Exposição sobre o “Cavaleiro Andante” no Clube Português de Banda Desenhada

Prosseguindo uma intensa actividade, com ciclos temáticos que englobam exposições, colóquios e outros eventos realizados na sua nova sede, o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) inaugura no próximo sábado, dia 18 de Março, uma mostra dedicada à emblemática revista Cavaleiro Andante, que na década de 1950 rivalizou com o Mundo de Aventuras e outras publicações juvenis, distinguindo-se por oferecer aos seus leitores as melhores obras da moderna BD europeia, nomeadamente de origem italiana e franco-belga.

A exposição comemora os 65 anos de nascimento do Cavaleiro Andante, cuja existência decorreu de 5 de Janeiro de 1952 até 25 de Agosto de 1962 (556 números), sempre sob a direcção de Adolfo Simões Müller e contando com Maria Amélia Bárcia como redactora e Fernando Bento como principal colaborador artístico.

As exposições do CPBD: Fernando Bento

Nota: O artigo seguinte, da autoria de Carlos Gonçalves, membro da actual direcção do Clube Português de Banda Desenhada, foi reproduzido da “folha de sala” dedicada à exposição de originais de Mestre Fernando Bento (com vários e magníficos exemplos da sua arte incomparável), que continua patente, até ao final do ano, na sede do CPBD, sita na Avenida do Brasil, 52 A, Reboleira (Amadora), podendo ser visitada todos os sábados, das 15 às 18 horas.

img_5763FERNANDO BENTO: UM CONTRIBUTO INESGOTÁVEL DE ARTE

Sabemos que no nosso país pouco ou quase nada distinguimos as pessoas pelas suas qualidades, sejam de que tipo forem e muito menos na Banda Desenhada. Dar valor ao nosso vizinho mortal, está fora de questão. É preciso lembrar muitas vezes o seu contributo e, mesmo assim, só passados vários anos é que é fixada na mente das pessoas a realidade do seu valor e da existência desse prodígio. Temos vindo a considerar Eduardo Teixeira Coelho, ainda que perfeitamente legítimo, como a elite dos nossos desenhadores. É claro que a banda desenhada é um campo muito vasto e ainda que os estilos dos vários desenhadores possam ser muito diferentes, o resultado final e prático é que conta.
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Ao longo destas últimas décadas e naquelas onde a Banda Desenhada se evidenciou mais, as que poderemos considerar como o período áureo das histórias aos quadradinhos foram a década de vinte do século passado com o aparecimento da revista ”ABC-zinho”, com trabalhos de Cotinelli Telmo e Rocha Vieira, a década de trinta com a publicação da revista “O Papagaio”, com trabalhos de José de Lemos, Arcindo Madeira, Rudy, Ruy Manso, Tom, Meco, etc, e “O Mosquito” com Tiotónio, E. T. Coelho, José Garcês, José Ruy, Servais Tiago, Jayme Cortez, etc, a década de quarenta com a edição do “Diabrete”, com trabalhos de Fernando Bento, os anos cinquenta com a remodelação do “Mundo de Aventuras”, com Vítor Péon, Carlos Alberto Santos, José Batista, José Antunes, etc, e o lançamento do “Cavaleiro Andante” com histórias de Fernando Bento outra vez, E. T. Coelho também, e finalmente a década de sessenta com a publicação da revista “Tintin”, nesta última fase já com a introdução de uma nova escola na Banda Desenhada, a franco-belga, até aqui pouco conhecida dos leitores nacionais.

Quanto aos desenhadores portugueses, o leque já era muito pequeno, tirando o José Ruy, o Vítor Péon, o Fernando Relvas e pouco mais. Em todas estas décadas distinguiram-se muitos desenhadores portugueses e, de uma maneira geral, de uma forma bastante positiva. Alguns deles têm sido mais distinguidos, outros menos. Pensamos que seria agora a oportunidade de engrandecer Fernando Bento, através de uma amostra bastante significativa dos trabalhos deste desenhador no campo das capas, cuja produção se aproxima dos duzentos trabalhos, todos eles de invulgar beleza, embora nem todos pudessem ser escolhidos, como é óbvio.

