“Branca de Neve” e “Bambi” nos jornais: duas novas exposições do Clube Português de Banda Desenhada

Quem não se lembra da “Branca de Neve e os Sete Anões” e do “Bambi”, dois filmes de desenhos animados, como eram conhecidos nessa época, que atraíram multidões às salas de cinema? Hoje, o género chama-se simplesmente Animação, um título mais categorizado, sem dúvida, e que já se tornou candidato permanente aos Óscares, de tal modo que, nos últimos tempos, os estúdios especializados (sobretudo nos EUA) não param de criar novos filmes, de forma cada vez mais inovadora e arrojada, em consequência dos enormes progressos da técnica e das lucrativas receitas de bilheteira que esta indústria continua a obter junto de numeroso público de todas as idades.

Pois estes dois memoráveis clássicos, tal como muitos outros realizados nos Estúdios de Walt Disney, foram também adaptados à Banda Desenhada e de uma forma extraordinária na sua concepção, devido ao trabalho de grandes desenhadores da época. Sobre estas páginas já passaram algumas décadas, mas mantêm-se inalteráveis na sua beleza e sedução. Por isso, vale a pena visitar as duas originais exposições que o Clube Português de Banda Desenhada inaugura amanhã, sábado, pelas 17h00, na sua sede, sita na Avenida do Brasil, 52A – Falagueira – 2700-134 Amadora. Uma ocasião a não perder, se gosta de Desenhos Animados e de Banda Desenhada!

A extraordinária odisseia da coroa de espinhos de Jesus Cristo

Nota: para ilustrar este texto, originalmente publicado no Bambi (suplemento infantil do jornal A Província de Angola), em 6/4/1969, utilizámos no blogue imagens de um livrinho muito raro, recheado de desenhos a cores do saudoso e grande artista Vítor Péon — livro esse destinado a apoiar as aulas de catequese, preparatórias da primeira comunhão, e publicado em finais de 1953, com um prefácio de Sua Eminência, o Cardeal Patriarca.

Artigo de Jorge Magalhães

Na Páscoa, recordamos os passos de Jesus Cristo, desde a sua entrada triunfal em Jerusalém (Domingo de Ramos), da ceia com os Apóstolos e da marcha dolorosa para o Calvário, depois de ser preso e julgado, até ao milagre da Ressurreição.

Diz-se que foram os discípulos que, logo após a sua morte, esconderam a túnica e a coroa de espinhos de Jesus, símbolos trágicos e piedosos do sacrifício. Durante muitos séculos, enquanto os cristãos sofreram perseguições e martírios, nada se soube dessas relíquias. Os próprios cristãos eram obrigados a esconder-se, para escapar às prisões em massa. No circo de Roma, um espectáculo bárbaro e san­grento tinha lugar todos os dias: os cristãos eram lançados às feras ou queimados vivos em cruzes de madeira iguais àquela em que Jesus foi supliciado.

Mas, no século IV, o generoso imperador romano Constantino converteu-se à nova religião, procla- mando-a culto oficial em todo o império. Os cristãos puderam, enfim, viver livremente. E as Santas Relíquias saíram dos seus esconderijos, para serem expostas à veneração dos fiéis.

A coroa de espinhos que tinha ensanguentado a testa do Salvador ficou durante muito tempo em Jerusalém. Até que um dia Constantino transferiu a capital do império para Constantinopla, onde a sagrada relíquia também foi parar, não se sabe por que razão, talvez para a subtrair às mãos dos sarracenos.

O seu significado tornou-se tão valioso para os soberanos de Constantino­pla, que estes a guardaram em lugar seguro, junto dos seus tesouros. Entretanto, os cristãos da Europa resolveram organizar uma grande expedição militar para libertar Jerusalém dos infiéis. Foi a primeira cruzada, a que outras três se seguiram, no espaço de pouco mais de 100 anos. O chefe da quarta cruzada, Balduíno, conde da Flandres, antes de seguir para Jerusalém, atacou Constantinopla, onde reinava um príncipe despótico e cruel. Durante o cerco, esse príncipe morreu e Balduíno ocupou-lhe o trono.

