“As Minas de Salomão” (2) – por Henry Rider Haggard

Rider HaggardO segundo livro que nos apraz registar, entre as edições portuguesas do famoso clássico de Henry Rider Haggard, foi editado pelo Círculo de Leitores, em 1986, e conserva a tradução de Eça de Queirós, a menos fiel ao espírito e à letra do romance original — exceptuando uma outra versão, ainda mais apócrifa, atribuída a Emilio Salgari, que a editora Romano Torres incluiu na sua colecção com o nome deste famoso autor italiano (como adiante veremos). Mas a edição do Círculo de Leitores recomenda-se por estar recheada de gravuras de Walter Paget, um dos melhores artistas gráficos que recriaram, com o poder das imagens, a fabulosa aventura de Allan Quatermain e dos seus intrépidos companheiros.

Minas de Salomão - c- dos leitores 994Em 2001, surgiu outra edição do Círculo de Leitores, igualmente digna de merecimento, pois contém, sob o título “Uma tradução enigmática e uma aposta ganha”, um sugestivo intróito de Luís Almeida Martins, que também prefaciou e traduziu para a mesma editora outras quatro obras do escritor vitoriano, entre elas “O Anel da Rainha de Sabá”, um dos marcos do romance de aventuras africanas que figuram, desde há muito, na minha lista de favoritos.

As capas desta colecção pecam por ser pouco atractivas, com um design repetitivo, por isso preferimos reproduzir as do volume “A Caverna dos Diamantes”, publicado pela Romano Torres, em 1935 e 1950, na Colecção Salgari, com uma magnífica ilustração de Júlio Amorim (na edição mais antiga a capa é de Alfredo de Morais, mas curiosamente há poucas diferenças entre ambas).

Se o nosso Eça adaptou livremente o romance, mudando até o nome do seu narrador, que se transformou em Alão Quartelmar, Salgari foi ainda mais longe, pois “nacionalizou” um dos principais personagens, o barão Curtis, assim como Neville, o seu irmão desaparecido, que passaram a ser naturais de Génova; além disso, abreviou muitas descrições de Haggard, sobretudo nos últimos capítulos, para fazer luzir o seu próprio estilo e os seus enredos cinegéticos (com resultados menos felizes que os de Eça, que também suprimiu parte do romance).

Minas de Salomão - A caverna dos diamantes 1 e 2

Por fim, last but not the least, o terceiro volume da minha relação saiu em 2011, numa série de clássicos (alegadamente juvenis) distribuídos pelo semanário Sol, com capas de sóbrio e sedutor grafismo (atrevo-me mesmo a chamar-lhe original), como a que dá um toque singular a esta edição do meu conten- tamento… mais uma que reproduz fielmente o pitoresco texto queirosiano, mas enriquecido com gravuras de Walter Paget, um dos mais reputados ilustradores ingleses do século XIX, como já referi anteriormente neste artigo.

Minas de Salomão - Sol 997A propósito de edições ilustradas, não posso deixar de aludir à versão publicada em 1986 pela Editorial Verbo, na sua colecção Clássicos Juvenis, que tinha a valorizá-la, em todos os volumes, as capas e os desenhos de Augusto Trigo, artista bem conhecido e apreciado pelos amantes da 9ª Arte, cuja extensa obra no domínio da ilustração merece ser devidamente assinalada e aplaudida, para sair do quase anonimato em que permanece.

Reproduzimos seguidamente a capa de uma das numerosas edições deste livro, datada de 1995, em que o grafismo do cabeçalho sofreu alterações, bem como o título da colecção: Clássicos Juvenis TVI — mantendo-se, no entanto, a apresentação interior do texto, adaptado por Maria Isabel de Mendonça Soares, a partir da “libérrima” versão de Eça de Queirós, com seis desenhos de página inteira (um dos quais também aqui se reproduz).

Minas de Salomão - Verbo 1 e 2

Os Homens e a História – 2

O HERÓI DE KARTUM

Mohamed Ali (Mahdi do Sudão)O artigo de hoje é dedicado a uma das maiores figuras da história colonial inglesa, o general Charles Gordon, governador da cidade de Kartum, na região sudanesa do Alto Nilo, que resistiu heroi- camente durante meses, com uma pequena guarnição, ao assédio das fanáticas hordas de Mohamed Ali Abadalah Ahmed, o Mahdi, um chefe muçulmano que se considerava “enviado de Deus” e que como tal, sob a bandeira verde do Profeta, queria islamizar todos os habitantes daquela região, obrigando os próprios cristãos a abraçar a sua fé. (Esse fanatismo religioso é muito semelhante ao que hoje caracteriza grupos extremistas como a Al-Qaeda ou o Isis. Mas as circunstâncias históricas, há 130 anos, eram bem diferentes).

