No centenário de Mickey Spillane

Artigo de João Gobern, publicado no Diário de Notícias, edição de 9/3/2018, de onde o reproduzimos, com a devida vénia.

Nota (J. M.): Mickey Spillane, um dos nomes cimeiros da linha mais violenta do policial “negro” norte-americano — o género Hard Boiled —, autor best seller nos anos 1950/60, mas hoje quase esquecido pelas editoras portuguesas e pelos apreciadores de uma literatura policial ainda florescente (ao contrário do western  e da ficção científica), tem vários livros publicados na antiga e prestigiosa Colecção Vampiro, a começar por “A minha arma não perdoa” (#89, Agosto 1954), onde o seu detective  de “maus fígados”, Mike Hammer, ombreou em grande plano com o Sam Spade, de Dashiel Hammett, e o Philip Marlowe, de Raymond Chandler — estes mais cerebrais e refinados, produtos de uma escrita sofisticada que chegou ao cinema, vertida no celulóide pelo imaginário de realizadores como Howard Hawks e John Huston, e transformou esses personagens em ícones da literatura policial e da cultura popular do século XX. Mike Hammer, embora trilhando outros caminhos, não ficou de fora, pois também a 7ª Arte (e até a BD) se interessou por ele…

Alguns dos primeiros livros de Mickey Spillane publicados na Colecção Vampiro (#124, 134, 143, 176, 180, 235), com capas ilustradas por Lima de Freitas.

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O eterno comissário Maigret

(Artigo de João Gobern publicado no Diário de Notícias de 23 de Outubro p.p., de onde o extraímos com  a devida vénia).

Recorde-se, a propósito, que várias dezenas de títulos de Simenon, com a sua mais célebre criação, foram publicados pela Livros do Brasil, na popular Colecção Vampiro (renascida há um ano com a chancela da Porto Editora), pela Bertrand, numa série com 49 volumes dedicada a Maigret, e posteriormente pela ASA.

“Maigret e o Seu Morto”, editado agora pela Relógio d’Água, surgiu pela primeira vez, em tradução portuguesa, no volume 65 da Colecção Vampiro (Agosto 1952), cuja capa, assinada por Cândido Costa Pinto, um dos melhores ilustradores portugueses, a seguir reproduzimos.

A Vampiro publicou vários episódios da carreira de Maigret entre os volumes 53 e 145 (Agosto 1951 a Maio 1959), retomando a série com mais firme regularidade a partir do volume 386 (Agosto 1979).

Embora as mais antigas edições portuguesas remontem à década de 1930 (Livraria Clássica Editora e Empresa Nacional de Publicidade), foi incontestavelmente a icónica Vampiro que mais espaço dedicou ao fleumático comissário parisiense, cujo cachimbo (um legado de Simenon) se tornou a sua imagem de marca.

O êxito mediático deve-se ao cinema e à televisão, onde um selecto grupo de actores (com destaque para Jean Gabin, como lembra João Gobern) lhe deu um rosto humano, uma voz e um corpo, multiplicados por vários registos, que consolidaram no culto dos espectadores o cânone original. Rowan Atkinson (o célebre Mr. Bean do cinema inglês) é o mais recente desses intérpretes, numa série produzida pela ITV. 

O regresso dos (bons) “Vampiros”

DN - Col Vampiro artigo

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Os Gatos e o Crime – 5

DOROTHY  L. SAYERS

Filha de um eclesiástico de Witham, Henry Sayers, Dorothy Leigh Sayers nasceu em Oxford a 13 de Junho de 1893, num meio burguês abastado que a Primeira Guerra Mundial arruinou. D. SayersDepois de brilhantes estudos sobre literatura medieval no Sommerville College, enveredou pelo ensino, mas breve se deu conta de que, afinal, não apreciava muito essa profissão. Partiu para França, como professora assistente de inglês, mas a mudança de ambiente também não lhe agradou. A sua melhor recordação de França foi a de ter lido todos os romances de Arsène Lupin e de ter conhecido, na famosa École des Roches, o galante Eric Whelpton, em quem se inspiraria para criar o herói dos seus romances policiais. De regresso a Londres, deixou o ensino para trabalhar durante algum tempo numa agência de publicidade.

