Um conto da Páscoa: “As Três Moedas”

Nota prévia (J.M.) — O conto que se segue, reproduzido do Mundo de Aventuras nºs 340 e 341 (Abril de 198o), foi originalmente publicado, em 1975, num volume da colecção Galo de Ouro, editada pela Portugal Press, de Roussado Pinto. Por esse original, com o título “O Príncipe Olaf”, recebi a quantia de 2.500$00 (o que, na altura, não foi nada mau, pois equivalia a um terço do meu vencimento mensal na Agência Portuguesa de Revistas).

Muitos anos depois, ofereci esse livro a E.T. Coelho, numa das suas últimas visitas a Portugal. O grande artista, homenageado várias vezes pelo Festival da Amadora e pelo Clube Português de Banda Desenhada, gostou deste conto e decidiu adaptá-lo, numa história de BD com 10 páginas que ainda hoje permanece inédita.

No Mundo de Aventuras, que eu então coordenava, as ilustrações foram de outro grande artista, Augusto Trigo, que começou a colaborar no MA em 1980, pouco tempo depois de ter trocado a Guiné, onde nasceu, por Portugal, onde passara parte da sua infância e juventude. A nossa parceria em Banda Desenhada, que ainda dura, começou também nesse memorável ano de 1980. 

 

Exposição de originais de AugustoTrigo na Bedeteca da Amadora

Bedeteca Amadora

Com a presença dos autores, Augusto Trigo e Jorge Magalhães, foi inaugurada no passado dia 23 uma exposição com cerca de 30 originais pertencentes ao acervo da Bedeteca da Amadora, que estará patente numa das suas salas até ao próximo dia 26 de Agosto.

À sessão, apresentada por Pedro Mota, presidente do Clube Português de Banda Desenhada — entidade que propôs esta mostra à Bedeteca, integrando-a na celebração do seu 40º aniversário —, assistiram várias figuras do nosso meio bedéfilo, como José Ruy, Fernando Relvas (e esposa), Catherine Labey, Irene Trigo (e sua mãe), Carlos Gonçalves, Geraldes Lino, Cândida Silva (coordenadora da Bedeteca), Pedro Moura, Carlos Moreno, Monique Roque, e um público pouco numeroso, mas atento e interessado, que seguiu com curiosidade, como demonstram as fotos inseridas mais abaixo, os comentários de Augusto Trigo, perante as pranchas expostas, e do seu argumentista, ambos notoriamente satisfeitos por recordarem um tempo distante em que “trabalhavam para revistas, sem pensarem sequer na hipótese de terem as suas histórias publicadas em álbuns”. Isto é, um tempo em que havia mais segurança e mais oportunidades para os autores de BD.
Expo Trigo - 1

Finda a apresentação do seu trabalho, a veterana dupla foi entrevistada por uma repórter da TVA (Televisão da Amadora), antes de passar à sala seguinte, onde está patente outra excelente exposição intitulada “As Jóias da Bedeteca”, com originais de vários autores portugueses e estrangeiros que fazem parte do valioso espólio desta instituição.

Expo Trigo - 2

Graças a João Francisco, um bedéfilo oriundo do Seixal, que quis testemunhar de viva voz o seu apreço pela obra de Trigo & Magalhães — o que deixou o argumentista (e autor destas linhas) também muito lisonjeado —, apresentamos seguidamente mais algumas imagens deste evento, com os nossos agradecimentos ao jovem amante da 9ª Arte (e coleccionador de mérito, pelo que nos foi dado apreciar), cujos talentos fotográficos aqui ficam também registados.

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Primeira exposição do Clube Português de Banda Desenhada na Bedeteca da Amadora

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Em Outubro de 1982, terminava a revista Tintin portuguesa, que desde 1968 marcou gerações de leitores. No momento em que a banda desenhada em Portugal fez a transição dos jornais e revistas para os álbuns, destacaram-se as obras da autoria de Augusto Trigo e Jorge Magalhães.

