De banca em banca – 3

“MULHERZINHAS”por LOUISA MAY ALCOTT

Hoje, para variar, vamos esquecer Rider Haggard ou Johnston McCulley e expor na nossa montra outros livros, em edições raras, esperando que o nosso gato não fique aborrecido por trocarmos o género de aventuras — que tanto lhe parece agradar — por outro mais dirigido, neste caso, ao público feminino.

As Mulherzinhas

A nossa expectativa é que ele reconheça nas capas desses livros a marca de Eduardo Teixeira Coelho e que se digne, por isso, tocar-lhes com o nariz, como fazem os gatos, em sinal de reconhecimento e de apreço (ou por qualquer outra razão difícil de perceber).

Como já tivemos ocasião de referir, o nosso grande artista foi colaborador da Portugália Editora, no tempo em que ainda trabalhava para O Mosquito — isto é, antes de partir para o estrangeiro, em meados dos anos 50 —, e fez várias capas para as afamadas colecções Biblioteca dos Rapazes e Biblioteca das Raparigas, que ocupavam, nessa altura, Biblioteca das Raparigas - Boas Esposas (retocado)os escaparates e as montras das principais livrarias e eram lidas avidamente pelo público juvenil de ambos os sexos (e cremos que até por muitos adultos), embora os rapazes, obviamente, por uma questão de superioridade e de “machismo”, não demonstrassem nenhum interesse por romances destinados às moças da sua idade. Estas, sim, é que marcavam a diferença, não discriminando nenhum dos títulos… o que pode justificar, de certo modo, a tiragem mais substancial da Biblioteca dos Rapazes.

Desses livros, hoje bastante raros, mesmo nas lojas virtuais e nos alfarrabistas tradicionalmente melhor abastecidos, destacam-se, na Biblioteca das Raparigas, os que ostentam o nome de uma das mais famosas e apreciadas escritoras do século XIX: Louisa_May_Alcott_headshotLouisa May Alcott (1832-1888), autora da trilogia “Mulherzinhas” (Little Women), “Boas Esposas” (Good Wives) e “Oito Primos” (Eight Cousins), três romances que se tornaram paradigmas do género romântico, sobretudo o primeiro, já várias vezes adaptado ao cinema e à televisão (e também à BD, por desenhadores de vários quadrantes), e que abordam de forma espirituosa e sentimental a história da família do Dr. March, centrada nas peripécias juvenis das suas quatro filhas, prolongando-as até à idade casadoira.

Os Oito Primos063Nas capas que E. T. Coelho realizou para esses romances femininos — a primeira das quais inspirada no filme de 1949, com a gentil Elizabeth Taylor e outras artistas jovens, mas de primeiro plano — está bem patente, a par do seu virtuosismo e do seu sentido da composição, uma sensibilidade estética e poética que poucos artistas gráficos lograram alcançar em trabalhos do género, tornando as suas belíssimas  ilus- trações com frisos em leque de rostos juvenis, expressivamente retratados, exemplos emble- máticos da arte figurativa numa modalidade que tem passado despercebida à grande maioria dos seus admiradores.

(Os nossos agradecimentos a Leonardo De Sá por nos ter facultado, devidamente retocada, uma imagem da capa de “Boas Esposas”, livro que só possuímos noutra edição).

De banca em banca – 2

FÉRIAS GRANDES 

(na companhia da família Macedo)

por Odette de Saint-Maurice

Em tempo de férias natalícias, apetece relembrar, ao sabor dos sonhos e devaneios saudosistas que de vez em quando nos assaltam, alguns livros e revistas que folheámos e lemos ao acaso, nas horas de ócio, oferecidos quase sempre por familiares ou amigos, e que acabam por deixar uma marca tão forte no nosso espírito que deles dificilmente nos separamos, quando seguimos na vida outros caminhos e enfrentamos mudanças repentinas.

odette-fc3a9rias-grandes-1962Um desses livros que andou na minha bagagem, em sucessivas viagens de longo curso, e que, um dia, se perdeu, sem eu dar conta, voltou há pouco tempo, inespe- radamente, às minhas mãos, ao vasculhar uma banca cheia de volumes aparentemente inúteis, daqueles que só servem para reciclar papel, apesar do preço muito abaixo da sua primitiva condição. Trata-se de uma obra de Odette de Saint-Maurice (1918-1993), prolífica escritora amada pelos jovens, tanto rapazes como raparigas, cujo vasto currículo não cabe na economia de linhas de um simples comentário de blogue.

