Exposição sobre o “Cavaleiro Andante” no Clube Português de Banda Desenhada

Prosseguindo uma intensa actividade, com ciclos temáticos que englobam exposições, colóquios e outros eventos realizados na sua nova sede, o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) inaugura no próximo sábado, dia 18 de Março, uma mostra dedicada à emblemática revista Cavaleiro Andante, que na década de 1950 rivalizou com o Mundo de Aventuras e outras publicações juvenis, distinguindo-se por oferecer aos seus leitores as melhores obras da moderna BD europeia, nomeadamente de origem italiana e franco-belga.

A exposição comemora os 65 anos de nascimento do Cavaleiro Andante, cuja existência decorreu de 5 de Janeiro de 1952 até 25 de Agosto de 1962 (556 números), sempre sob a direcção de Adolfo Simões Müller e contando com Maria Amélia Bárcia como redactora e Fernando Bento como principal colaborador artístico.

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Cavaleiro Andante – uma revista de BD que fez história entre a “gente nova”

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Se tivesse sobrevivido mais seis décadas — feito ao alcance, por razões óbvias, de poucas publicações periódicas, a começar pelas de banda desenhada —, o Cavaleiro Andante, nascido em 5 de Janeiro de 1952, faria hoje 65 anos!

Efeméride meramente simbólica, mas que nos apraz registar, mais uma vez, em honra de uma emblemática revista, de características únicas no seu género, editada pela Empresa Nacional de Publicidade e dirigida por Adolfo Simões Müller, que introduziu em Portugal, na esteira de Tintin e de Hergé — embora estes fossem oriundos d’O Papagaio e do Diabrete —, os maiores heróis e autores da BD franco-belga, como Blake e Mortimer (de Edgar P. Jacobs), Lucky Luke (de Morris e Goscinny), Michel Vaillant (de Jean Graton), Dan Cooper (de Albert Weinberg), Buck Danny (de Hubinon e Charlier), Jerry Spring (de Jijé), Ric Hochet (de Tibet e Duchâteau), a par de outras grandes criações europeias e americanas.

Por outro lado, se o Cavaleiro Andante tivesse tido existência mais efémera, como algumas revistas do seu tempo — que viveram pouco mais do que as rosas —, talvez não tivessem florescido nas suas páginas muitas obras que enriqueceram o património artístico da BD portu- guesa, com a assinatura de Fernando Bento, José Ruy, José Garcês, Artur Correia, Fernandes Silva, Stuart e José Manuel Soares.

Honra, pois, a uma saudosa revista que durou apenas uma década, mas sem a qual a história da imprensa juvenil portuguesa e da sua evolução, rumo aos álbuns que tornaram ainda mais populares as séries franco- -belgas, teria ficado certamente mais pobre!

As exposições do CPBD: Fernando Bento

Nota: O artigo seguinte, da autoria de Carlos Gonçalves, membro da actual direcção do Clube Português de Banda Desenhada, foi reproduzido da “folha de sala” dedicada à exposição de originais de Mestre Fernando Bento (com vários e magníficos exemplos da sua arte incomparável), que continua patente, até ao final do ano, na sede do CPBD, sita na Avenida do Brasil, 52 A, Reboleira (Amadora), podendo ser visitada todos os sábados, das 15 às 18 horas.

img_5763FERNANDO BENTO: UM CONTRIBUTO INESGOTÁVEL DE ARTE

Sabemos que no nosso país pouco ou quase nada distinguimos as pessoas pelas suas qualidades, sejam de que tipo forem e muito menos na Banda Desenhada. Dar valor ao nosso vizinho mortal, está fora de questão. É preciso lembrar muitas vezes o seu contributo e, mesmo assim, só passados vários anos é que é fixada na mente das pessoas a realidade do seu valor e da existência desse prodígio. Temos vindo a considerar Eduardo Teixeira Coelho, ainda que perfeitamente legítimo, como a elite dos nossos desenhadores. É claro que a banda desenhada é um campo muito vasto e ainda que os estilos dos vários desenhadores possam ser muito diferentes, o resultado final e prático é que conta.
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Ao longo destas últimas décadas e naquelas onde a Banda Desenhada se evidenciou mais, as que poderemos considerar como o período áureo das histórias aos quadradinhos foram a década de vinte do século passado com o aparecimento da revista ”ABC-zinho”, com trabalhos de Cotinelli Telmo e Rocha Vieira, a década de trinta com a publicação da revista “O Papagaio”, com trabalhos de José de Lemos, Arcindo Madeira, Rudy, Ruy Manso, Tom, Meco, etc, e “O Mosquito” com Tiotónio, E. T. Coelho, José Garcês, José Ruy, Servais Tiago, Jayme Cortez, etc, a década de quarenta com a edição do “Diabrete”, com trabalhos de Fernando Bento, os anos cinquenta com a remodelação do “Mundo de Aventuras”, com Vítor Péon, Carlos Alberto Santos, José Batista, José Antunes, etc, e o lançamento do “Cavaleiro Andante” com histórias de Fernando Bento outra vez, E. T. Coelho também, e finalmente a década de sessenta com a publicação da revista “Tintin”, nesta última fase já com a introdução de uma nova escola na Banda Desenhada, a franco-belga, até aqui pouco conhecida dos leitores nacionais.

