Equatória: uma nova aventura de Corto Maltese

Sinopse: O ano é 1911. Entre Veneza e as selvas da África equatorial, Corto Maltese procura o “Espelho do Preste João”, um misterioso objecto relacionado com as Cruzadas. Na sua rota, cruza-se com três mulheres cujos destinos são estranhamente complementares: Aída, uma perspicaz jornalista, Frida, que monta uma expedição em busca do pai que desapareceu, e Afra, uma antiga escrava.

Segunda história do personagem Corto Maltese criada sem a partici- pação de Hugo Pratt, pelos espanhóis Juan Díaz Canales e Ruben Pellejero (autores também do álbum anterior), e publicada em França em Setembro de 2017. A edição portuguesa é da Arte de Autor — que reeditou recentemente A Balada do Mar Salgado, primeira e mítica aventura de Corto Maltese (com um prefácio de Umberto Eco).

Sequência inicial da nova aventura de Corto Maltese. A semelhança com o estilo narrativo de Hugo Pratt é flagrante.

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Corto Maltese: uma viagem com 50 anos

ESTANTE – Revista FNAC (Verão 2017)

Foi em Julho de 1967 que Hugo Pratt nos apresentou Corto Maltese, o lacónico, rapidamente icónico, capitão da Marinha Mercante Britânica, protagonista de uma das séries gráficas mais veneradas do século XX. Meio século depois do embarque na «Balada do Mar Salgado», os ventos da realidade voltam a empurrar-nos para ele(s).

Em «Corto Maltese na Sibéria», há um momento em que o famoso marinheiro, prestes a ser capturado pela divisão de cavalaria asiática do barão Von Ungern-Sternberg, se refugia num poema de Rimbaud. “Pelas tardes azuis do verão, irei pelas sendas, guarnecidas pelo trigal, pisando a erva miúda”, declama para dentro, rodeado de neve e a tremer de frio, a fitar uma espingarda a aproximar-se. “Sonhador, sentirei a frescura em meus pés. Deixarei o vento banhar a minha cabeça nua. Não falarei mais, não pensarei mais; mas um amor infinito invadir-me-á a alma. E irei longe, bem longe, como um boémio, pela natureza — feliz como com uma mulher.”

Corto não segue sozinho a caminho da provável morte. A seu lado vai Changai Li, a jovem chinesa que quer capturar antes dele o ouro do almirante Kolchark, e Rasputin. Quem nunca leu a famosa BD de Hugo Pratt estará a questionar-se se esse Rasputin é “aquele”, o real, o místico louco que soprava conspirações ao ouvido de Nicolau II e que contribuiu para a queda do último czar da Rússia, faz agora um século.

A versão ficcionada do Barão Sanguinário (como o verdadeiro Von Ungern-Sternberg ficou conhecido no pós-revolução russa) tem a mesma dúvida quando é apresentado aos três reféns. Você que se parece com o infame Rasputin, como se chama?” — “Rasputin, excelência!

Utopia e pragmatismo

Hugo Pratt, que há cinquenta anos nos convidou a embarcar na «Balada do Mar Salgado», nunca fez segredo das suas inspirações — de todas as personagens reais com quem Corto se cruza a partir dali, só Rasputin não é suposto ser o verdadeiro.

Na aventura de estreia de Corto Maltese, que o ilustrador italiano lançou em Julho de 1967, o oficial da Marinha Mercante britânica, nascido em Malta e com residência em Hong Kong, que se recusa a criar raízes em lugares ou em ideologias, já conhecia este outro Rasputin — seu companheiro de várias viagens na aclamada série gráfica, um homem de olhar cavado e longa barba negra mais dado a interesses e loucuras do que o marinheiro errante de brinco na orelha.

Na primeira aventura, perdidos no meio do Pacífico, em plena Primeira Guerra Mundial, Corto sobe a bordo de um catamarã onde Rasputin está a planear usar dois sobreviventes de um naufrágio para enriquecer — e assim se inaugura o imaginário de Pratt. Na segunda, o criador de Corto leva-o até aos confins da China e da Sibéria e põe-lhe nas mãos a «Utopia», de Thomas More. “Nunca conseguirei ler isto até ao fim”, lamenta-se o nómada dos mares, filho de um oficial da Marinha Real britânica e de uma cigana de Sevilha.

Acho que a coisa realmente importante sobre isto, que é hilariante e tão certa, é que Corto nunca acabou de o ler”, comentava em 2012 Hall Powell, realizador e guionista de televisão que, nesse ano, começou a traduzir a BD do anti-herói para inglês (foi o primeiro lançamento nos Estados Unidos, em 20 anos). Não ler «Utopia» até ao fim, defendeu Powell, “é a definição de um utópico verdadeiramente pragmático”.