Mas este valente imperador não foi feliz, pois governou apenas durante dois anos. Os príncipes que lhe sucederam tiveram de lutar valorosamente contra os in­fiéis, que ameaçavam as muralhas de Constantinopla. E já se sabe que a guerra, o maior de todos os males, importa sempre na ruína de vidas e bens.

Foi por isso que um jovem imperador chamado Balduíno II resolveu, um dia, pedir auxílio ao rei de França. Tinha apenas 20 anos, mas desde os doze que não fazia outra coisa senão guerrear os seus inimigos. O rei de França recebeu-o com afecto e prometeu dar-lhe todo o dinheiro e todos os soldados de que precisava. Era também bastante jovem este monarca e com fama de virtuoso. Por isso, a Igreja louvou os seus actos, canonizando-o com o nome de São Luís.

Como sinal de gratidão pela ajuda prestada, Balduíno, antes de regressar ao seu país, ofereceu ao soberano francês a coroa de espinhos de Jesus. O rei Luís exultou com essa dádiva, bem mais preciosa do que todos os exércitos e todo o ouro do seu reino. E encarregou imediatamente dois frades, os irmãos Jacques e André, de irem a Constantinopla buscar a sagrada relíquia.

Uma desagradável surpresa aguardava, porém, os dois mensageiros. Na ausência de Balduíno, o Conselho da Regência decidira empenhar a coroa de espinhos a um mercador italiano chamado Nicolas Quirino, pela soma de 177.300 libras. Constantinopla necessitava tanto de dinheiro para a sua defesa que os leais conselheiros não tinham hesitado em recorrer àquele meio.

A promessa de Balduíno era, portanto, vã. Mas o irmão André não desistiu. Enquanto o seu companheiro regressava a França, pelo caminho mais curto, a fim de pedir ins­truções ao rei, o irmão André conseguiu permissão para embarcar na galera que trans­portava para Veneza a coroa de espinhos. Era a época do Natal. Mas a paz e o amor ao seu semelhante andavam arredios do coração de muitos homens, que mesmo nessa quadra sagrada para os cristãos não hesitavam em saquear e matar.

O Mediterrâneo estava infestado de piratas, que surgiram a cortar o caminho à galera e aos marinheiros de Veneza. Vinham de mando do imperador de Niceia, homem ambicioso e cruel, que sonhava há muito apoderar-se da coroa de espinhos para depois a vender, por uma fortuna, a outro rei estrangeiro.

Foi o vento que salvou Frei André e os seus companheiros. A galera de Veneza, mais rápida, desfraldando todas as velas, conseguiu distanciar-se do barco dos pira­tas e chegou ao seu destino sem voltar a ter maus encontros.

Aí, esperava-os uma recepção apoteótica. A coroa de espinhos foi conduzida num relicário à Basílica de São Marcos, onde ficou exposta à veneração do povo. Entretan­to, o irmão Jacques, cumprida a sua missão, regressou de França, com a quantia neces­sária para comprar ao mercador italiano a sagrada relíquia. Mais uma vez a coroa de espinhos mudou de mãos. Mas com que amor e devoção Frei André e Frei Jacques a transportaram! O seu coração estava inundado de alegria! Tanta, que nem sentiram os rigores da travessia através do monte São Bernardo, coberto de neve, e das numerosas estradas onde os desprotegidos viajantes estavam à mercê dos ladrões e dos fora-da-lei.

Mas a providência divina protegia-os. E, no dia 19 de Agosto de 1239, a coroa de espinhos chegou a Paris e foi conduzida à Catedral de Notre-Dame, diante de uma procissão triunfal em que seguiam o próprio rei São Luís e os seus irmãos, descalços e vestidos humildemente como penitentes.

Mais tarde, o piedoso Luís IX mandou construir uma capela onde a venerável relíquia da Cristandade ficou a bom recato. Assim terminou a extraordinária e verídica odisseia da sagrada coroa de espinhos de Jesus Cristo, o mártir do Gólgota.

  

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