“A Moura Cassima”, terceiro título da colecção Lendas de Portugal em Banda Desenhada, foi o primeiro álbum distinguido na Amadora com o prémio para o melhor álbum português de banda desenhada, em 1992. Dez anos antes, o Clube Português de Banda Desenhada distinguia os dois autores com o Troféu O Mosquito, reconhecendo Jorge Magalhães como Melhor Argumentista do Ano de 1981 e Augusto Trigo como Revelação do Ano de 1981.

35 anos depois desse 1981 que revelava Trigo, num ano em que Magalhães completa 40 anos de actividade como argumentista, justifica-se uma exposição de banda desenhada da histórica dupla, na cidade que ainda distinguiria os dois autores com o mais prestigiado prémio da BD portuguesa, o Troféu Honra (Jorge Magalhães em 1999, e Augusto Trigo em 2000).

A exposição, presente na Bedeteca da Amadora a partir de 23 de Junho, parte dos muitos originais que Augusto Trigo doou ao Município da Amadora e que estão no edifício da Biblioteca Municipal, onde funciona a Bedeteca.

Para além da apreciação da notável técnica individual que distingue cada um dos dois autores, a mostra permitirá abordar a temática do trabalho em colaboração entre argumentista e desenhador, e observar a forma de abordagem a diferentes géneros que se afirmaram na banda desenhada.

Trata-se da primeira colaboração do Clube Português de Banda Desenhada com a Bedeteca da Amadora, permitindo ao município associar-se à celebração do 40.º aniversário do Clube, e permitindo ao Clube concretizar uma apresentação com outras possibilidades ao nível do requinte de forma, susceptíveis até de atrair a malta jovem, como diria o Machado-Dias.

Sobretudo, permite-se à banda desenhada portuguesa reconhecer e homenagear o trabalho em colaboração de dois autores fundamentais na sua história recente.

CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA

Os principais álbuns de Trigo & Magalhães:

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Excalibur, a Espada Mágica
– O Anel Mágico (Meribérica)
Lendas de Portugal em Banda Desenhada
– A Lenda do rei Rodrigo / A Moura Encantada (Asa)
– A Lenda de Gaia / A Dama Pé-de-Cabra (Asa)
– A Moura Cassima (Asa)
Luz do Oriente (Futura)
Ranger
– A Vingança do Elefante (Meribérica)
Wakantanka
– O Bisonte Negro (Edinter)
– O Povo Serpente (Meribérica)

 

“As Minas de Salomão” (2) – por Henry Rider Haggard

Rider HaggardO segundo livro que nos apraz registar, entre as edições portuguesas do famoso clássico de Henry Rider Haggard, foi editado pelo Círculo de Leitores, em 1986, e conserva a tradução de Eça de Queirós, a menos fiel ao espírito e à letra do romance original — exceptuando uma outra versão, ainda mais apócrifa, atribuída a Emilio Salgari, que a editora Romano Torres incluiu na sua colecção com o nome deste famoso autor italiano (como adiante veremos). Mas a edição do Círculo de Leitores recomenda-se por estar recheada de gravuras de Walter Paget, um dos melhores artistas gráficos que recriaram, com o poder das imagens, a fabulosa aventura de Allan Quatermain e dos seus intrépidos companheiros.

Minas de Salomão - c- dos leitores 994Em 2001, surgiu outra edição do Círculo de Leitores, igualmente digna de merecimento, pois contém, sob o título “Uma tradução enigmática e uma aposta ganha”, um sugestivo intróito de Luís Almeida Martins, que também prefaciou e traduziu para a mesma editora outras quatro obras do escritor vitoriano, entre elas “O Anel da Rainha de Sabá”, um dos marcos do romance de aventuras africanas que figuram, desde há muito, na minha lista de favoritos.

