Como Tintin e os seus amigos saudavam o Ano Novo

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Com as capas de Natal e de Ano Novo assinadas por Hergé — e que, por isso, valem hoje fortunas no mercado de originais, onde as obras do criador de Tintin têm batido todos os recordes —, a famosa revista belga nascida em 26/9/1946, sob o signo do mais popular herói da BD europeia, levou a muitos lares, espalhados por quatro continentes, os seus votos de Boas Festas, enchendo de encanto e de júbilo, com as suas magníficas galas, muitos milhares de espíritos juvenis.

Mal sonhava Hergé (aliás, Georges Rémi), nessa época, que os seus trabalhos seriam tão apreciados e que atingiriam no futuro, em pleno século XXI, um valor material e simbólico que ultrapassaria o de muitas obras de arte. Justificadamente, aliás, como provam estas capas do Tintin respeitantes aos neófitos anos de 1950 e 1952, onde o notável talento gráfico de Hergé se conjuga com a mais espirituosa fantasia (excelente ideia a da barreira aduaneira, separando os “vícios” das “virtudes”, com a pomba da paz, objecto “frágil”, em 1º plano).

Que, para os amantes da 9ª Arte (sem limites etários), as mesmas galas, o mesmo prazer e a mesma jovialidade, que Hergé tão bem sabia retratar, se renovem todos os dias em 2017, são os votos d’A Montra dos Livros e dos outros blogues da nossa Loja de Papel.

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A grande aventura do jornal Tintin

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Depois do Paris-Match, que lhe dedicou um número especial com 112 páginas, recheado de artigos, entrevistas e imagens de interesse histórico, a revista especializada dBD assinalou também o 70º aniversário do Tintin belga, nascido em 26 de Setembro de 1946, por iniciativa de Raymond Leblanc, fundador das Éditions du Lombard, e sob a direcção artística do mais famoso autor dessa época, Georges Rémi (Hergé), a quem coube a tarefa de reunir uma ecléctica equipa de colaboradores, da qual fizeram parte, nos primeiros tempos, Edgar Pierre Jacobs, Jacques Laudy, Paul Cuvelier, Le Rallic e ele próprio.

Tão intemporal como o célebre herói que lhe deu o nome, o semanário “dos jovens dos 7 aos 77 anos” (que já não se publica desde 1988) continua a perdurar na memória dos seus fiéis leitores espalhados pelo mundo — e que em Portugal, graças a uma edição lançada em Junho de 1968 pela Livraria Bertrand, foram também da ordem das dezenas de milhares.

Nessas luxuosas publicações, recentemente distribuídas nas bancas portuguesas e que recomendamos sem reservas a todos os tintinófilos, em geral, e aos visitantes deste blogue, em particular, constam várias homenagens aos principais heróis da revista e seus autores, com destaque para uma grande entrevista com Raymond Leblanc (no Paris Match Hors-Série) e para séries emblemáticas como Blake e Mortimer, Alix, Dan Cooper, Chlorophylle, Modeste et Pompon, Ric Hochet, Michel Vaillant, Corentin, Thorgal, Bernard Prince e muitas outras, à testa das quais figura naturalmente o incontornável personagem que deu fama, glória e fortuna ao seu criador: o sempre jovem Tintin, que Hergé quis que morresse com ele, mas que afinal lhe sobreviveu mesmo sem viver novas aventuras, para deleite de quem ainda sonha com um mundo transfigurado pela inocente magia do exotismo. 

 

Uma visita ao Museu na companhia de Tintin

Museu Hergé

Quem ainda não conhece o Museu Hergé, situado na localidade de Louvain-la-Neuve, a poucos quilómetros de Bruxelas, e for um incondicional admirador da obra do famoso autor belga e da sua maior criação, o incontornável e sempre jovem repórter Tintin, deve seguir o exemplo dos fiéis devotos do profeta Maomé, que pelo menos uma vez na vida cumprem o seu dever mais sagrado, fazendo uma peregrinação a Meca.

Mesmo que uma visita ao Museu não tenha a mesma importância para os “crentes” de Hergé, será certamente uma recordação inesquecível… e que lhes dará direito a ficar também com algumas “relíquias”, juntando-as a outros valiosos objectos da sua colecção.

Por cortesia de João Manuel Mimoso, um amigo que já realizou essa “peregrinação” (talvez mais do que uma vez!), mostramos-vos algumas das suas recordações, constituídas materialmente pelo folheto com a planta do local e o horário das visitas, e pelos bilhetes, curiosa e artisticamente estampados com pequenas vinhetas das histórias de Tintin.

Nenhum visitante do Museu Hergé cometerá, por certo, o “sacrilégio” de deitá-los fora… porque as “relíquias” conservam-se e veneram-se, mesmo que sejam simples rectângulos de papel!

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Um aniversário memorável

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Em 26 de Setembro de 1947, um dos mais populares e afamados semanários juvenis que se publicavam na Europa do pós-guerra completou um ano de existência, dedicando a essa jubilosa efeméride um número especial com uma capa desenhada pelo seu principal colaborador (e também director) artístico: Georges Remi (Hergé).