Essa experiência servir-lhe-ia, mais tarde, para retratar o meio das salas de redacção em O Crime Exige Propaganda (Murder Must Advertise). Depois de se interessar, durante algum tempo, pelos movimentos socialistas que moldaram a sociedade inglesa de entre-as-duas-guerras, murder must advertise e o crime exige propagandapublicou em 1923 o seu primeiro romance, O Lorde e o Desconhecido, iniciando assim a entrada em cena do aristocrático detective Lord Peter Wimsey.

Ainda que os seus romances se integrem no quadro do tradicional  enigma policiário, ela trouxe ao género um tom humorístico, com alguns “dardos” afiados contra a sociedade bem-pensante da época, e deu ao seu herói uma vida sentimental que faltava aos Sherlock Holmes, Hercule Poirot e outros célebres detectives britânicos. Com efeito, Lord Peter apaixonou-se loucamente pela bela Harriett D. Vane, que salvou do patíbulo em Intriga e Veneno e com quem casou finalmente em Noite de Crime.

Strng poison e intriga e venenoA vida privada de Dorothy Sayers foi menos idílica que as dos seus personagens de ficção. No aspecto senti- mental, foi mesmo tumul- tuosa e decepcionante. Uma relação com um mecânico de automóveis saldou-se, em 1924, com o nascimento de uma criança que criou sozinha, desprezando as conveniências. Mas, em compensação, os seus êxitos literários deram-lhe a autonomia e a liberdade. Em 1928, casou com o capitão Mac Fleming,  grande bebedor e notório preguiçoso. Uma união difícil, para não dizer falhada, que, no entanto,  deixou Dorothy Sayers com os movimentos livres para produzir, a bom ritmo, as aventuras de Lord Peter, criação que lhe trouxe glória e fortuna.

Curiosamente, sem conseguir sair dos limites do género policial, ela sabia reconhecer o talento dos seus pares. Assim, tomou a defesa de uma romancista cuja obra, O Assassinato de Roger Ackroyd, ofuscara, pela sua «desonestidade» narrativa, os dignos membros do Detection Club.

Para homenagear aquela que a tinha apoiado incondicionalmente, Agatha Christie sucedeu-lhe, após a sua morte, na presidência do Detection Club. P1090990Dorothy Sayers abandonou Lord Peter, em 1940, para se consagrar à sua maior paixão, a literatura medieval. Traduziu nomeadamente A Divina Comédia de Dante e A Canção de Rolando. Dos seus romances policiais, foram publicados em Portugal: O Lord e o Desco- nhecido (Whose Body?) na Colecção Xis nº 45; e na Colecção Vampiro: Qual dos Cinco? (The Five Red Herrings), nº 22; Crime Perfeito (Unnatural Death), nº 28; O Mistério do Bellona Club (The Unpleasantness at the Bellona Club), nº 35; O Crime Exige Propaganda (Murder Must Advertise), nº 63; Intriga e Veneno (Strong Poison), nº 74; e O Gato de Diamantes (Clouds of Witness), nº 112. Como membro do Detection Club, participou também no enigma colectivo Quem Matou o Almirante? (The Floating Admiral), com que a Colecção Vampiro celebrou o seu nº 500.

Dorothy Sayers faleceu em 17 de Dezembro de 1957, em Witham, Essex, onde foi erigida uma magnífica estátua de bronze em sua honra.

Entre as suas obras mais emblemáticas e com relação directa ao nosso tema, os gatos na literatura policial, conta-se Clouds of Witness (1926, 1ª edição), livro publicado na Colecção Vampiro com o título O Gato de Diamantes, como já referimos, tradução de Mascarenhas Barreto e capa de Cândido Costa Pinto (uma das mais icónicas da colecção, com uma concepção artística superior até, em nosso entender, à das inúmeras edições inglesas).