Mas o seu título, Férias Grandes, talvez seja sugestivo quanto baste para vos aguçar a curiosidade, tanto mais que foi publicado na famosa e ecléctica colecção Biblioteca dos Rapazes, da Portugália Editora, dedicada  a obras de grandes autores juvenis, na sua maioria clássicos da linhagem de Mark Twain, Daniel Defoe, Stevenson, Ballantyne, Alexandre Dumas e outros —, mas que também incluiu alguns originais portugueses, como os de Odette de Saint-Maurice, cuja resenha biográfica podem ver neste pequeno vídeo.

imagesTive a honra e o grato prazer de conhecer a Dona Odette (como todos nós a tratávamos) na Agência Portuguesa de Revistas, da qual foi assídua e apreciada colaboradora, e recordo-me com perfeita nitidez do seu aspecto e das suas maneiras cativantes, do seu profundo saber, do rosário das suas longas conversas que nos mantinham sempre em silêncio, o silêncio enlevado de quem gosta de ouvir aqueles que têm o dom de desfiar palavras sedutoras.

Odette de Saint-Maurice possuía em elevado grau esse dom, aliado ao do encanto e da simpatia, ela que era ainda, nessa época — refiro-me aos anos 70 do século XX — uma mulher bela e vistosa.

Por isso, em sua memória, apresento hoje, na montra preferida do nosso gato, este livro que me deixou saudades e que afortunadamente voltei a encontrar quando menos esperava… por um preço simbólico que não traduz sequer uma ínfima parte do seu valor sentimental.

um-rapaz-c3a0s-direitas-0Na Biblioteca dos Rapazes, Odette de Saint-Maurice publicou outras obras do mesmo teor, que primam pela coesão narrativa — como uma história que vai fluindo no tempo e de que é protagonista uma família da classe média: o Dr. Rui Macedo, a sua mulher Rosa Maria e os seus filhos Pedro, Ana e Rumané.

As peripécias familiares, sobretudo dos membros mais jovens do clã, recheiam os volumes Um Rapaz às Direitas (nº 20 da colecção), Amigos (nº 35) e Colégio de Verão (nº 55). Férias Grandes foi o nº 26 e tinha, como atractivo suplementar, uma sugestiva capa de Câmara Leme, artista de peculiares grafismos que contri- buíram em boa medida para o fascínio irradiado por muitos títulos dessa colecção (lidos até, com prazer, pelos adultos).

As capas de Um Rapaz às Direitas (2ª edição) e Colégio de Verão exibem também a sua síntese gráfica, apurada por um original sentido decorativo.

um-rapaz-c3a0s-direitas

amigos-1Há várias versões das capas destes livros (publicados, com sucesso, até aos nossos dias), sendo de realçar, entre os seus autores, além de Câmara Leme, Júlio Gil, que ilustrou Um Rapaz às Direitas (1ª edição) com o seu usual vigor gráfico, e Infante do Carmo, outro grande ilustrador das últimas décadas, cujo traço depurado é visível em Amigos.

Agradecemos a Jorge Silva, criador do excelente blogue Almanaque Silva, a oportunidade que nos proporcionou de as reproduzirmos neste artigo.

Em 2011, os livros juvenis de Odette de Saint-Maurice começaram a ser reeditados pelo Clube do Autor, como deu, então, notícia o programa Ler Mais Ler Melhor da RTP, que podem recordar neste vídeo.

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