Autor de um personagem que já era famoso nalguns países europeus, incluindo Portugal (onde começou a ser publicado n’O Papagaio, em 1936), Hergé consagrou-lhe nesse número mais duas páginas da grande aventura Le Temple du Soleil, ao mesmo tempo que o retratava num berço, em pose ainda de bebé, junto de Milou, rodeado pelos “padrinhos” Haddock e Tournesol, sob o olhar alegre do jovem índio Zorrino… enquanto dois “anjos”, encarnados pelos irmãos Dupondt, saudavam estrepitosamente, com o seu alarde habitual, o rebento cujo primeiro aniversário era promessa (que largamente se confirmaria) de um futuro auspicioso e recheado de extraordinárias aventuras.

Uma bela e icónica capa do Tintin que gostosamente recordamos, assinalando uma data a todos os títulos memorável da história da BD europeia.

Hergé – Colheita de 1938

Somos livros capa   052Ao lermos uma notícia com este título na revista Somos Livros, distribuída com o jornal Público de 3 de Abril p.p., ficámos com a certeza de que a obra de Georges Rémi (Hergé) se valoriza de dia para dia, como um bom vinho guardado em velhos cascos de carvalho.

Mais uma vez se comprova que nenhum outro herói da BD consegue ultrapassar Tintin em projecção internacional e em sucesso de marketing, que já se esten- deu também ao negócio de leilões, com os seus originais postos à venda a atin- girem valores cada vez mais elevados. Aliás, não é só Hergé que se vende bem; os leilões de pranchas de BD de outros (re)conhecidos autores (Moebius, Bilal, Manara, Pratt, Uderzo) correm de vento em popa, multiplicando-se nessa próspera área.

Se Hergé ainda fosse vivo, estaria hoje milionário — mesmo sem ter ganho o euromilhões —, pois cada um dos seus álbuns tornou-se uma mina de ouro! Até ilustrações soltas ou capas de revistas e de edições especiais valem agora milhares de euros, como noticiou com destaque a revista Somos Livros, da Bertrand Livreiros, numa página que a seguir reproduzimos — e em que também se fala de outro ícone da cultura popular europeia: o romancista Georges Simenon, que foi contemporâneo e compatriota de Hergé.

Dois temas com bastante interesse, assim o julgamos, para os nossos leitores…

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Histórias dos Velhos Deuses (por Marcelo de Morais) – 1

Os Doze Trabalhos de Hércules (1ª parte)

Marcelo de Morais 1         023Com um fundo heróico e aventuroso, inspirado nas lendas da mitologia grega, “Os 12 Trabalhos de Hércules”, episódio da série “Histórias dos Velhos Deuses”, foi um dos expoentes máximos da obra de Marcelo de Morais (que também assi- nava Moraes) publicada no Diabrete, depois da sua passagem pelo Camarada, onde criou, entre outros, dois heróis memo- ráveis: o Inspector Litos e o aspirante a detective Vic Este, protagonistas de duas séries policiais que demonstravam a sua aptidão para um género realista narrado de forma caricatural.

Embora o estilo gráfico reflectisse uma forte influência da chamada “escola de Bruxelas” (vulgo escola de Hergé), os argumentos não seguiam a mesma linha, procurando inspiração em temas e personagens que fugissem aos estereótipos da tradicional BD de aventuras, como a maioria, aliás, das histórias do Camarada, cujo cariz mais nacionalista agradava profundamente aos seus leitores.

Marcelo de Morais 1ANesse aspecto, a revista editada pela Mocidade Portuguesa distinguiu-se, pelo lado positivo, de todas as suas congéneres, sem cair em ladainhas de louvor ao regime nem em excessos patrióticos ditados pela evocação sistemática de feitos históricos, mas dando até preferência a cenários contemporâneos e a heróis comuns, como os de Marcelo de Morais, que se identificavam com uma certa forma de ser e estar no mundo, típica dos portugueses de todas as eras.

No Diabrete, onde pontificava o grande mestre da ilustração Fernando Bento, terá sido relativamente fácil a Marcelo de Morais fazer vingar o seu estilo, graças à presença assídua do mais célebre herói da BD europeia e dos seus inseparáveis companheiros de aventuras. Mas não existiam ainda condições para que Marcelo pudesse repetir os êxitos do Camarada, criando outras personagens fixas que, como o Inspector Litos e o jovem estudante de arquitectura (e autor de “aventuras em quadradinhos”!) Vic Este, conquistassem também o apreço dos leitores. Tanto mais que era difícil competir com heróis como Tintin e Bob e Bobette, ou seja, com a mestria dos dois maiores expoentes da emergente escola franco-belga: Hergé e Willy Wandersteen.

Marcelo de Morais 2Tendo de escolher outro caminho, o jovem arquitecto — vocação que transmitira ao seu herói Vic Este — optou, e bem, pelos assuntos didácticos, pelas biografias de célebres actores de cinema, pelos passa- tempos e pelas curiosidades, conseguindo, no cômputo geral, um crédito bastante positivo com toda a inovação, jovialidade e modernismo artístico que trouxe ao Diabrete, cujo aspecto gráfico, durante esse período, se alterou profundamente.