Quanto aos desenhadores portugueses, o leque já era muito pequeno, tirando o José Ruy, o Vítor Péon, o Fernando Relvas e pouco mais. Em todas estas décadas distinguiram-se muitos desenhadores portugueses e, de uma maneira geral, de uma forma bastante positiva. Alguns deles têm sido mais distinguidos, outros menos. Pensamos que seria agora a oportunidade de engrandecer Fernando Bento, através de uma amostra bastante significativa dos trabalhos deste desenhador no campo das capas, cuja produção se aproxima dos duzentos trabalhos, todos eles de invulgar beleza, embora nem todos pudessem ser escolhidos, como é óbvio.

A sua produção é infindável, quer nas capas quer nas histórias aos quadradinhos, e sempre com uma qualidade de que dificilmente o artista abdicou, ainda que poucas vezes, principalmente já nos últimos anos do “Cavaleiro Andante”, algumas histórias de “Emílio e os Detectives” e as aventuras de “Sherlock Holmes” tenham sido produzidas de uma forma mais prática e com uma simplificação de alguns pormenores e cenários, não prejudicando de qualquer dos modos a sua qualidade, mas oferecendo aos leitores um novo formato e um novo estilo, fruto da sua maturidade. Muitos desenhadores e pintores, depois de uma vida intensa e criativa, optam por desenhar e pintar de uma forma diferente, abarcando até alguns estilos menos marcantes e mais experimentais.

Fernando Bento foi um dos desenhadores portugueses que, em paralelo com Eduardo Teixeira Coelho, adaptaria mais obras literárias à banda desenhada. O primeiro iria buscar aos romances dos nossos escritores Eça de Queiroz e Alexandre Herculano, com arranjos de Raul Correia, temas para criar os seus trabalhos e Fernando Bento a Júlio Verne, de parceria com Adolfo Simões Müller. Fernando Bento era acima de tudo um desenhador de aventuras e emoções. Era natural a sua escolha do escritor francês. Estamos quase certos ao afirmar que, tanto quanto conhecemos da sua obra e da de outros desenhadores estrangeiros, o nosso artista foi, sem dúvida alguma, o que mais títulos das obras de Júlio Verne aproveitaria para as suas criações. 

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Mas claro que não seria só a sua escolha preferida, a par dos grandes feitos, grandes viagens e muita aventura. A arte de Fernando Bento na execução de ilustrações e capas era também destinada aos leitores mais jovens, com histórias adaptadas de contos escritos por Adolfo Simões Müller ou por outros autores de renome, como Alice Ogando, Maria de Figueiredo, Emília de Sousa Costa, etc.

UMA VIDA DE ARTISTA

Fernando Bento nasceu a 26 de Outubro de 1910 e veio a falecer no dia 14 de Setembro de 1996. Do mesmo modo que alguns outros artistas, começaria muito novo a dominar o lápis e a borracha e, como era usual na época, viria a criar o tal chamado jornalinho que era emprestado, alugado ou copiado (quando tal era possível), para ser vendido aos amigos e colegas de turma.

Na década de trinta já o encontramos como desenhador activo, colaborando numa série de jornais e revistas, tais como “Os Sports”, “Diário de Lisboa”, “A República”, “O Século”, “A Capital”, etc, com reportagens sobre Teatro e a desenhar caricaturas, além de se ocupar de reportagens sobre outros temas. Cinco anos depois, tinha também abraçado o teatro como figurinista e maquetista, desempenhando as respectivas tarefas em vários teatros da época: Variedades, Nacional, Apolo, Avenida e Maria Vitória.