Clouds of witness eO Gato de diamantes

Os Gatos e o Crime – 4

ERLE STANLEY GARDNER

Prosseguimos hoje esta série, repescada (com alguns aditamentos e novas imagens) dos arquivos de Gatos, Gatinhos e Gatarrões, blogue orientado por Catherine Labey.

E.S. GardnerErle Stanley Gardner, um dos nomes mais prestigiosos da literatura policial, nasceu em Malden, a 17 de Julho de 1889, e faleceu em Temecula (Califórnia), a 11 de Março de 1970. Inspirando-se na sua experiência como homem de leis, foi o autor de Perry Mason, o célebre advogado detective, e dos seus ajudantes Della Street e Paul Drake. Publicou igualmente, com o pseudónimo de A. A. Fair, as aventuras de Donald Lam e Bertha Cool, assim como outros livros com diversos pseudónimos: Kyle Corning, Charles M. Green, Carleton Kendrake, Charles J. Kenny, Robert Parr e Les Tillray.

The Case of the Velvets ClawA sua educação não teve uma base muito sólida, porque grande parte da juventude passou-a em constantes deslocações com o pai, que era engenheiro de minas no Oregon e no Klondike, durante a grande corrida ao ouro. Habituado a uma vida livre e movimentada, Gardner tornou-se um robusto aventureiro, chegando a participar em combates de boxe e a promover torneios ilegais de luta livre. Mais tarde, enquanto tirava um curso de Direito, foi contratado por um gabinete de advogados em Oxnard, Califórnia, para dactilografar os relatórios dos processos e os contratos jurídicos, adquirindo, assim, larga experiência prática.

Admitido no foro californiano, em 1911, abriu o seu primeiro escritório com 21 anos, defendendo os direitos das minorias étnicas. Mexicanos e chineses, gente pobre, raramente podiam pagar-lhe esses processos. Foi, portanto, para melhorar o seu salário que Gardner começou a escrever sob diversos pseudónimos, produzindo centenas de novelas policiais e de aventuras para os pulp fiction magazines, nomeadamente para os famosos Black Mask e Detective Story.

Raymond Burr como Perry Mason na série de TVA série Perry Mason iniciou-se em 1933, com O Caso das Garras de Veludo (The Case of the Velvet Claws), volume publicado na Colecção Vampiro nº 3 (Junho de 1947), e conta nada mais nada menos do que 82 novelas e três antologias de contos. Em paralelo com os casos de Perry Mason, cuja popularidade aumentou com a adaptação a uma série televisiva de sucesso, que tornou famoso o actor Raymond Burr, Gardner elaborou outra série com o district attorney (D.A.) Doug Selby, ao qual dedicou apenas nove volumes.

catsprowlatnight-frontNo fim dos anos trinta, para fazer concorrência ao detective amador Nero Wolf, criado por Rex Stout e, na altura, em pleno êxito, Gardner deu forma, com o pseudónimo de A. A. Fair, aos inquéritos de Bertha Cool, mulher avantajada, glutona e de aparência extravagante, mas esperta e resoluta, que gere uma agência de detectives, auxiliada pelo seu parceiro Donald Lam. A série tornou-se um best-seller e, mesmo sem alcançar a notoriedade de Perry Mason, permitiu a Gardner deixar a advocacia, dedi- cando-se a tempo inteiro à literatura.

Até 1970, alimentou as séries Perry Mason e Cool/Lam, num ritmo quase anual, totalizando no fim da sua carreira a publicação de 130 novelas com estes personagens. Em 1962, um ano depois de Ellery Queen, a sociedade dos Mistery Writers of America galardoou-o com o prestigioso Grand Master Award pelo conjunto da sua obra. A última novela que escreveu com Perry Mason, The Case of the Postponed Murder, só foi publicada em 1973, três anos depois da sua morte.

Rezam as crónicas (e os números) que, no auge da sua popularidade, Erle Stanley Gardner vendeu uma média de 26.000 exemplares dos seus livros policiais, por dia. Um recorde impressionante e praticamente imbatível!