A sua produção é infindável, quer nas capas quer nas histórias aos quadradinhos, e sempre com uma qualidade de que dificilmente o artista abdicou, ainda que poucas vezes, principalmente já nos últimos anos do “Cavaleiro Andante”, algumas histórias de “Emílio e os Detectives” e as aventuras de “Sherlock Holmes” tenham sido produzidas de uma forma mais prática e com uma simplificação de alguns pormenores e cenários, não prejudicando de qualquer dos modos a sua qualidade, mas oferecendo aos leitores um novo formato e um novo estilo, fruto da sua maturidade. Muitos desenhadores e pintores, depois de uma vida intensa e criativa, optam por desenhar e pintar de uma forma diferente, abarcando até alguns estilos menos marcantes e mais experimentais.

Fernando Bento foi um dos desenhadores portugueses que, em paralelo com Eduardo Teixeira Coelho, adaptaria mais obras literárias à banda desenhada. O primeiro iria buscar aos romances dos nossos escritores Eça de Queiroz e Alexandre Herculano, com arranjos de Raul Correia, temas para criar os seus trabalhos e Fernando Bento a Júlio Verne, de parceria com Adolfo Simões Müller. Fernando Bento era acima de tudo um desenhador de aventuras e emoções. Era natural a sua escolha do escritor francês. Estamos quase certos ao afirmar que, tanto quanto conhecemos da sua obra e da de outros desenhadores estrangeiros, o nosso artista foi, sem dúvida alguma, o que mais títulos das obras de Júlio Verne aproveitaria para as suas criações. 

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Mas claro que não seria só a sua escolha preferida, a par dos grandes feitos, grandes viagens e muita aventura. A arte de Fernando Bento na execução de ilustrações e capas era também destinada aos leitores mais jovens, com histórias adaptadas de contos escritos por Adolfo Simões Müller ou por outros autores de renome, como Alice Ogando, Maria de Figueiredo, Emília de Sousa Costa, etc.

UMA VIDA DE ARTISTA

Fernando Bento nasceu a 26 de Outubro de 1910 e veio a falecer no dia 14 de Setembro de 1996. Do mesmo modo que alguns outros artistas, começaria muito novo a dominar o lápis e a borracha e, como era usual na época, viria a criar o tal chamado jornalinho que era emprestado, alugado ou copiado (quando tal era possível), para ser vendido aos amigos e colegas de turma.

Na década de trinta já o encontramos como desenhador activo, colaborando numa série de jornais e revistas, tais como “Os Sports”, “Diário de Lisboa”, “A República”, “O Século”, “A Capital”, etc, com reportagens sobre Teatro e a desenhar caricaturas, além de se ocupar de reportagens sobre outros temas. Cinco anos depois, tinha também abraçado o teatro como figurinista e maquetista, desempenhando as respectivas tarefas em vários teatros da época: Variedades, Nacional, Apolo, Avenida e Maria Vitória.

OS SEUS TRABALHOS NA REVISTA “DIABRETE”

A grande reviravolta na sua vida artística dá-se a partir de 4 de Janeiro de 1941, quando se inicia como colaborador da revista “Diabrete” a partir do seu nº. 1, com a criação das personagens “Béquinhas, Beiçudo e Barbaças”. Depois, é uma criação contínua nas páginas desta revista, onde se mantém durante uma década como desenhador de serviço, criando personagens e ocupando-se da parte gráfica da publicação, com principal incidência nas obras de Júlio Verne:

“Dois Anos de Férias” (Diabrete nºs. 33/74); “Volta ao Mundo em 80 Dias” (Diabrete nºs. 75/100); “Miguel Strogoff” (Diabrete nºs. 101/138); “Robur, o Conquistador” (Diabrete nºs. 139/161); “Viagem ao Centro da Terra” (Diabrete nºs. 187/216); “Da Terra à Lua” (Diabrete nºs. 217/236); “À Roda da Lua” (Diabrete nºs. 237/256); “Um Herói de Quinze Anos” (Diabrete nºs. 257/311); “Cinco Semanas em Balão” (Diabrete nºs. 312/356); “Vinte Mil Léguas Submarinas” (Diabrete nºs. 357/415); “A Ilha Misteriosa” (Diabrete nºs. 416/510) e “Matias Sandorf” (Diabrete nºs. 512/644).