A sofisticação da literatura e da política

Há quem diga que as palavras que abrem «A Balada do Mar Salgado» — “Sou o Oceano Pacífico e sou o maior de todos” — estão para os quadradinhos como “Chamem-me Ismael”, a primeira linha de «Moby Dick», de Herman Melville, está para a literatura. Quando Pratt lançou a série com a revista Il Sergente Kirk em Itália, o protagonista ia ser o mar. Mas a complexidade literária e política que brotou do marinheiro acabaria por levar a melhor — o Pacífico foi relegado para segundo plano e Corto ganhou vida longa entre nós, levando-nos aos confins do mundo e da mente humana. Já dizia Umberto Eco: “Quando quero relaxar leio ensaios de Engels. Quando quero algo mais sério, leio Corto Maltese.”

Hoje, até quem nunca foi dado a BD já ouviu falar da personagem. Que é como quem diz, de Pratt. “Devemos lembrar-nos que as tiras reflectem as próprias experiências peripatéticas de Pratt”, explicava há alguns anos Dean Mullaney, fundador de uma das primeiras editoras independentes de BD nos EUA, a Eclipse Enterprises. “Da sua juventude na Etiópia aos muitos anos passados na Argentina, Pratt foi ganhando uma perspectiva humanista. As suas histórias ressoaram na audiência do fim dos anos 60 e do início dos anos 70, e ressoam ainda hoje em nós, porque ele escreve sobre a luta universal pela dignidade humana.”

Foi assim que Pratt trouxe ao mundo das novelas gráficas não só a sofisticação da literatura, mas a crítica social e política, com histórias em quadradinhos mais próximas da realidade do que da ficção, apesar de todo o esoterismo e magia.

Filho de um militar que apoiava Mussolini e da neta do poeta Eugenio Genero (citado na versão original de «Corto Maltese na Sibéria», em vez de Rimbaud), Pratt lançou o primeiro trabalho na Itália do pós-guerra, com críticas ocultas ao imperialismo e ao capitalismo. Foi isso e também o facto de Corto ser um aventureiro romântico que, ainda assim, desconstrói a forma como o mundo ocidental subjugou culturas e povos, que fizeram com que Pratt e o seu alter ego reflectissem o activismo do Maio de 68 e até o movimento espontâneo anti-ideológico de 1977, em Itália, antes de qualquer um deles eclodir.

Uma coincidência, dirão alguns, tão atraente como o facto de a obra celebrar meio século na mesma altura do centenário da Revolução Russa. Num novo momento de convulsões sociais e com as peças do xadrez mundial outra vez em movimento, faz sentido voltar a Corto Maltese. Como diziam o ilustrador Ruben Pellejero e o escritor de BD Juan Díaz Canales, há dois anos, quando reinventaram Corto numa nova série fiel ao universo gráfico e literário de Pratt: “Corto convida-nos a viajar e a sonhar com ele.” E a mensagem de tolerância e de empatia, mesmo quando há discórdia, talvez seja o seu maior ensinamento — mais actual do que nunca.

Relendo “A Balada do Mar Salgado” como intróito às novas aventuras de Corto Maltese

Texto de Jorge Magalhães, publicado em Selecções BD (2ª série) nº 6, Abril 1999. Refira-se a este propósito a excelente reedição de “A Balada do Mar Salgado”, com o selo da Arte de Autor, que surgiu nos escaparates em Junho deste ano, recuperando o prefácio da edição de 1991, assinado por Umberto Eco. Uma boa leitura de férias!  

 

“Sou o Oceano Pacífico e sou o Maior. É assim que me chamam há já muito tempo, embora não seja verdade que eu seja sempre pacífico”. É com esta frase que começa “A Balada do Mar Salgado”, a história em que surge pela primeira vez Corto Maltese, personagem considerada por muitos a maior criação de Hugo Pratt e que nasceu na revista italiana Sgt. Kirk, a 10 de Julho de 1967, comemorando, portanto, 50 anos em 2017.

Para os nostálgicos de Corto Maltese e para os (raros) leitores que ainda não se aventuraram no seu fascinante universo, recomendamos também outro álbum da Arte de Autor com as novas aventuras do “marinheiro das sete partidas”, recriadas magistralmente por dois autores espanhóis: Rubén Pellejero e Juan Díaz Canales.

Acabado de chegar ao Panamá, acompanhado por Rasputine, Corto Maltese está novamente de partida! O destino é São Francisco e a sua Exposição Internacional, onde espera encontrar um amigo de longa data, o escritor Jack London. Em troca de um pequeno favor, London promete a Corto uma nova aventura… e um misterioso tesouro! Corto Maltese inicia assim um longo périplo pelas vastas extensões geladas do Grande Norte, numa viagem pautada por inúmeros perigos e ameaças. Porque, sob o sol da meia-noite, há outros predadores que rondam para além dos lobos e dos ursos…

Criada graficamente por Rubén Pellejero, com um traço muito semelhante ao de Hugo Pratt, e com argumento de Juan Díaz Canales, esta obra, cuja acção decorre no Alaska em 1915, é a primeira história de Corto Maltese escrita sem a participação do mestre veneziano e foi inicialmente publicada em França, em Setembro de 2015.