As capas desta colecção pecam por ser pouco atractivas, com um design repetitivo, por isso preferimos reproduzir as do volume “A Caverna dos Diamantes”, publicado pela Romano Torres, em 1935 e 1950, na Colecção Salgari, com uma magnífica ilustração de Júlio Amorim (na edição mais antiga a capa é de Alfredo de Morais, mas curiosamente há poucas diferenças entre ambas).

Se o nosso Eça adaptou livremente o romance, mudando até o nome do seu narrador, que se transformou em Alão Quartelmar, Salgari foi ainda mais longe, pois “nacionalizou” um dos principais personagens, o barão Curtis, assim como Neville, o seu irmão desaparecido, que passaram a ser naturais de Génova; além disso, abreviou muitas descrições de Haggard, sobretudo nos últimos capítulos, para fazer luzir o seu próprio estilo e os seus enredos cinegéticos (com resultados menos felizes que os de Eça, que também suprimiu parte do romance).

Minas de Salomão - A caverna dos diamantes 1 e 2

Por fim, last but not the least, o terceiro volume da minha relação saiu em 2011, numa série de clássicos (alegadamente juvenis) distribuídos pelo semanário Sol, com capas de sóbrio e sedutor grafismo (atrevo-me mesmo a chamar-lhe original), como a que dá um toque singular a esta edição do meu conten- tamento… mais uma que reproduz fielmente o pitoresco texto queirosiano, mas enriquecido com gravuras de Walter Paget, um dos mais reputados ilustradores ingleses do século XIX, como já referi anteriormente neste artigo.

Minas de Salomão - Sol 997A propósito de edições ilustradas, não posso deixar de aludir à versão publicada em 1986 pela Editorial Verbo, na sua colecção Clássicos Juvenis, que tinha a valorizá-la, em todos os volumes, as capas e os desenhos de Augusto Trigo, artista bem conhecido e apreciado pelos amantes da 9ª Arte, cuja extensa obra no domínio da ilustração merece ser devidamente assinalada e aplaudida, para sair do quase anonimato em que permanece.

Reproduzimos seguidamente a capa de uma das numerosas edições deste livro, datada de 1995, em que o grafismo do cabeçalho sofreu alterações, bem como o título da colecção: Clássicos Juvenis TVI — mantendo-se, no entanto, a apresentação interior do texto, adaptado por Maria Isabel de Mendonça Soares, a partir da “libérrima” versão de Eça de Queirós, com seis desenhos de página inteira (um dos quais também aqui se reproduz).

Minas de Salomão - Verbo 1 e 2

Os Homens e a História – 3

Leif Erikson e o continente misteriosoLeif Erikson descobre a América (quadro de Christian Krohg)

Apresentamos hoje mais um artigo que foi publicado, há algumas décadas, no desaparecido vespertino A Capital — com texto meu e uma ilustração de Augusto Trigo —, subordinado ao título Histórias da História, comum a essa série de artigos que dediquei a figuras e a factos heróicos do passado que estimularam a minha imaginação — como os relatos da aventurosa viagem de um destemido navegador Viking, Leif Erikson em retratode seu nome Leif Erikson, que pela primeira vez pisou solo americano e desbravou a orla de um continente desconhecido onde outros navegadores europeus, chefiados por Cristóvão Colombo (um nome bem mais célebre), só chegariam 500 anos depois.

Nem sempre a História faz justiça aos mais audazes pioneiros, àqueles que enfrentaram, em épocas remotas, os perigos dos oceanos e das longas travessias, sem bússolas, sem astrolábios e sem outros instrumentos de navegação, guiados apenas pela sua coragem e pelo seu ardente desejo de chegar cada vez mais longe, de sulcar mares desconhecidos, de avistar novas terras e descobrir imensas riquezas… mas cujos feitos, no caso de Leif Erikson (ou Leif-o-Feliz), ficaram obscuramente registados em sagas e canções nórdicas, escritas numa linguagem muito menos universal do que a de Homero.