Doze obras estavam, pois, adaptadas à banda desenhada em mais de 500 páginas e capas. Mais tarde, começa a adaptar obras infantis para a revista e a contar as vidas de figuras históricas portuguesas, destacando os seus feitos de forma inesquecível. Ao mesmo tempo, criava várias personagens, “Zuca”, “Zé Quitolas”, ”Bicudo e Bochechas”, etc, todas elas em paralelo com as suas atividades profissionais. E ainda desenhava “As Mil e Uma Noites”…3-imagens-bento-2

A SUA PRODUÇÃO NA REVISTA “CAVALEIRO ANDANTE”

Mas foi no “Cavaleiro Andante” que o seu apogeu se verificou, devido às grandes obras que viria a criar para as páginas da publicação. Algumas serão sempre inesquecíveis, tais como “Quintino Durward”, “Beau Geste”, talvez a mais significativa, “O Anel da Rainha de Sabá” e “A Torre das 7 Luzes”. Nesta publicação as adaptações da obra de Júlio Verne continuam a encantá-lo, pois “Uma Cidade Flutuante” (Cavaleiro Andante nºs. 253/289) irá divertir os leitores. Outra adaptação cheia de interesse foram as aventuras de “Emílio e os Detectives”, assim como os belos quadros que nos deixou nas páginas do “Cavaleiro Andante”, evocando “Os Lusíadas” de Luís de Camões, na comemoração do dia do poeta. Algumas das suas obras viriam a ser, mais tarde, publicadas em álbum: “Béquinhas, Beiçudo e Barbaças”, “34 Macacos e Eu”, “Diabruras da Prima Zuca”, “A Ilha do Tesouro” (uma edição pelas Iniciativas Editoriais e outra pela Asa), “As Mil e Uma Noites”, “Beau Geste”, “O Anel da Rainha de Sabá”, “Com a Pena e Com a Espada”, “Um Campeão Chamado Joaquim Agostinho”, “Regresso à Ilha do Tesouro”, etc.

OUTRAS PUBLICAÇÕES COM TRABALHOS DO DESENHADOR

Sempre que nos debruçamos sobre a vida de qualquer desenhador português e perante a vasta produção de cada um deles, sem esquecer que quase todos não puderam exercer em pleno a sua vocação a nível profissional, pois era necessário ter em paralelo um emprego fixo, perguntamos como era possível dedicar tanto tempo à banda desenhada, sem prejuízo de outras tarefas e da sua vida particular.
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Mas, na verdade, assim acontecia e além das duas revistas principais em que Fernando Bento colaborou, de que já falámos, há outras onde o artista deixaria a sua arte indelével. A primeira foi “República – Secção Infantil”, suplemento infantil do jornal “A República”, entre 1938 e 1939, “Pim-Pam-Pum”, suplemento infantil do jornal “O Século”, onde colaborou de 1941 a 1959, “Norte Infantil”, suplemento infantil do jornal “Diário do Norte”, com trabalhos seus de 1951/1952, revista “Mundo de Aventuras” em 1980, “Quadradinhos – Suplemento infantil do jornal “A Capital”, em 1980/1982, etc. Depois há vários trabalhos esporádicos espalhados pelo “Bip-Bip”, “Nau Catrineta”, “O Pajem” (suplemento infantil do “Cavaleiro Andante”), livros infantis e outros. Estava, pois, cumprida uma missão inesquecível de um artista que, durante mais de 40 anos, nos deixou ter acesso a obras excepcionais que nos acompanharam nos nossos períodos lúdicos.

                                             Carlos Gonçalves

Reportagem do grande encontro no Clube Português de Banda Desenhada

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Texto de Luiz Beira e fotos de António Martinó