OS SEUS TRABALHOS NA REVISTA “DIABRETE”

A grande reviravolta na sua vida artística dá-se a partir de 4 de Janeiro de 1941, quando se inicia como colaborador da revista “Diabrete” a partir do seu nº. 1, com a criação das personagens “Béquinhas, Beiçudo e Barbaças”. Depois, é uma criação contínua nas páginas desta revista, onde se mantém durante uma década como desenhador de serviço, criando personagens e ocupando-se da parte gráfica da publicação, com principal incidência nas obras de Júlio Verne:

“Dois Anos de Férias” (Diabrete nºs. 33/74); “Volta ao Mundo em 80 Dias” (Diabrete nºs. 75/100); “Miguel Strogoff” (Diabrete nºs. 101/138); “Robur, o Conquistador” (Diabrete nºs. 139/161); “Viagem ao Centro da Terra” (Diabrete nºs. 187/216); “Da Terra à Lua” (Diabrete nºs. 217/236); “À Roda da Lua” (Diabrete nºs. 237/256); “Um Herói de Quinze Anos” (Diabrete nºs. 257/311); “Cinco Semanas em Balão” (Diabrete nºs. 312/356); “Vinte Mil Léguas Submarinas” (Diabrete nºs. 357/415); “A Ilha Misteriosa” (Diabrete nºs. 416/510) e “Matias Sandorf” (Diabrete nºs. 512/644).

Doze obras estavam, pois, adaptadas à banda desenhada em mais de 500 páginas e capas. Mais tarde, começa a adaptar obras infantis para a revista e a contar as vidas de figuras históricas portuguesas, destacando os seus feitos de forma inesquecível. Ao mesmo tempo, criava várias personagens, “Zuca”, “Zé Quitolas”, ”Bicudo e Bochechas”, etc, todas elas em paralelo com as suas atividades profissionais. E ainda desenhava “As Mil e Uma Noites”…3-imagens-bento-2

A SUA PRODUÇÃO NA REVISTA “CAVALEIRO ANDANTE”

Mas foi no “Cavaleiro Andante” que o seu apogeu se verificou, devido às grandes obras que viria a criar para as páginas da publicação. Algumas serão sempre inesquecíveis, tais como “Quintino Durward”, “Beau Geste”, talvez a mais significativa, “O Anel da Rainha de Sabá” e “A Torre das 7 Luzes”. Nesta publicação as adaptações da obra de Júlio Verne continuam a encantá-lo, pois “Uma Cidade Flutuante” (Cavaleiro Andante nºs. 253/289) irá divertir os leitores. Outra adaptação cheia de interesse foram as aventuras de “Emílio e os Detectives”, assim como os belos quadros que nos deixou nas páginas do “Cavaleiro Andante”, evocando “Os Lusíadas” de Luís de Camões, na comemoração do dia do poeta. Algumas das suas obras viriam a ser, mais tarde, publicadas em álbum: “Béquinhas, Beiçudo e Barbaças”, “34 Macacos e Eu”, “Diabruras da Prima Zuca”, “A Ilha do Tesouro” (uma edição pelas Iniciativas Editoriais e outra pela Asa), “As Mil e Uma Noites”, “Beau Geste”, “O Anel da Rainha de Sabá”, “Com a Pena e Com a Espada”, “Um Campeão Chamado Joaquim Agostinho”, “Regresso à Ilha do Tesouro”, etc.