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Encontrámos, até agora, dois livros de E.S. Gardner com gatos como protagonistas: The Case of the Careless Kitten (com o título em francês: La Langue au Chat), cuja tradução portuguesa, publicada na Colecção Vampiro nº 84, se intitula “O Caso do Gato Envenenado”, e The Case of the Caretaker’s Cat, na edição portuguesa com o título “O Caso do Gato do Porteiro” (Colecção Vampiro nº 40). Sob o pseudónimo de A. A. Fair, temos Cats Prowl at Night, publicado também em português, com o título “De Noite Todos os Gatos são Pardos(Colecção Vampiro nº 365).

gato do porteiro mais 2

Os Gatos e o Crime – 3

Ellery signatureLes Ellery 3Prosseguimos gostosamente a publicação desta série, repescada (com alguns aditamentos) dos arquivos de Gatos, Gatinhos e Gatarrões, blogue orientado por Catherine Labey.

Célebre solucionador de enigmas, o próprio Ellery Queen foi, durante muito tempo, um personagem misterioso. Hoje em dia, já não é segredo que sob esse nome emblemático se escondiam Manfred Bennington Lee e Frederic Dannay, dois primos, ambos nova-iorquinos, nascidos em 1905 (Manfred a 11 de Janeiro e Frederic a 20 de Outubro) no bairro de Brooklyn. Trabalhavam juntos em publicidade quando, em 1928, por brincadeira, resolveram participar num concurso de romances policiais.

Theromanhatcover +  Chapéu RomanoThe Roman Hat Mystery (editado em Portugal na Col. Vampiro nº 667 e na Col. Xis nº 22, com o título O Mistério do Chapéu Romano), ganhou o pri- meiro prémio e teve tanto êxito que o editor, depois da sua publicação em 1929, inci- tou-os a continuar a escrever. Os primos aceitaram.

Ellery Queen tinha nascido

O personagem Ellery Queen é filho do inspector Richard Queen, que aparece, aliás, frequentemente no ciclo e a quem foi consagrada uma antologia de contos. Aos vinte anos, 798266-ElleryQueen2so jovem Ellery, um dandy ocioso que lembra um pouco o Philo Vance de S.S. Van Dine, tornou-se narrador das suas próprias aventuras porque, muitas vezes, dá uma mãozinha ao pai, com o seu acutilante espírito de observação e as suas brilhantes capacidades dedutivas, nos casos parti- cularmente difíceis. Antes de revelar a chave do enigma, a narrativa suspende-se para lançar um desafio ao leitor, avisando-o de que já conhece todos os indícios da trama e que deve formular a sua própria solução, antecipando-se a Ellery Queen. Whodunits (Quem o fez?) E Queen - as aventuras de EQ094clássicos e muito engenhosos, os inquéritos de Ellery Queen ganharam rapidamente uma vasta notoriedade. E longe de se contentarem em repetir a fórmula, os primos Lee e Dannay fizeram-na evoluir.

O ciclo Ellery Queen comporta quatro fases. Na primeira, que termina com a antologia As Aventuras de Ellery Queen (publicada no nº 113 da Colecção Xis), todos os romances ostentam a palavra Mystery nos títulos originais, caracte- rizando-se como  inquéritos de enigma clássicos.

A segunda fase, rematada também por uma antologia, engloba cinco títulos, apresentando um esquema narrativo menos rígido, em que o suspense está em nítida progressão.

index3A terceira, muitas vezes designada como fase da maturidade, inicia-se com Calamity Town e, nos seus seis romances e várias novelas, desenrola-se a crónica de Wrightville, pequena povoação que reflecte todos os vícios e defeitos da sociedade norte- -americana dos anos cinquenta.