Como foi atempadamente anunciado, na tarde de 15 de Outubro deu-se um grande encontro de gente-BD no Clube Português de Banda Desenhada (na Amadora), durante a inauguração de três exposições em simultâneo: “Originais de Fernando Bento”,  “ABCzinho” e “Star Wars”.
Vamos por partes: para além de elementos da “gerência” do CPBD (Carlos Gonçalves, Pedro Mota, Geraldes Lino, José Ruy, Paulo Duarte e Carlos Moreno) e de entre muita gente entusiasmada, contavam-se João Mimoso, José Menezes, Fernando Cardoso, António Amaral, José Coelho, João Paiva Boléo, António Martinó, a editora Maria José Pereira, o argumentista Jorge Magalhães e os desenhistas José Pires, Catherine Labey, Gastão Travado e António Lança Guerreiro.
Os dois pontos altos que ficaram na nossa memória:
1 – A presença grata e emotiva da Srª. D.ª Arlete Bento, viúva de mestre Fernando Bento. Uma maravilhosa presença!
2 – O colóquio bem elucidativo, com momentos de saborosas ironias, do Dr. António Mega Ferreira, que nos encantou com o relatar da sua relação pessoal com a Banda Desenhada. Em momentos de breve diálogo, tiveram interveniências Geraldes Lino, Luiz Beira, António Martinó, José Coelho e José Ruy.
O BDBD esteve lá, representado pelo autor deste texto.
Um agradecimento muito especial a António Martinó, que gentilmente nos cedeu a reportagem fotográfica deste evento.
Nota final curiosa: vimos aí um exemplar que não é raro, é raríssimo, da primeira edição em álbum de “As Mil e Uma Noites” por Fernando Bento, pela Colecção Imagem (1948).

(Nota: reportagem extraída, com a devida vénia aos seus autores, do blogue BDBD, coordenado por Luiz Beira e Carlos Rico).

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Últimos preparativos, antes da abertura de portas.

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Panorâmica da exposição de homenagem a Fernando Bento.

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Duas magníficas capas de F. Bento para o “Cavaleiro Andante”…

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… e outras duas para o “Diabrete”.

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Algumas edições em álbum com trabalhos de Bento….

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… sendo esta a mais rara (“As Mil e Uma Noites” – Colecção Imagem – 1948).

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Arlete Bento conversa com João Paiva Boléo e Geraldes Lino, enquanto Carlos Gonçalves (à direita) tenta ultimar um último pormenor, e José Coelho e Luiz Beira (à esquerda) trocam informações para um futuro post do BDBD.

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No balcão, à entrada da sede do CPBD, destacavam-se os “Cadernos de Banda Desenhada”, com uma reedição (1988) de “As Mil e Uma Noites”, de F. Bento e Simões Müller.

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José Ruy, Geraldes Lino e Luiz Beira, à conversa.

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Arlete Bento e Paiva Boléo foram os primeiros a ocupar lugar para o colóquio, enquanto, em segundo plano, Gastão Travado e António Amaral conversavam sobre… BD.

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Geraldes Lino e o Dr. Mega Ferreira durante a palestra “Eu e a BD”.

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Panorâmica do público, rendido às intervenções do convidado da tarde.

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Uma das alas da exposição de capas e páginas do “ABCzinho”.

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Capa do #18 do “ABCzinho” (1926), preenchida com uma BD, como era usual na época do Tiotónio.

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Capa do #302 do “ABCzinho” (1931), com um desenho alusivo às “Aventuras de Três Maráus”, de Carlos Ribeiro.

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Anúncio da oferta da construção de armar do hidroavião “Lusitânia”, desenhada nos anos 20 por Filipe Rei (publicado na revista “ABC), e uma maquete do mesmo já montada.

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Carlos Gonçalves e Carlos Moreno.

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Pedro Mota e Carlos Gonçalves.

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Exposição da “Guerra das Estrelas”, cedida pelas CM Beja/Amadora.

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Carlos Gonçalves, António Martinó e Geraldes Lino.

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Uma vitrina com revistas, cromos e cartas desta série.

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Bonecos em pvc e outros objectos relacionados com “Star Wars”, da colecção de Gastão Travado.

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Cadernetas de cromos da série.

Fernando Bento e o “ABCzinho” homenageados pelo Clube Português de Banda Desenhada

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Nota: no mesmo dia, 15 de Outubro, às 16h00, como já anunciámos, realiza-se uma palestra com a presença de um ilustre convidado, o Dr. António Mega Ferreira, que abordará o tema “Eu e a BD”. Esta palestra integra-se no ciclo Personalidades Ilustres da Vida Social, Política e Cultural Falam de Banda Desenhada, iniciado em Julho do corrente ano com o Dr. Guilherme de Oliveira Martins.

Finda a palestra, às 17h30, será inaugurada outra exposição patente nas novas e espaçosas instalações do CPBD, sobre o universo multimédia da famosa saga Star Wars, em que figuram revistas, cartazes, cromos, cards, etc, cedidos na sua maioria pelas Bedetecas de Beja e da Amadora. Outra exposição que merece a pena ser visitada, sobretudo pelos fãs desta mítica série.