OUTRAS PUBLICAÇÕES COM TRABALHOS DO DESENHADOR

Sempre que nos debruçamos sobre a vida de qualquer desenhador português e perante a vasta produção de cada um deles, sem esquecer que quase todos não puderam exercer em pleno a sua vocação a nível profissional, pois era necessário ter em paralelo um emprego fixo, perguntamos como era possível dedicar tanto tempo à banda desenhada, sem prejuízo de outras tarefas e da sua vida particular.
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Mas, na verdade, assim acontecia e além das duas revistas principais em que Fernando Bento colaborou, de que já falámos, há outras onde o artista deixaria a sua arte indelével. A primeira foi “República – Secção Infantil”, suplemento infantil do jornal “A República”, entre 1938 e 1939, “Pim-Pam-Pum”, suplemento infantil do jornal “O Século”, onde colaborou de 1941 a 1959, “Norte Infantil”, suplemento infantil do jornal “Diário do Norte”, com trabalhos seus de 1951/1952, revista “Mundo de Aventuras” em 1980, “Quadradinhos – Suplemento infantil do jornal “A Capital”, em 1980/1982, etc. Depois há vários trabalhos esporádicos espalhados pelo “Bip-Bip”, “Nau Catrineta”, “O Pajem” (suplemento infantil do “Cavaleiro Andante”), livros infantis e outros. Estava, pois, cumprida uma missão inesquecível de um artista que, durante mais de 40 anos, nos deixou ter acesso a obras excepcionais que nos acompanharam nos nossos períodos lúdicos.

                                             Carlos Gonçalves

Concurso dos 12 Meses (Diabrete) – 1

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No último ano da sua existência, pouco depois de celebrar o 10º aniversário, o simpático bissemanário juvenil Diabrete (antepassado directo do Cavaleiro Andante) anunciou uma iniciativa que ia dar brado entre os seus leitores, baptizando-a com o nome de “Concurso dos 12 Meses”.

Tratava-se efectivamente de um certame, com prémios de montante superior a dois mil escudos — importância choruda nessa época, em que as restrições económicas do regime se faziam sentir tão severamente como as de hoje.

Diabrete concurso 12 meses 2O concurso era constituído por doze estampas alusivas a cada um dos meses do ano, que foram publicadas em números sucessivos a partir do 795, de 10/2/1951. Como explicava o Diabrete, a sequência não obedecia à ordem natural do calendário, cabendo aos leitores a tarefa de as colocar no sítio certo da caderneta (distribuída na mesma altura), depois de identificarem o mês a que diziam respeito — o que não era um “quebra-cabeças”, pois cada estampa, magnifi- camente ilustrada por José Cambraia, continha duas quadras que tornavam essa identificação bastante fácil.

Glosando o mesmo tema, realizaram-se mais dois concursos em simultâneo, um literário e outro artístico, o que tornava a iniciativa do Diabrete ainda mais aliciante. A primeira modalidade consistia numa breve descrição de um mês do ano, à escolha dos concorrentes, e a segunda implicava a apresentação de um trabalho artístico do mesmo teor, feito a tinta-da-china. O concurso foi coroado de êxito — antecipando os que seriam levados a cabo no Cavaleiro Andante, com um âmbito ainda maior — e teve a duração exacta de doze números, terminando no 806, de 21 de Março de 1951.

Durante os próximos meses, iremos também apresentar neste blogue as doze estampas do formidável concurso do “grande camaradão”, começando, como é óbvio, pelo mês de Junho, mês dos Santos populares, que não foi o primeiro a surgir no Diabrete, mas o segundo (no nº 796, de 14/2/1951). Tanto mais que hoje é dia de S. Pedro, o último Santo do calendário junino…

E assim recordamos mais uma curiosidade de uma célebre revista juvenil, dirigida por Adolfo Simões Müller e coordenada editorialmente por Maria Amélia Bárcia, um dos quais deve ter sido o autor dos versos deste concurso.

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Uma história de Páscoa (por José Garcês)

“COMO FOI DESCOBERTA A CRUZ” 

José Garcês no seu estúdioIntegrada na rubrica Contos e Lendas — onde já surgiram “Os 12 trabalhos de Hércules”, pelo traço de Marcello de Morais —, apresen- tamos hoje uma história curta com a assinatura de mestre José Garcês, um dos mais infatigáveis obreiros da BD nacional, cuja carreira iniciada em 1946, nas páginas d’O Mosquito, nunca foi interrompida. Mesmo 70 anos depois, José Garcês continua a ter uma agenda cheia de projectos, acalentando o sonho de voltar a fazer BD com temas didácticos e animalistas, duas áreas em que se tornou um consagrado especialista, assim como na das construções de armar, com monumentos nacionais fielmente reproduzidos (a Torre de Belém, os Mosteiros da Batalha e dos Jerónimos, etc), num meticuloso e impressionante labor arquitectónico que lhe tem granjeado os maiores elogios.