Para o historial da revista ficaram criações risonhas, de amena e proveitosa leitura, em rubricas como “Desenhos Animados”, “Histórias dos Velhos Deuses”, “Sabias Isto?”, “Tudo Isto… e um Prémio Também!”, e algumas histórias aos quadradinhos como “O Terrível Combate” e “A Fórmula Secreta”, em que aperfeiçoou o seu modelo de realismo caricatural. Marcelo de Morais 3Ou seja, nesta fase da revista a presença de Marcelo de Morais (Moraes) não passou despercebida, tornando-se tão assídua e importante como a de Fernando Bento e de outros autores.

Em homenagem a uma prestigiosa revista e a um dos seus melhores colaboradores, começamos hoje a apresentar “Os 12 Trabalhos de Hércules”, outra faceta (algo bicéfala) do trabalho humorístico de Marcelo de Morais, cujo teor didáctico estava em perfeita harmonia com a orientação geral do Diabrete nessa última etapa da sua existência, em que o “grande camaradão” procurava abertamente, sem esquecer a vertente lúdica, cultivar o espírito dos mais jovens com páginas recheadas de textos culturais e de rubricas com conhecimentos úteis.

Dentro em breve apresentaremos a segunda e última parte desta história, estreada no nº 794 (7/2/1951) e concluída no nº 806 (21/3/1951) do Diabrete.

Trabalhos Hérculo  1 e 2Trabalhos Hérculo  3 e 4Trabalhos Hérculo  5 e 6

Páginas escolhidas de autores escolhidos

As imprecações do Capitão HaddockTintin - Haddock 1

Haddock (delírio)É frequente os mais carismáticos heróis da Banda Desenhada, tanto nas séries humorísticas como realistas, terem um parceiro, um inseparável amigo e companheiro de aventuras, que serve quase sempre de seu contraponto, distinguindo-se por possuir outros dons e outras características (que caem também no goto dos leitores), mostrando uma faceta mais humana, com defeitos, fraquezas e virtudes — o que contribui para elevar o padrão das suas aventuras, sem prejuízo do estatuto mítico do herói principal.

Nesta peculiar categoria de personagens secundárias que rapidamente ascendem também ao “estrelato”, vem-nos de imediato à memória a incontornável figura do Capitão Haddock, talvez o mais famoso de todos os comparsas que enriqueceram criações emblemáticas, onde a aliança entre duas personagens, mesmo que diametralmente opostas, pede meças aos heróis solitários…

Tintin - Capa CaranguejoTintin apenas o conheceu na sua 9ª aventura, “O Caranguejo das Tenazes de Ouro” (Le crabe aux pinces d’or), em que Haddock fazia o papel de um marinheiro alcoólico e embrutecido, com frequentes acessos de cólera, alucinações e perdas de memória, mas que graças à amizade com o jovem aventureiro e aos seus exemplos de coragem e virtude, conseguiu regenerar-se, passando a ter hábitos mais moderados.

Excepto quanto à linguagem… que, pelo contrário, se tornou ainda mais irascível, recheada de extravagantes expressões oriundas de um copioso “jargão” que o velho marinheiro se compraz em refinar, continuando a somar-lhe novas injúrias, como uma espécie de glossário (a sua obra-prima) que não se cansa de rever e enriquecer.

Tintin - Haddock 2 a 5

Mais tarde, ao descobrir o tesouro da “Licorne”, Haddock fica na posse de um nome aristocrático e de um sumptuoso palacete em Moulinsart, onde habita, em boa paz e harmonia, juntamente com Tintin, o “surdo que nem uma porta” professor Tournesol e o fleumático mordomo Nestor… mas nem por isso aprendeu a refrear os seus excessos de linguagem.

Aqui têm mais um hilariante exemplo (à boa maneira de Hergé) dessas intempestivas manifestações de mau humor — quase sempre provocadas por peripécias que bulem com os seus sentimentos e a sua noção de justiça, mas também, sob o efeito do álcool, com o seu vício e o seu feitio brigão —, extraído igualmente do episódio “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”, que é um autêntico festival de impropérios… para deleite dos leitores!

Tintin - Haddock 6 a 9

Tintin - Cavaleiro Andante capa nº 405Ninguém consegue ter como Haddock, na ponta da língua, um vocabulário tão truculento, tão vivo, tão espontâneo, de tão grande riqueza e variedade verbal, lembrando uma torrente que jorra de um geiser fumegante ou uma cascata que rola fragorosamente por uma encosta, abafando todos os outros ruídos. Sobretudo quando ele usa um megafone, como na cena seguinte, a todos os títulos memorável, de Coke en stock (em português, “Carvão no Porão” ou “Mercadores de Ébano”).

Esta página foi publicada no Cavaleiro Andante nº 405, de 3 de Outubro de 1959, revista onde Haddock ficou conhecido como Capitão Rosa, nome que o Diabrete tinha sido o primeiro a consagrar entre os leitores portugueses, na aventura “O Tesoiro do Cavaleiro da Rosa”.

Tintin - mercadores de ébano

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