A favorita do Madi   176Tudo isto culminou, tragicamente para Gordon, no ano da graça de 1885, numa das regiões mais desérticas e inóspitas do norte de África, teatro de uma guerra cruel e sangrenta que o cinema e os romances de aventuras – Emilio Salgari (“A Favorita do Mahdi”), Alfred E. W. Mason (“As Quatro Penas Brancas”), Henrik Sienkiewicz (“Um Pequeno Herói”) –, além da BD, já retrataram várias vezes.

O texto que se segue – oriundo, com algumas alterações, do que surgiu em 1981 no vespertino A Capital – foi também publicado, em versões mais sucintas, no jornal 24 Horas, em 2004, e no Mundo de Aventuras nº 164 (2ª série), de 18 de Novembro de 1976, de onde reproduzimos duas gravuras e o cabeçalho com o título que serve de epígrafe a esta rubrica.

Os Homens e a Histórias - cabeçalho848

O HERÓI DE KARTUM

Texto: Jorge Magalhães ¤ Ilustração principal: Augusto Trigo

Em 1884, no Sudão, sob domínio egípcio e otomano, desencadeou-se uma guerra de extermínio contra todos os infiéis, a Jihad (guerra santa) instigada por Mohamed Ahmed, o Mahdi, uma espécie de Messias para os muçulmanos, chefe da fanática seita dos derviches.

O herói de kartum 1   177Em Kartum, o general inglês Charles Gordon, ao serviço do governo do Cairo, viu-se sob a ameaça de um cerco, enquanto emissários do Mahdi lhe propunham a rendição, imediatamente seguida pela conversão de todos os cristãos e dele próprio à fé de Alá. Tão drásticas condições nunca poderiam ser aceites por um homem da têmpera de Gordon, fervoroso leitor da Bíblia e militar de carreira com uma brilhante folha de serviços. Embora a guarnição egípcia fosse bastante reduzida e os reforços que aguardava tardassem em chegar, respondeu ao Mahdi que recusava toda e qualquer negociação com os rebeldes e que a cidade, bem fortificada, seria capaz de aguentar um longo cerco.

Mas em Kartum havia apenas dois oficiais europeus: ele e o coronel Stewart, seu ajudante de campo. Os habitantes, na maioria sudaneses, sentiam-se intimidados pela aproximação do inimigo, que massacrava sem piedade as populações, pondo todo o Alto Nilo a ferro e fogo.

A cidade estava situada sobre um istmo, na confluência do Nilo Branco com o Nilo Azul, e o seu porto pequeno, mas bem defendido, constituía a única comunicação com o exterior. Gordon Paxá, como era conhecido no Egipto e no Sudão, decidiu fortificar também os arredores, mandando cavar trincheiras e disseminar minas por todo o terreno.

Enquanto prosseguiam os preparativos militares e nos celeiros se arrecadava febrilmente o maior número de víveres, chegou um telegrama de Londres, convidando Gordon a abandonar Kartum sem combate, caso o cerco se apertasse. Embora estivesse ainda a tempo de retirar, o velho soldado preferiu ignorar a ordem do seu governo.

– Não sairei daqui – afirmou – nem permito que nenhum combatente o faça! A minha vida não importa! Tenho de pensar no destino de toda esta gente, que seria massacrada se a abandonássemos. Londres devia ter-me mandado víveres e tropas em vez de ordens!

Em Março, os derviches passaram o Nilo em milhares de pequenas embarcações e Kartum ficou isolada. Só restava a saída pelo rio, tanto ou mais perigosa do que uma surtida por terra. De noite, as fogueiras dos derviches brilhavam ao longo da margem, como um rosário inumerável de estrelas. Vozes guturais chegavam aos ouvidos dos defensores da cidade, entoando cantilenas de ódio e de morte, acompanhadas pelo rufar incessante dos tambores. Gordon, no seu palácio, ouvia-os, imperturbável. A um dos oficiais egípcios que certa noite, durante um bombardeamento, lhe pediu, aterrorizado, que se abrigasse, o general respondeu simplesmente: – Saiba que Deus criou Charles Gordon sem medo!

Em Inglaterra, onde todos o consideravam um herói, os jornais, apoiados pela população, lançavam vibrantes campanhas a seu favor. Por fim, Gladstone, o chefe do governo, pressionado pela própria Rainha Vitória, teve de enviar uma força sob o comando de Lorde Wolseley, que desembarcou no Cairo em 9 de Setembro, quando o cerco já se arrastava há seis meses e as águas do Nilo começavam a baixar, dificultando a navegação e atrasando os socorros.O herói de kartum 2  copy

Entretanto, Kartum continuava a resistir heroicamente a todos os ataques, mesmo os de morteiros, com a artilharia que os derviches tinham capturado, meses antes, a um destacamento anglo-egípcio comandado pelo coronel Hicks. Outras povoações foram menos felizes. Em Berber, os derviches massacraram sem piedade 50.000 habitantes. Muitos outros foram condenados ao cativeiro. A situação piorava de dia para dia.