Viriato por José GarcêsJosé Garcês espera também lançar este ano um álbum (já concluído) sobre a história de Silves e tem sido alvo de várias homenagens, uma delas a decorrer ainda na Biblioteca Nacional, onde uma exposição dos seus trabalhos está patente até 12 de Abril. Em 2015, teve também uma exposição em Viseu, com particular destaque para a sua famosa obra “Viriato”, reeditada pelo Gicav (Grupo de Intervenção e Criatividade Artís- tica de Viseu), em grande formato, a partir das páginas publicadas, em 1952, no Cavaleiro Andante.

A história que seguidamente reprodu- zimos — incluída numa retrospectiva que iremos dedicar a este veterano da BD portuguesa, começando por algumas das suas criações menos conhecidas (anos 40-50) — apareceu originalmente na revista mensal Pisca-Pisca, onde José Garcês deixou também a marca do seu multifacetado talento artístico. 

No sumário do nº 4 do Pisca-Pisca (Abril de 1968), há outra história de Garcês, baseada na lenda de Amadis de Gaula, um tema que abordou de forma inspirada, como os nossos leitores poderão brevemente confirmar nesta rubrica. Dentro da mesma temática, que sempre o seduziu, registam-se ainda as magníficas versões do Palmeirim de Inglaterra e de Os Cavaleiros de Almourol, duas lendas bem conhecidas da historiografia medieval portuguesa, adaptadas por Garcês na Fagulha e no Mundo de Aventuras Especial.

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Garcês Páscoa 3 e 4

Operação BD Nostalgia na revista “Visão”…

… ou o regresso dos velhos heróis!

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Numa iniciativa que muitos bedéfilos saudarão certamente com júbilo, a revista Visão decidiu celebrar o seu 23º aniversário de forma especial, oferecendo aos seus leitores, durante seis semanas, uma deliciosa [sic] colecção de Banda Desenhada antiga publicada em Portugal, que começa com o saudoso Major Alveja e engloba também outros heróis de mítica fama como Mandrake, Fantasma ou Flash Gordon.

Numa altura em que alguns jornais, com inegável destaque para o Público, têm dedicado à Banda Desenhada uma atenção especial, apresentando sucessivas colecções baseadas nos grandes clássicos da escola franco-belga e nos maiores super-heróis norte-americanos (sem esquecer o precioso filão das graphic novels), registamos naturalmente com agrado — ainda que com algumas reservas em relação ao critério selectivo, sobretudo dos dois últimos títulos — este “brinde” aos amantes das histórias aos quadradinhos de outra época e de outro género de heróis, quando as bancas se enchiam de revistas de cariz popular, com títulos emblemáticos que ainda hoje ecoam no imaginário de várias gerações e povoadas por trepidantes aventuras, cujos arque- típicos personagens — alguns já quase com um século de existência — parecem ter o condão de viver para sempre!

Fazemos votos de que outros heróis “adormecidos” no tempo, mas não na memória dos que com eles cresceram, sonharam e viveram muitos momentos de exuberante fantasia, possam em breve voltar à acção, em iniciativas semelhantes à que a revista Visão decidiu levar a cabo para assinalar, de forma diferente, um aniversário que decerto ficará também na memória dos seus inúmeros leitores.  

Homenagem a José Garcês em Viseu

Estará patente, a partir de amanhã, no Espaço EDP, da Feira de S. Mateus, a exposição Viriato na Banda Desenhada, cuja estreia teve lugar em Moura, no passado mês de Julho, com o patrocínio da respectiva autarquia e da Inovinter — como este blogue oportunamente informou.

Viriato - Cavaleiro Andante.Organizado desta vez pelo GICAV (Grupo de Intervenção Cultural e Artística de Viseu), o evento contará com a presença de mestre José Garcês, autor de inúmeras obras de Banda Desenhada de cunho histórico, entre elas uma memorável e clássica evocação dos lendários feitos de Viriato, publicada no Cavaleiro Andante em 1952/53, que o GICAV, aproveitando esta oportunidade, decidiu recuperar em álbum, com as cores e o texto com que saiu origi- nalmente naquela revista.

José Garcês será também alvo de uma merecida homenagem realizada no mesmo dia, após a inauguração da mostra, recebendo, durante essa cerimónia, o Prémio Especial Anim’Arte BD (GICAV) 2015.