O Clube Português de Banda Desenhada atinge, assim, o ponto mais alto da sua recente actividade, coincidindo com o 1º aniversário da inauguração da nova sede, em Novembro de 2015, após um protocolo firmado com a Câmara Municipal da Amadora.

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Dia 15: Palestra do Dr. António Mega Ferreira no CPBD

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Nota: no mesmo dia, 15 de Outubro, a partir das 15h30, serão inauguradas no CPBD três exposições sobre os temas ABCzinho – 95 anosHomenagem a Fernando Bento Star Wars (esta depois do colóquio aqui anunciado, que terminará cerca das 17h30).

Um ponto alto nas celebrações de mais uma data festiva do honroso historial do Clube Português de Banda Desenhada, que em Novembro do ano passado inaugurou a sua nova sede, nas espaçosas instalações cedidas pela Câmara Municipal da Amadora.

Fazendo o balanço de todo o trabalho abnegadamente realizado durante este período (pois o Clube vive apenas da quotização dos seus sócios), não hesitamos em dar os parabéns ao CPBD e à sua actual direcção, especialmente na pessoa dos três membros mais activos: Carlos Gonçalves, Carlos Moreno e Geraldes Lino.

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Mestre Fernando Bento – Uma memória sempre viva

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Ilustrador, pintor, caricaturista, figurinista, cenógrafo (e muito mais), Fernando Bento foi um autor versátil, polivalente, que deu vida e colorido a algumas das mais belas páginas publicadas em jornais infanto-juvenis, como Diabrete, Pim-Pam-Pum, Cavaleiro Andante, O PajemJoão Ratão, na fase mais criativa e original de uma longa e esplendorosa carreira.

Assinalando o 20º aniversário da sua morte (14 de Setembro de 1996) — como fez, com a oportunidade e o primor habituais, o nosso colega Largo dos Correios, cujos posts diários consideramos de consulta obrigatória —, queremos também recordar uma entrevista do saudoso Mestre, que o semanário de actualidades O Século Ilustrado (então, muito em voga) publicou no nº 961, de 2 de Junho de 1956.

Sob o título “No Banco dos Réus”, esse tipo de entrevista consistia num singelo questionário, que pouco tinha de particular no tocante a aspectos de índole profissional, cingindo-se a temas mais genéricos e banais, a que os entrevistados deveriam responder com ligeireza (temperada de ironia) e bom-humor. Fernando Bento não fugiu à regra, entrando no “jogo” sem reticências, mesmo que uma das suas respostas possa suscitar alguma surpresa.

Mas convém não esquecer a época e o seu contexto…

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Livros infantis & outras curiosidades – 8

A OBRA DISCOGRÁFICA DE ODETTE DE SAINT- -MAURICE E DE FERNANDO BENTOLP Bento 1

Eis mais dois discos em vinil da editora Alvorada, com histórias tradicionais infantis adaptadas por Odette de Saint-Maurice e interpretadas por um excelente elenco artístico, num arranjo musical do maestro Tavares Belo, acompanhado por canções de Jaime Filipe.

Estes dois long-play incluem sete gravações diferentes, reproduzindo as capas dos discos mais pequenos (single), também de 33 rotações, com os mesmos contos tradicionais.

Um deles é “Os Três Anõezinhos da Floresta”, que já foi citado nesta rubrica, e há mais dois com capas ilustradas por Fernando Bento: “O Velho, o Rapaz e o Burro” e “A Princesa que Guardava Patos”.LP Bento 2

Aqui fica o registo de mais uma curiosidade, para os coleccionadores, sobre a heterogénea produção de um dos maiores artistas gráficos portugueses de todos os tempos. Falta-nos, agora, encontrar também os singles, sobretudo aqueles que têm capas de Fernando Bento, pois são para nós os mais valiosos.

O Carnaval do “Diabrete”… há 72 anos!

Em 1944, iniciando uma tradição que se manteve até ao último ano da sua existência, o Diabrete festejou o Carnaval — “a época do sonho”, em que “os meninos e as meninas se mascaram e se julgam transportados, por graça de misteriosa varinha de condão, a um mundo distante e diferente” — com uma feliz iniciativa que iria espalhar a alegria e o alvoroço entre alguns dos seus leitores mais folgazões, residentes de norte a sul do país.