A quarta e última fase do ciclo inclui vários textos apócrifos — porque, nos anos 60, a célebre dupla, numa autêntica manobra de marketing, decidiu convidar jovens autores, e até autores consagrados, a integrarem a equipa. Cerca de trinta romances saíram do prelo até ao final dos anos 60, escritos por diversos autores utilizando o pseudónimo (house name, em inglês) Ellery Queen, e supervisionados por Manfred B. Lee. Escusado será dizer que a operação rendeu bons dividendos…

Em 1932, pouco depois do nascimento de Ellery Queen, surgiu o seu homólogo Barnaby Ross, autor de outra série de romances ulteriormente reeditados com a assinatura de Ellery Queen. Os dois primos criaram, com esse pseudónimo, o seu segundo grande detective, Drury Lane, um antigo actor shakespeariano que, apesar da sua surdez, consegue deslindar os mais complexos enigmas.

eqmm_de_13 (1)Lee, com o nome de Queen, e Dannay, com o de Ross, ambos de cara tapada, fizeram digressões e debates públicos que, na época, obtiveram grande êxito.

Lee e Dannay fundaram também, em 1941, a revista Ellery Queen Mystery Magazine, que publicou as melhores novelas e contos policiais. Conseguir colaborar nas suas páginas não tardou a significar, para qualquer autor da especialidade, uma espécie de académica consagração. Foi, no seu género, uma revista que fez história, consolidando o prestígio e o renome da “marca”…

Durante largos anos, circulou nas nossas bancas uma edição brasileira deste magazine, lançada em Maio de 1949, que os amantes do género, fidelizados às colecções mais populares, como Vampiro, Xis, Enigma, Mistério & Acção, Grandes Mistérios e Escaravelho de Ouro, coleccionavam também ciosamente. Os mais eruditos preferiam, porém, as edições francesa e americana, que também chegavam regularmente a algumas livrarias.

Entre romances, novelas e antologias, os dois primos escreveram mais de oitenta obras. Em 1961, a dupla Ellery Queen recebeu o Grand Master Award pela excelência na área do romance de mistério policiário, atribuído pelo Mystery Writers of America.

Manfred B. Lee faleceu a 2 de Abril de 1971, e Frederic Dannay a 3 de Setembro de 1982.

Trio Cat opf many tails

Nota: Os dois primos usaram o gato como título de um dos seus romances policiais: Cat of Many Tails (em francês, Griffes de Velours), onde o “tareco” não é o que parece! Curiosamente, em Portugal, este livro foi editado com dois títulos diferentes: “O Enigma do Gato” na Colecção Xis nº 39 e na do Círculo de Leitores; e “O Gato de Muitas Caudas” (fiel ao título original) na Colecção Vampiro nº 469.

Na Colecção Xis, o ilustrador inspirou-se directamente numa das capas da edição americana, como podem ver nestas imagens.

O enigma do GatoXis e Circulo Leitoresl

 

Os Gatos e o Crime – 1

A GATA PERSA por Alessandro Varaldo

A Gata PersaEste é o primeiro “post” conjunto da Montra dos Livros e de Gatos, Gati- nhos e Gatarrões, o blogue orientado por Catherine Labey, que continua a partilhar connosco os seus conhe- cimentos técnicos. E o tema deste “post”, obrigatoriamente, tinha de ser sobre gatos. Um tema escolhido por ela e, aliás, ao que creio, pouco debatido: a presença (e a impor- tância) destes simpáticos e enigmá- ticos felinos na literatura policial, nomeadamente nalgumas obras de referência publicadas em colecções portuguesas. A pesquisa, a selecção de imagens e as notas biográficas são também da Catherine.

Começamos por um livro da Colecção Xis, que na sua época de maior êxito era um dos mais fortes concorrentes da emblemática Colecção Vampiro, cuja longa carreira chegou às sete centenas de títulos (703). A Xis, editada pela popular Minerva, foi muito mais modesta, quedando-se, no total das suas duas séries, pelo nº 210. Ambas publicaram uma apurada selecção de obras, fomentando o conhe- cimento dos maiores nomes da literatura policial (ou policiária) entre um público numeroso que aderiu prontamente a este género.

2014-02-06 09.00.12No 33º volume da Colecção Xis, Alessandro Varaldo, considerado o pri- meiro autor italiano de romances policiais, apresenta o inspector Ascanio Bonichi e o detective particular Gino Arrighi, num complexo caso intitulado “A Gata Persa”, que se desenrola em Roma, durante a época do fascismo.