Quem estiver interessado em visitar a exposição Viriato na Banda Desenhada — comissariada por Luiz Beira e constituída por dezena e meia de painéis em que se podem apreciar diversas versões da história de Viriato em BD, por desenhistas como José Garcês, Victor Mesquita, Baptista Mendes, Artur Correia ou Eugénio Silva, entre outros —, poderá fazê-lo até ao dia 13 de Setembro, período em que decorre ainda a animada e tradicional feira de S. Mateus, na bela e histórica cidade de Viseu.

Colecção “Os Piores Inimigos de Ric Hochet” – 11 e 12

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1959 foi o ano em que o jovem repórter do La Rafale deu mais um passo importante (e decisivo) na sua carreira — até aí limitada, como já referimos, a curtos e esporádicos episódios completos —, tornando-se titular, no Tintin belga, de uma sensacional novidade: uma rubrica com o título Relevez le gant!, constituída por uma série de problemas policiais cuja decifração desafiava, na melhor tradição de Agatha Christie e Hercule Poirot, a argúcia e as faculdades dedutivas dos leitores.

Alguns desses casos, em que Ric Hochet estava sempre acompanhado pelo inspector Bourdon, foram também publicados no semanário O Falcão (1ª série), que chegou mesmo a instituir um concurso, com regulamento, destinado aos jovens sherlocks portugueses. E foi também n’O Falcão (nº 60, de 4/2/1960) que apareceu uma das primeiras histórias curtas de Ric Hochet, cujo título Ric Hochet e a “Sombra” (Ric Hochet contre l’Ombre) já prenun- ciava o ambiente dos próximos episódios da série.

Ric Hochet - Aceite o desafio + O Sombra

Pormenor curioso: enquanto que no Cavaleiro Andante e no Zorro o jovem repórter criminologista foi baptizado com os portuguesíssimos nomes de João Nuno e Mário João (embora vivesse na Cidade-Luz, trabalhando para um jornal parisiense), n’O Falcão manteve o seu próprio nome, o que prova que a censura nada teve a ver com essa mudança de identidade.

Em 1962, Ric Hochet foi ainda protagonista de uma longa novela de mistério com o título Monsieur X frappe à minuit, cujo texto tinha também a assinatura de André-Paul Duchâteau, o argumentista que se tornou o parceiro ideal de Tibet quando a sua nova criação começou finalmente a aparecer em histórias de “longa metragem”, conquistando, em pouco tempo, o estatuto de grande vedeta do jornal Tintin.

A título de curiosidade mostramos duas páginas dessa novela, ilustrada por Tibet, tal como foi publicada no Zorro, a partir do nº 33 (25/5/1963), com um título semelhante: O sr. X ataca à meia-noite. Tempo depois, o destemido e arguto “Mário João” transitou para as histórias aos quadradinhos, vivendo três novas aventuras que o tornaram ainda mais popular entre os leitores da revista, muitos dos quais desconheciam o seu verdadeiro nome.

Ric Hochet - Sr. X

Na época anterior à consagração de Ric Hochet (que só chegou tardiamente, depois de um longo caminho, como já vimos), Tibet estava ainda “colado” à imagem de Chick Bill, o seu personagem de maior êxito, ao ponto de aparecer vestido de cowboy numa curiosa pantomina em que vários colaboradores do Tintin assumiam a aparência dos heróis que lhes tinham dado justa fama, “disfarçados” com a sua habitual indumentária.

Essa página, que a seguir apresentamos, foi publicada no nº 12 (14º ano), de 25/3/1959, e nela podemos reconhecer as veras efígies de alguns dos mais populares autores da BD franco-belga, fazendo honrosa companhia a Tibet.

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Reproduzimos seguidamente, com a devida vénia, os textos de apresentação inseridos no jornal Público de 7 e 14 de Agosto p.p., referentes aos dois últimos volumes da colecção “Os Piores Inimigos de Ric Hochet”, que brindou os apreciadores desta série (entre os quais nos incluímos) com algumas aventuras inéditas do dinâmico repórter detective.

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Os livros que guardo na memória – 4

Título D Filipa

a-conquista-de-ceuta-ca-104Em 25 de Julho de 1415, teve início a epopeia das conquistas e dos descobrimentos portu- gueses, com uma grande expe- dição militar chefiada por el-rei D. João I e pelo condestável D. Nuno Álvares Pereira, cujo objectivo era desferir um rude golpe nas possessões islâ- micas do Norte de África, arrebatando aos Mouros a rica e estratégica cidade de Ceuta.