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Leif Erikson e o continente misterioso

Texto: Jorge Magalhães ¤ Ilustração principal: Augusto Trigo

Leif Erikson (drakkar)

Quatrocentos e noventa e dois anos antes de Cristovão Colombo, já a América do Norte era conhecida por um povo guerreiro da Europa Setentrional: os Vikings. Sabe-se hoje que foi Leif Erikson o primeiro nave- gador que explorou essas paragens, dando-lhes o nome de Vineland, isto é, “Terra dos Vinhedos”.

Leif era filho do norueguês Erik Rauda, por alcunha Erik-o-Ruivo (ou Erik-o- -Vermelho), que com toda a sua família emigrou para a Islândia em meados do século X. Certo dia, Erik, que segundo rezam as crónicas era de índole violenta, matou alguns homens numa disputa com os vizinhos. O Althing, Supremo Tribunal Viking, condenou-o ao exílio perpétuo, expulsando-o da ilha. Num pequeno barco, Erik e os seus velejaram para Oeste, durante muitos dias. A audaciosa viagem terminou junto das costas da Gronelândia, onde Erik desembarcou e estabeleceu uma nova colónia, chamando a esse continente, onde os invernos eram tão rigorosos como na Islândia, “Terra Verde”, não se sabe por que motivo, talvez saudoso dos verdes fiordes do seu país natal.

Brattahlid, a nova colónia, prosperou, no entanto, graças às frequentes trocas comerciais com a Islândia. Aí, Leif cresceu, vigoroso e feliz, tornando-se um campeão em todas as provas de destreza e um hábil caçador. O pai ensinou-lhe a ciência de navegar e aos dezoito anos Leif manifestou o desejo de conhecer a Noruega, pátria dos audaciosos Vikings cujo sangue lhe corria nas veias. A travessia do Oceano não teve obstáculos para ele. Num mês apenas repetiu a proeza de Erik e apresentou-se em Trondheim, onde o velho rei Olaf tinha a sua corte, com um barco carregado de peles e de presentes.

Leif Erikson em bronzeO rei recebeu-o com satisfação e deu todo o seu apoio ao projecto de colonizar a Gronelândia, que segundo Leif garantia a pés juntos era “uma terra verde, imensa, com boas pastagens”. Muitos Vikings, sugestionados pela sua eloquência, prontificaram-se a segui-lo, levando com eles uma nova religião: o cristianismo. E uma grande frota de drakkars (barcos a remos compridos e de proas altas, com uma única vela) acompanhou a embarcação de Leif até à sua nova pátria. Entre eles, seguia também o do nobre Bjarni, comerciante e navegador, que se juntou a Leif ao largo da Islândia. Mas uma tempestade separou os navios, fazendo Bjarni perder a rota e navegar para sudoeste.

Quando chegaram ao porto de Erik-o-Ruivo, Leif, desolado, deu ao pai a notícia de que um dos membros da frota se perdera. Mas, algumas semanas depois, a vela de um drakkar surgiu no horizonte. Eram Bjarni e os seus valentes companheiros. Arrastados pelas correntes e pelos ventos contrários, impelidos pelas formidáveis barreiras de gelo, tinham navegado para muito longe, para terras desconhecidas. Bjarni não se atrevera a desembarcar, mas tais maravilhas disse dessas terras que bordejara de perto, que Leif, entusiasmado, pensou logo em explorá-las. Claro que um Viking como Erik-o-Ruivo tinha de aprovar o projecto do filho, embora na sua idade já não pudesse acompanhá-lo. E Leif partiu com trinta e cinco homens decididos, em busca do continente misterioso.

