrelas” desse tempo: Tyrone Power, Linda Darnell e Basil Rathbone. Vi-a muitos anos depois, em reposição no cinema do meu bairro, o saudoso Royal-Cine, entre os aplausos e o trepidante entusiasmo de uma plateia maioritariamente juvenil.

Mas já, em 1937 e 1939, Zorro chegara de novo ao ecrã em dois trepidantes serials (filmes em episódios) da Republic Pictures, com os títulos Zorro Rides Mark of Zorro - 1940 - a 150jpgAgain e Zorro’s Fighting Legion, ambos realizados por John English e William Witney e interpretados respecti- vamente, no papel do vingador mascarado, por John Carroll e Reed Hadley. A Republic, pequena companhia especializada neste género de filmes, de longa metragem e orçamentos muito baixos, produziu nos anos seguintes mais seis serials do Zorro para aproveitar tão rendoso filão.

Entretanto, McCulley continuava a escrever aventuras do seu herói para outro célebre magazine, o Argosy, adoptando o figurino que Douglas Fairbanks transformara num ícone cinematográfico e que todos copiaram a partir de então: um destro e misterioso espadachim de mascarilha, capa sobre os ombros e chapéu de abas redondas, à moda da Califórnia espanhola.

Zorro Rides AgainEm 1941, para cavalgar a onda de popularidade do audacioso mascarado que lutava contra a injustiça e a opressão feudal dos grandes latifundiários, surgiu outra novela, intitulada The Sign of Zorro, mas McCulley não se ficou por aí, escrevendo num ritmo frenético mais de 60 histórias com este personagem até ao final da sua vida. A última foi publicada postumamente em Abril de 1959, quando já se ouviam os ecos de um novo triunfo do Zorro, agora como herói televisivo, numa série com 78 episódios produzida pelos Estúdios Disney e interpretada por Guy Williams (Zorro), Gene Sheldon (o seu servo Bernardo) e Henry Calvin (sargento Garcia), nos principais papéis.

De todos os romances do Zorro escritos por McCulley conheço apenas uma versão brasileira de A Marca do Zorro, publicada em 1959 (6ª edição) pela editora Vecchi, na sua colecção “Os Audazes”. Não creio que haja qualquer edição portuguesa, em livro, a partir dos primitivos originais.

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