Arcádia edita “O Comboio dos Órfãos”

O combóio dos orfãos

O Comboio dos Órfãos é uma história sobre mobilidade e desenraizamento, que nos revela um período menos conhecido, mas muito significativo, da História dos Estados Unidos da América. Na sua costa leste, a onda de emigração maciça levou ao abandono de muitas crianças oriundas da velha Europa. Miseráveis entre os mais miseráveis, essas crianças abandonadas e maltratadas sobreviviam à custa de pequenos furtos e mendicidade nas ruas de Nova Iorque. Só nesta cidade, eram cerca de 20 mil em 1854, ano em que foi posto em prática o primeiro programa de adopção, conhecido pelo nome de “Orphan Train Riders”. Inicialmente artesanal, este sistema adquiriu rapidamente uma dimensão e uma eficácia quase industriais. Quando a iniciativa terminou, em 1929, cerca de 250.000 crianças haviam sido enviadas para o Oeste.

O reverendo Charles Loring Brace foi o primeiro a acreditar que retirando estas crianças do seu ambiente nocivo (onde eram conhecidas pela alcunha de “street rats”), poderia transformá-las em cidadãos irrepreensíveis. Nos estados do Middle West, havia falta de mão-de-obra e muitos casais que não podiam ter filhos… pelo que seria recomendável enviá-las, por comboio, de uma costa à outra dos EUA. As primeiras viagens, patrocinadas pela organização de Brace, a Children’s Aid Society, foram realmente um êxito.

Recorrendo a agentes locais, Loring Brace instituiu um sistema de cartazes que anunciavam a chegada das crianças para adopção. As “distribuições” realizavam-se no teatro, na ópera, na igreja, ou até no cais da estação ferroviária. Os nomes, ou números, pregados nos casacos dos mais novos permitiam que os agentes os identificassem facilmente. Era frequente, porém, que estas sessões se assemelhassem a uma feira de gado. Compostas, na sua grande maioria, por agricultores, as famílias de acolhimento exigiam o direito de verificar o estado de saúde (principalmente dos dentes) dos meninos e meninas trazidos de tão longe. Era raro que fossem imediatamente adoptados. A única obrigação das famílias de acolhimento consistia em tratá-los como se fossem seus filhos, até atingirem os 17 anos. Obviamente, muitos eram considerados apenas como mão-de-obra barata, mas, para o reverendo e para a maioria dos órfãos, era uma situação melhor do que aquela em que viviam nas ruas de Nova Iorque.

Este álbum de BD, com 96 páginas, apresentado agora em português, numa edição da “renascida” Arcádia, relata uma longa viagem pautada pela amizade, pela entreajuda… mas também pela traição. Uma obra original, a não perder!

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