Leif Erikson - Trigo 597

Durante muitas semanas navegaram entre icebergs de esmagadora imponência. O barco foi assolado por violentas tempestades. Os homens passaram tormentos de toda a espécie. Por fim, avistaram terra. Mas esta era pedregosa, desolada, sem vegetação. Chamaram-lhe Helluland, “a Terra das Pedras Chatas”, e corajosamente prosseguiram a viagem. Já não tinham forças nem provisões para regressar. Se fracassassem, ficariam para sempre perdidos no oceano, até que os deuses fúnebres viessem cobrar o seu tributo. Por fim, um belo dia, avistaram dois extensos promontórios verdes, uma baía larga e bem abrigada.

Havia ali mais árvores do que em toda a Gronelândia. Desembarcaram e Leif man- dou cortar madeira para construírem casas. O inverno aproximava-se e Brattahlid estava muito longe. Como a caça era abundante e os rios fervilhavam de peixes, sobretudo salmões, resolveram ficar ali até à Primavera. Leif, sempre audaz e previdente, organizou quatro grupos com a missão de explorarem o interior.

Todos os Vikings regressaram na lua nova, com excepção de Tyrker, um marinheiro natural do país dos Francos, que tinha fama de imprudente. Mas Tyrker apareceu pouco depois, dando pulos de alegria, rindo a bom rir, como se estivesse embriagado. Encontrara uvas, grandes extensões de vinhas rubras como os cabelos de Erik! E mostrava as mãos cheias de cachos, perante o olhar atónito dos companheiros… que já o julgavam morto.

Esse dia em que os Vikings provaram o sabor de um novo fruto pertence à História e à Lenda. As Sagas dos rudes homens do Norte falam-nos dele. As Sagas cantadas pelos bardos (scalds) nas longas noites de inverno, quando o vento e a neve varriam as grandes florestas da Escânia e os telhados de Eastbygd, a capital do reino de Erik. A Saga Eyrbiggia, a Saga de Thorwald, de Karlsefni e das novas terras, nos distantes mares do sul.

Em memória da descoberta de Tyrker, Leif Erikson pôs àquela região o nome de Vineland. E na primavera, já refeito das provações da viagem, regressou à Gronelândia. Entusiasmado com o que ouviu, Thorwald, outro dos filhos de Erik, organizou uma nova frota e partiu na esteira do irmão. Thorwald, em cujas veias corria também sangue aventureiro, esperava navegar ainda mais longe e descobrir outras terras. Mas esta segunda expedição foi menos feliz. Num primeiro recontro com os “peles-vermelhas” (a quem os Vikings puseram o nome de Skraellings), Thorwald foi mortalmente ferido. Os seus homens sepultaram-no em Vineland e, temendo novos ataques dos selvagens e aguerridos Skraellings, apressaram-se a regressar à Gronelândia.

Leif Erikson - selos de S.Tomé e Príncipe e EUANão seria essa a última expedição Viking ao “País das Uvas”. Mas nenhuma tentativa dos guerreiros do Norte para se fixarem naquela terra verdejante e de clima hospitaleiro foi bem sucedida, por causa da animosidade dos Skraellings e das disputas entre os seus próprios chefes, que não possuíam a fibra nem a capacidade organizadora de Leif Erikson.

Há provas, hoje, de que as Sagas Vikings, as Sagas que falam de Erik e de seus filhos, de Bjarni e dos seus companheiros, são verdadeiras. Em Agosto de 1898, em Salém, no Minnesota (EUA), um lavrador de ascendência sueca, Olaf Ohman, ao abater uma velha árvore, descobriu sob as suas raízes uma pedra onde estavam gravados estranhos sinais semelhantes à escrita rúnica. Um professor da Universidade de Minnesota conseguiu decifrá-los. Soube-se, assim, que no ano 1000 tinha passado por ali um grupo de Vikings em jornada de descoberta para o interior. Esses homens estavam a catorze dias de marcha dos seus barcos.

Estátua de Leif Erikson em Newport (EUA)Hoje, a “Pedra de Kensington”, como se tornou conhecida, cons- titui uma das mais preciosas relíquias do Museu Nacional de Washington. E não é o único vestígio arqueológico que confirma o que narram as Sagas. Desde 1964 (por decisão do presidente Lyndon B. Johnson), celebra-se nos Estados Unidos, a 9 de Outubro, o Leif Erikson’s Day, assinalando a chegada do primeiro europeu à América do Norte. Leif tornou-se um herói nacional, com estátuas por toda a parte!