Nessa heróica empresa, que culminou com a conquista da praça-forte um mês depois, em 22 de Agosto desse ano da graça de 1415, distinguiram-se, pela sua energia, capacidade de comando e bravura em com- bate, os jovens infantes D. Henrique e D. Duarte, o primeiro dos quais estava fadado para reger os destinos da escola de Sagres, a melhor escola de marinharia do mundo, e o segundo para suceder no trono ao Rei de Boa Memória. Tanto eles como seu irmão D. Pedro foram armados cavaleiros pelo próprio pai, na mesquita de Ceuta consagrada, desde esse dia, à fé cristã.

Mário Domingues - CeutaRecordando esta efeméride, tão im- portante na história da expansão marí- tima e colonial portuguesa dos séculos XV e XVI, retirámos dos arquivos do passado uma página magnificamente ilustrada por mestre José Garcês, que o Cavaleiro Andante — muito receptivo, nessa época, aos trabalhos de inspiração (e exaltação) patriótica, em que Garcês, por mérito e experiência, já era um autor consagrado —, deu à estampa no nº 104, de 26 de Dezembro de 1953.

Um dos episódios mais marcantes, mas talvez menos recordados, hoje em dia, dessa histórica epopeia, é o que revela a profunda afeição que D. Filipa de Lencastre — a rainha e mãe de virtuosos dotes,  que muito contribuiu para o bom nome e o exemplar reinado de D. João I — sentia pelos seus filhos, a quem quis entregar as espadas de cavaleiros antes da partida para Ceuta, apesar de ter caído ao leito, gravemente enferma.

Mário Domingues, um popular escritor do século XX, que produziu vários romances históricos com biografias de reis, príncipes, cavaleiros, navegadores, poetas, sacerdotes, estadistas, passando em revista os períodos mais gloriosos, mas também os mais obscuros da nossa monarquia, evocou este lendário episódio num capítulo do livro “Grandes Momentos da História de Portugal”, editado em 1962 pela F.N.A.T. (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho).

Filipa de Lancastre, Garcês 455Vítima da peste que grassava em Lisboa e adivinhando que o seu fim estava próximo, D. Filipa quis dar o primeiro sinal aos seus filhos do glorioso futuro que os esperava, para bem do reino de Portugal, recomen- dando a Duarte, o primogénito e herdeiro do trono, que defendesse com toda a energia os seus súbditos, zelando pelo cumprimento do direito e da justiça, a Pedro que estivesse sempre ao serviço das donas e das donzelas, e a Henrique, o mais novo dos três mancebos, mas também o mais audaz e sonhador, que protegesse “os cavaleiros fidalgos e escudeiros do reino, fazendo-lhes todas as mercês a que, por razão, tivessem direito”.

Depois, entregou aos filhos as três espadas que mandara forjar para aquele momento solene e com as quais seriam armados cavaleiros pelo rei, seu pai, na mesquita de Ceuta, após a conquista que transformou esta cidade no primeiro baluarte cristão do norte de África.

tira de Flipa a entregar espadas aos filhos

José Garcês retratou a mesma cena num livro dedicado a D. Filipa de Lencastre (Edições Asa, 1987) e numa magnífica biografia aos quadradinhos do Infante D. Henrique, publicada no Camarada (2ª série), entre os nºs 8 e 25 do 3º ano (1960), com texto de António Manuel Couto Viana.

Mais sucintamente, representou-a também no 2º volume da sua História de Portugal em BD, relevante projecto nascido de uma parceria com o historiador António do Carmo Reis e patrocinado pela Asa, que lhe consagrou sucessivas edições, com retumbante êxito, a partir de 1985.

Aproveitamos esta ocasião para desejar a mestre José Garcês, que celebrou em 23 de Julho o seu 87º aniversário, as maiores felicidades, associando-nos a todos os seus admiradores e amigos que ainda recordam os belos momentos que passaram a ler as suas histórias.

Ceuta, cidade rica.

Sobre esta época da nossa História, primeira etapa da expansão ultramarina e das conquistas de praças-fortes aos Mouros, que era mister combater por causa da sua religião e do comércio de especiarias com o Levante, há três livros que registei também na memória e que se lêem como autênticos romances de aventuras:

Lanças n’África e Sangue Português, antologias de contos de Henrique Lopes de Mendonça — um dos mais destacados romancistas históricos do século passado e autor da letra do Hino Nacional —, e Os Portugueses em Marrocos, da escritora inglesa Elaine Sanceau, que viveu muito tempo no nosso país e dedicou várias obras aos descobrimentos e ao império colonial português, sendo, por isso, muito elogiada (e condecorada) por Salazar.