Corto Maltese – 50 anos depois

Este notável texto de Francisco Louçã, dedicado a Corto Maltese, demonstra que a BD já chegou a todos os quadrantes, mesmo aos mais improváveis. Como gostaríamos que o exemplo de Francisco Louçã, manifesto conhecedor e apreciador da 9ª Arte, fosse seguido por outros políticos… Só lhes faria bem. 

The House of Corto Maltese

benoit-mouchart-editeur-nous-avons-ressuscite-corto-maltese-parce-qu-il-releve-du-mythe,M259220“O marinheiro da BD ganhou casa no Cais do Sodré”

Artigo de Mara Gonçalves (Público, suplemento Fugas, em 6/8/2016)

 

“Hello! You are in the House of Corto Maltese. Who you are? You want to come to the discovery of the world of Corto Maltese? You are in Lisbona. Lisbona.”

Neste bar quase tudo se inspira nas aventuras da mítica personagem de banda desenhada criada por Hugo Pratt, desde o nome à decoração ou à carta de cocktails. Até este velho telefone, que nos interpela na casa de banho com uma voz entre o fantasmagórico e o vilanesco, definitivamente surreal.

“Rasputin, is you? Give me the letter I want. We need this map to discover the secret.”

A gravação, em loop contínuo, é a mais recente criação artística de Filipe Dias, o capitão-mor deste pequeno navio atracado desde o final do ano passado na Rua da Boavista, em Lisboa. “Não era aquele fã, mas sempre tive uma pequena paixão por esta personagem”, conta o designer de 42 anos. Daí que Corto Maltese — e o amigo e rival Rasputin — tenham sido a escolha natural quando quis homenagear os marinheiros que outrora navegavam pelas ruas do Cais do Sodré, aqui a dois passos, então bairro de prostitutas e má fama.

Um pouco por todo o espaço há, por isso, objectos que remetem para o universo dos barcos e das grandes aventuras pelo mundo e, claro, recortes das bandas desenhadas e colecções encadernadas das histórias criadas por Pratt, nos anos de 1970-90. Na parede, um mapa surge em destaque para assinalar as Viagens de Corto Maltese, mas, entretanto, “as pessoas começaram a pôr os países de onde vinham ou que tinham visitado”. Pioneses coloridos despontam do México, da Colômbia e do Brasil, do Mali, de França, Japão, Irão ou da Tailândia.

Na lista de bebidas, mais mundo. Runs, vodkas e gins chegam às prateleiras vindos dos quatro cantos do planeta. Só os vinhos são todos portugueses, maioritariamente do Alentejo e de Lisboa. Mas até aqui Filipe Dias procura ter, “por norma”, marcas “difíceis de encontrar noutros bares e que não sejam vendidas nas grandes superfícies comerciais”. E, depois, há cocktails com nomes inspirados no universo Corto Maltese, sempre feitos à base de rum, lima, mel e açúcar amarelo.Corto Maltese no Cais do Sodré

Ainda está softly open — como se lê na porta envidraçada — e tudo manter-se-á “sempre em mudança”, da decoração às cartas de bebidas e de petiscos (há sempre algo para forrar o estômago, mas sem menu fixo, indo de fatias de pizza a conservas ou sandes de presunto). A ideia é criar um “espaço cool”, onde as pessoas possam vir “conhecer um pouco a história do comic”. Mas também “um pouco da história do bairro”. As duas homenagens misturam-se numa profusão de objectos antigos, colagens, pinturas, camadas, sobreposições e pormenores que se acumulam em cada recanto, num estilo descontraído e despretensioso.

“Queremos mostrar que, mesmo com pouco orçamento, é possível fazer uma homenagem aos sítios que estão a desaparecer em Lisboa e na Europa porque os novos senhorios compram [os espaços] e, sem saberem a história, fazem tudo de novo e completamente diferente daquilo que eram”, conta o responsável.

Os balcões vieram de casas vizinhas, os copos desemparelhados sentam-se em velhas mesas de costura (as máquinas foram cobertas de dourados ou rosa fúcsia e os carros de linhas substituídos por rolhas de cortiça), pequenas televisões transmitem filmes a preto e branco, há telefonias e máquinas registadoras de outros tempos. O bar é também uma espécie de showroom do trabalho da CortoMundo, empresa de design liderada por Filipe Dias, que criou algumas das peças transformadas. “Está tudo à venda, é uma questão de falarmos”, ri-se.

Corto Maltese nunca passou por Portugal nas suas aventuras além-mar, mas Hugo Pratt viajou pelo país várias vezes. Numa entrevista ao Público, em 1992, o autor italiano, que viria a falecer três anos depois, defendeu que a capital lusa tinha “mudado muito”. “Antes, Lisboa era uma cidade cosmopolita, depois tornou-se uma cidade turística.” Portugal tinha-se tornado “um produto de postcard e folclore”. Nunca saberemos o que Pratt diria desta House of Corto Maltese, mas deixamos a imaginação fluir numa viagem no tempo da sua obra e do país, até a música nos embalar por outras paragens longínquas.

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