A tradução foi confiada a um veterano dessas lides, José da Natividade Gaspar, e a magnífica ilustração da capa atesta o criativo talento de Edmundo Muge, ambos devidamente creditados neste volume, saído do prelo em 1954, e cuja maior pecu- liaridade reside no facto de ser escrito por um novelista italiano, coisa nunca vista na Colecção Vampiro, que dava preferência aos autores anglo-saxónicos. Entre ambas, a Xis foi também a única que publicou autores portugueses.

A ilustração de E. Muge tem curiosas analogias com a de uma edição italiana da Mondadori, que acima reproduzimos. Não se trata de plágio nem de cópia — aliás, o trabalho de Muge é superior —, mas de flagrantes semelhanças, que nos apraz registar. Segue-se uma breve biografia do romancista italiano, compilada pela Catherine.

A. Varaldo 2Alessandro Varaldo nasceu em Ventimiglia a 25 de Janeiro de 1876, filho de Giuseppe Varaldo e de Eugenia Rolando. Passou parte da mocidade na cidade natal, onde fez a escola primária, frequentando depois o liceu de San Remo. Bastante jovem ainda, mudou-se com a família para Génova, onde iniciou a sua actividade literária com 21 anos, participando no «Il primo libro dei trittici» (1897), texto de vanguarda do simbolismo italiano, com sonetos de Giribaldi, Molfettani e Varaldo.

Em 1898, publicou «La principessa lontana» e seguidamente escreveu poesia, teatro, ensaios e, sobretudo, romances e novelas, colaborando também intensamente em jornais e revistas. Ao todo, terá produzido cerca de 60 romances, 30 peças de teatro (das quais uma dúzia eram comédias), três volumes de poesia, três de crítica, dezenas de novelas e alguns livros para crianças, além de 136 artigos em jornais, alguns deles espanhóis e portugueses.

2014-02-06 09.03.12Na sua escrita transparecia o apego à terra natalícia, tendo situado frequentemente a acção dos seus romances em Ventimiglia. Em 1920, fundou a SIAE (Sociedade Italiana de Autores e Editores), que dirigiu até finais de 1928, quando, por decisão do governo, foi substituído por um director fascista.

Em 1931, criou a personagem do inspector Ascanio Bonichi no romance «Il sette bello», o primeiro policial italiano publicado (com o nº 21) na colecção I Gialli Mondadori, ou seja, os livros policiais da editora Mondadori. Bonichi, um inspector romano bonacheirão — com algumas características que o assemelham a Maigret —, foi protagonista de uma curta série terminada em 1938, que incluiu «Le scarpette rosse», «Circolo chiuso» e «Il tesoro dei Borboni», entre outras obras,  inaugurando o género «giallo», sinónimo de inquérito policial.

imagesZ6IGHGG4Entretanto, Varaldo dera vida ao detective particular Gino Arrighi, antigo braço direito de Bonichi, de carácter muito mais vigoroso, que surge nomeadamente em «A Gata Persa» (1933). Com a acção do seu «privado», Varaldo criticava veladamente a polícia nacional, reflectindo uma mudança de atitude para com as instituições fascistas, durante os anos 30.

Em «A Gata Persa» (La gatta persiana), Bonichi continua a tomar notas numa agenda de bolso, embora se fie princi- palmente na sua memória; evita sempre falar demais aos jornalistas; e fuma desal- madamente charutos toscanos, o que faz com que às 10 da manhã o seu gabinete já esteja cheio de fumo. Revela também um forte apetite pela boa mesa e por lindas mulheres, sem que Varaldo insista demasiado nesse comportamento. Gosta de gatos, cita versos de Belli e sentenças de outros autores e, por vezes, emprega o dialecto romano para captar as simpatias e confidências dos mafiosos de Roma.

Em 1943, Alessandro Varaldo assumiu a direcção da Academia de Arte Dramática de Roma, cidade onde morreu a 18 de Fevereiro de 1953.Gatas italianas e brasileiras

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