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Mário Domingues (1899-1977), Elaine Sanceau (1896-1978) e Henrique Lopes de Mendonça (1856-1931) são três prolíficos e notáveis autores que merecem ocupar um lugar de honra no galarim dos melhores romancistas históricos portugueses e cujas obras, guardadas religiosamente na nossa biblioteca, figuram hoje nesta Montra dos Livros.

 

Colecção “Os Piores Inimigos de Ric Hochet” – 10

Ric Hochet 10 - Les Cinq Revenants

Tintin 18 - 1959Como já tivemos ocasião de referir, Ric Hochet estreou-se num curto episódio publicado em 30/3/1955, no Tintin belga nº 13 (10º ano), episódio esse que entre nós foi dado à estampa no Cavaleiro Andante nº 183, de 2/7/1955. O peque- no ardina que apregoava a plenos pul- mões o diário La Rafale (em portu- guês, A Rajada) estava prestes a desco- brir a pista de um misterioso espião, re- velando assim dotes de argúcia e de cora- gem que iriam guindá-lo a um lugar com que nunca sonhara: o de repórter do gran- de periódico onde trabalhavam alguns dos melhores jornalistas franceses, às ordens do chefe de redacção Bob Drumont.

Tintin 34 - 1959Ric Hochet viria também a tornar-se amigo e auxiliar (precioso, diga-se de passagem) do comissário de polícia Bourdon — cuja gentil sobrinha Nadine seria candidata a um lugar especial no seu coração —, e a enfrentar formidáveis adversários, bandidos da pior espécie, com nomes sinistros como Le Bourreau (“O Carrasco”), e ligações, nalguns casos, a redes criminosas internacionais. Mas tudo isso só se tornaria realidade um pouco mais tarde, porque entretanto o jovem repórter passou quase despercebido nas páginas do Tintin belga, onde viveu apenas algumas curtas peripécias, espaçadas no tempo (de 1955 a 1959) — como Enquete chez les “timbrés” e Ric Hochet contre l’Ombre, já com argumentos de André-Paul Duchâteau —, rodeado de campeões da popularidade como Tintin e Michel Vaillant, Alix e Blake e Mortimer, Pom e Teddy, Dan Cooper e Chick Bill.

Tintin 18 - 1954Esta última série era, aliás, a “coqueluche” de Tibet, o futuro criador de Ric Hochet, e uma das mais requisitadas pelos leitores, que punham também no topo das suas prefe- rências os heróis e os desenhadores de traços mais humorísticos. Tibet era já uma das vedetas do Tintin, embora ainda longe dos índices de popularidade que registaria com Ric Hochet. Poucos meses antes de dar vida ao jovem aspirante a repórter detective criou uma curta série, intitulada La Fami- lle Petitoux, que o Cavaleiro Andante reproduziu nos nºs 132 e 149 (1954), com um nome menos estranho para os jovens lusitanos: A Família Castanheira.

Nessa época, meados dos anos 50, uma das décadas mais gloriosas no historial do popular semanário belga, Tibet tinha a cabeça cheia de projectos, mas o seu estilo de linhas quase Tintin -Chico Billcaricaturais identificava-se sobretudo com a série que lhe abrira as portas do êxito, aquela em que figuravam o jovem e alegre cowboy Chick Bill e os seus patuscos companheiros Kid Ordinn, Dog Bull e Petit Caniche.

Sintomaticamente, Tibet não quis que os traços fisionómicos da sua nova criação destoassem muito dos de Chick Bill, devido à similaridade de estilos, que só se alteraria quando Ric Hochet começou também a viver aventuras de longa duração, num registo mais realista e de acção mais trepidante, passando primeiro por uma curiosa fase de amadurecimento. Veremos, em breve, como isso aconteceu…

Reproduzimos seguidamente, com a devida vénia, o texto de apresentação inserido no Público de 7 de Agosto p.p., referente ao 10º álbum desta colectânea, em que Ric Hochet enfrenta outra terrível ameaça, no decurso de um dos casos mais empolgantes e agitados da sua carreira.

Ric Hochet público 10

 

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