Como estava escrito em letras gordas no rodapé da primeira página do nº 163, dado à estampa em 12/2/1944, a oito dias do início dos festejos carnavalescos, esse número inseria nada mais nada menos do que “6 fatos de máscara”.

Aqui têm, na mesma imagem, o cabeçalho e o rodapé desse número.Diabrete 163 - 1 021

Claro que não se tratava de máscaras completas, como nas lojas, mas sim de “seis lindíssimos figurinos” criados por um exímio desenhador, cujo nome já era bem conhecido da juventude portuguesa, sobretudo daquela que não dispensava a leitura, todas as semanas, do seu “grande camaradão”. Ora o Diabrete enfrentava, nessa época, a larga audiência e a radiosa fama do seu principal concorrente, O Mosquito, onde fazia também brilhante figura outro notável desenhador português: Eduardo Teixeira Coelho.

Mas o facto de ambas competirem no mesmo terreno com todas as “armas” ao seu alcance, não significava que as hostes estivessem divididas, isto é, muitos leitores d’O Mosquito gostavam também de ler o Diabrete, e vice-versa. E o apreço que nutriam pelo talento de E.T. Coelho, então ainda na fase de ilustrador, com um pujante estilo realista que rivalizava com os dos melhores artistas estrangeiros do seu género, equiparava-se ao que sentiam pelos trabalhos de Fernando Bento, cuja pitoresca arte decorativa dava uma alegre vivacidade e uma sofisticação especial a todos os números do Diabrete.

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A página que acima reproduzimos, com uma sugestiva ilustração pelo “lápis mágico” de Fernando Bento, abria as “cortinas” de um “palco” onde se exibiam seis maravilhosos e originais trajos de Carnaval (nada fáceis de confeccionar, aliás!), criados pelo traço exuberante e pela pueril fantasia de um desenhador cuja carreira começara precisamente no teatro.

Para tornar a sua “ideia luminosa, espantosa e estonteante” ainda mais irresistível, o Diabrete decidiu promover uma espécie de concurso entre as hábeis mães (ou tias e avós) costureiras, oferecendo aliciantes prémios aos seus leitores mais prendados, isto é, vestidos a preceito e prontos a posar para o fotógrafo. Naquele trágico tempo de guerra, cujos ecos ribombavam ainda além-fronteiras, e de carestia para inúmeras famílias portuguesas, não eram muitos, certamente, os miúdos que podiam dar-se ao luxo de pedir aos pais uma boneca ou uma bola de futebol! Nem sequer de concretizar um sonho ainda mais ambicioso: tomar parte num desfile de máscaras carnavalescas.

Quanto aos vistosos figurinos criados por Fernando Bento (em que os rapazes estavam em supremacia), note-se que foram inspirados nalguns dos personagens que animavam as páginas do Diabrete (menos o Tarzan, que só usava tanga!), com destaque para um dos mais carismáticos: o azougado saloio Zé Quitolas, com o seu trajo típico e o seu “burrico” pela trela, que graças ao versátil traço de Fernando Bento tantas e tão divertidas peripécias proporcionou aos pequenos leitores do “grande camaradão de todos os sábados”.

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Livros infantis & outras curiosidades – 7

OS TRÊS ANÕEZINHOS DA FLORESTA

Eis o que encontrámos numa ronda por uma feira de livros e velharias: um disco em vinil de 33 rotações — desses que já passaram de moda, mas se tornaram objecto de colecção, quase de culto, por vezes —, com uma história infantil da famosa escritora Odette de Saint-Maurice, a nossa Enid Blyton, graças à projecção que alcançou com a qualidade e o interesse da sua vasta obra.

Mas o que mais nos chamou a atenção foi a capa desse disco, em que é bem visível a assinatura de um dos maiores vultos das artes figurativas portuguesas do século passado. Nem mais nem menos do que Fernando Bento!

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Nunca nos passou pela cabeça que o saudoso mestre, apesar de toda a sua prolixa actividade na área da literatura infantil — onde deixou, de facto, uma marca indelével de humor, encanto, graciosidade, arte, engenho e fantasia —, também tivesse produzido trabalhos deste género, inscrevendo o seu nome na capa de um disco para os mais novos. E logo a par de uma figura que tanto se distinguiu na mesma área, como Odette de Saint-Maurice!