Apesar de Wolseley ter ficado retido no Cairo, devido à má preparação das suas tropas para as campanhas do deserto, como acontecera com Hicks, Gordon continuava teimosamente apostado em resistir até ao fim e a morrer com honra, se fosse esse o seu destino. Apaixonado leitor da Bíblia, de que nunca se separava, o valoroso general respondia serenamente a todos quantos se referiam sem esperança aos anunciados socorros:

– Deus não prometeu deferir os nossos votos terrestres!

Mas o prolongado cerco tinha enfraquecido os defensores. O próprio Gordon, sempre calmo, como que indiferente ao desenrolar dos acontecimentos, resolveu tentar um golpe de sorte e enviou Stewart, o seu dedicado lugar-tenente, num pequeno barco a vapor, pelo rio infestado de inimigos e obstáculos. Com Stewart ia também um grupo de turistas americanos e outros civis que não tinham sido evacuados a tempo. Quando o ruído das enormes pás do barco deixou de se ouvir, Gordon recolheu ao seu gabinete e aí, em completa solidão, continuou a ler a Bíblia e a redigir o seu diário.

Quinze dias depois, um negro recolhido no rio deu aos sitiados a infausta notícia: o vapor tinha sido atacado e naufragara nas rochas. Nenhum dos seus ocupantes escapara com vida. Os sectários de Mahomed Ahmed tinham-se apoderado das cartas em que Gordon pedia socorro e explicava a precária situação da cidade.

Sem esperar que o Mahdi, agora ao corrente dos seus diminutos efectivos, redobrasse os ataques, Gordon destacou outro dos seus oficiais para ir buscar socorros, no único barco que lhes restava. Com um sorriso amargo, o general desejou boa sorte aos que se afastavam, deixando a guarnição ainda mais reduzida, e acrescentou à sua mensagem uma breve frase pessoal:

O herói de kartum 3  178– Digam aos meus compatriotas que me sinto feliz por cumprir até ao fim o meu dever!

Em Janeiro, décimo mês do cerco, o heróico Gordon resistia ainda. Foi então que uma notícia correu pela cidade, entre as manifestações de regozijo do povo: dizia-se que os reforços estavam apenas a dois dias de marcha. Vitoriando Gordon, a população de Kartum correu às mesquitas para dar graças a Alá.

Passou-se uma semana, sem novidades, e o desânimo tornou a invadir os sitiados. Só Gordon, no seu posto, permanecia lúcido e enérgico. Os obuses metralhavam continuamente a cidade. Parte das muralhas já se encontrava em ruínas. Foi então que sucedeu o pior: os Besingher, soldados indígenas, recusaram-se a combater mais. Quando os primeiros derviches entraram na cidade pela muralha oeste, completamente derrocada, largaram as armas e renderam-se. Só Gordon continuou a dar o exemplo de teimosia, embora soubesse que tudo estava perdido.

Ao fim de dez meses de cerco heróico e sem tréguas, Kartum caiu nas mãos da horda do Mahdi. No seu palácio, Gordon esperou o inimigo a pé firme, sozinho como quase sempre estivera. Os derviches não o pouparam, apesar do supersticioso temor que a sua figura e a sua coragem lhes inspiravam. Tombou sob uma furiosa chuva de golpes, trespassado por dezenas de azagaias e alfanges, depois de ter despejado o tambor do seu revólver até à última bala. Era o dia 26 de Janeiro de 1885. Gordon, o general sem medo, escrevera uma das páginas de maior heroísmo da história das epopeias coloniais.

Indignados, os jornais ingleses relataram que os assaltantes lhe tinham cortado a cabeça para a oferecerem ao Mahdi, mas, verdade ou boato, esse facto nunca foi confirmado. Em 28 de Janeiro, as tropas de socorro, depois de enfrentarem os derviches em Abu Klea, chegaram à cidade devastada pelo fogo, retirando-se logo em seguida. Apesar do Mahdi ter morrido em circunstâncias misteriosas, poucos meses depois – vítima, ao que diziam os supersticiosos sudaneses, de uma maldição de Gordon –, a “guerra santa”, a jihad, continuou durante 13 anos.

Em 1898, Kitchener, um valoroso oficial que conhecia bem o Sudão, conseguiu vencer os derviches e a bandeira inglesa voltou a ser hasteada no palácio de Gordon, em Kartum, numa homenagem póstuma ao herói que soube até ao fim honrar a sua divisa: “Deus criou Charles Gordon sem medo!”

 

 

 

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