Aqui têm duas belas imagens desta peça discográfica, editada em 1960, com a etiqueta Alvorada: a capa e a contracapa desenhadas por Fernando Bento.

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Infelizmente, por falta de um gira-discos — esses aparelhos de outra era, cuja agulha rodava lentamente, riscando a superfície negra e luzidia do vinil e atraindo, com um estranho fascínio, o nosso olhar absorto —,  já não podemos ouvir este duplo disco (com duas faces), em que o conto original de Odette de Saint-Maurice, na voz de grandes intérpretes, como Maria Lalande, João Lourenço, Rui Luís, Andrade e Silva, entre outros, é ritmado por canções de Jaime Filipe, com música do célebre maestro Tavares Belo.

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“As Minas de Salomão” (1) – por Henry Rider Haggard

Rider HaggardComo já expliquei pacientemente ao nosso gato, que parece sentir algum interesse por estes assuntos — influenciado, sem dúvida, pelo ambiente em que vive, numa loja de papel —, há várias versões deste famoso romance de aventuras publicadas em Portugal, a mais comum traduzida, ou melhor, “revista” por Eça de Queirós, no seu estilo colorido e inimitável, muito distante da ênfase vitoriana de Rider Haggard (cujo nome, aliás, nem figura na capa de muitas delas). Uma das mais antigas, a da Livraria Lello do Porto (5ª ed., As Minas de Salomão (Lello)1920), distingue-se pela gravura do pitoresco personagem que dá pelo nome de capitão John Good, em fraldas de camisa, monóculo faiscando no olho, cachimbo aceso e rosto meio escanhoado, tal como apareceu, pela primeira vez, aos olhos atónitos dos indígenas, na terra dos Kukuanas.

Muitos anos depois, encontrei este livro na biblioteca do meu Pai e “devorei-o” em poucos dias, com crescente entusiasmo — creio que foi nas vésperas de Natal —, antes ainda de conhecer a magistral adaptação de Fernando Bento publicada pelo Diabrete, que só li já mais espiga- dote, quando tinha os meus 12 anos.

Quero assinalar também, neste artigo, outras edições mais recentes que para mim têm um cunho especial e que, por isso, continuo a guardar num cantinho da minha (bem recheada) biblioteca.

Um desses livros foi publicado em 1992 pela Difel, com capa de Clementina Cabral e traduzido do original por Daniel Gonçalves, que redigiu também um interessante prefácio com o título “As Três Minas de Salomão”, onde explica que existem, além da versão queirosiana, duas do próprio Haggard, consoante a origem do eclipse a que o autor recorreu para reforçar a “superioridade” dos seus três aventureiros de raça branca — o capitão John Good, o barão Henry Minas de salomão Difell capa843Curtis e o caçador Allan Quatermain — aos olhos dos supersticiosos indígenas: a solar (1ª edição, 1885) e a lunar (1905), embora esta não tivesse prevalecido na grande maioria das edições seguintes. E tudo por causa de um atento leitor e admirador de Haggard, provavelmente astrónomo de profissão e “cocabi- chinhos” por natureza,  que lhe apontou um erro crasso, pois na época em que decorria a acção do romance nenhum eclipse total do sol fora presenciado em todo o continente africano.

Claro que Haggard argumentou (e bem) com a liberdade de imaginação que é apanágio de todos os novelistas que se prezam, sobretudo dos que escrevem histórias de aventuras com enredos mais ou menos fabulosos, como é o caso daquela que lhe deu fama, tornando-se, de imediato, um enorme sucesso quando apareceu nas livrarias inglesas em finais de Setembro do ano da graça de 1885.

A título de curiosidade, reproduzimos na íntegra o artigo “As Três Minas de Salomão”, escrito por Daniel Gonçalves como prefácio da primeira tradução portuguesa que foi verdadeiramente fiel ao texto de Rider Haggard. Num próximo post, continuaremos a abordar o tema, apresentando mais versões deste aliciante romance de aventuras, igualmente dignas de interesse.

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Minas de salomão Difell prefácio 2 + 3

Minas de salomão Difell prefácio 4 + 5

Minas de salomão Difell prefácio 6 + 7

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