Desde tempos remotos, os cami- nhos marítimos foram desbravados por homens atraídos pelo desconhecido, em pequenas e frágeis embarcações dos mais diversos tipos. E as mais temerárias dessas viagens perdem-se na noite dos séculos, embelezadas quase sempre pelo mistério e pela lenda. Antes de Leif-o- -Feliz, talvez os Fenícios de Hannon, os primeiros que ultrapassaram as Colunas de Hércules (estreito de Gibraltar), tenham descoberto o caminho das Américas. Antes dos Fenícios, quem sabe se os Atlantes, esse misterioso povo desaparecido, antepassado de muitas civilizações do continente americano.

Cristóvão Colombo, o Genovês, somente cinco séculos mais tarde repetiu o feito de um punhado de Vikings que, além de rudes navegadores, eram também poetas e tinham nos olhos e no coração o amor da aventura, dos mares revoltos e das terras desconhecidas que se erguiam além do horizonte!

 

Um Raio de Luz e de Esperança

Fátima, 13 de Maio… Há quase 100 anos, três humildes pastorinhos assistiram, na Cova da Iria, a uma deslumbrante aparição que os deixou mudos de assombro. A sua milagrosa história e a sua fé inabalável no que tinham visto e ouvido contagiaram, apesar do repúdio das autoridades e da própria Igreja Católica, uma nação inteira, reavivando o fervor religioso que os novos dogmas republicanos e ateístas tinham duramente atacado. Meses depois, perante uma multidão de curiosos e de crentes, seria confirmado o milagre… e a glória dos três pastorinhos!

Alusivas a esta data que continua a atrair a Fátima milhares de peregrinos de todo o mundo, numa grande manifestação de fé, eis duas belas ilustrações de Augusto Trigo, dadas à estampa no Mundo de Aventuras nº 448, de 13 de Maio de 1982.

Fátima 13 de Maio copy

 

 

Os Homens e a História – 1

A conquista de Gibraltar

Com um título algo diferente, “Histórias da História”, mas com o mesmo significado, publiquei há mais de 30 anos, no vespertino A Capital, que deixou há muito de aparecer nas bancas, uma série de artigos sobre personagens e efemérides que, embora sendo do domínio público, acabaram por ficar esquecidas nos bastidores desse grande teatro que é a história dos povos, das guerras, das descobertas, das conquistas, das catástrofes e, por inerência, da civilização que faz o homem avançar no tempo, nas artes, na ciência, na política e na cultura, continuando sempre a desbravar novos horizontes.

CapitalTodos esses artigos tiveram direito a magníficas ilustrações de Augusto Trigo, um artista cujo talento começava, então, a ser reconhecido e apreciado entre os leitores do Mundo de Aven- turas e de outras revistas de banda desenhada, pois chegara a Portugal apenas dois anos antes. Com ele, criei os meus primeiros personagens para séries de temática aventurosa que foram publicadas em álbuns pela Edinter e pela Méribérica/Liber: Wakantanka (dois volumes), Ranger e Excalibur.

Anos depois, mais concretamente em 2004, alguns desses artigos reapareceram noutro jornal que já deixou também de se publicar: o 24 Horas. Como me pediram para prolongar a série, escrevi outros textos, que o Trigo se encarregou também de ilustrar, mas, à última hora, a redacção mudou de ideias e cancelou a rubrica, que se intitulava pomposamente (a ideia foi deles) “Grandes Histórias”. Resultado: os novos artigos e os respectivas desenhos ficaram na “gaveta”, isto é, no computador, termo mais correcto para a imagem dos tempos modernos, em que já pouco utilizamos os papéis.

E, entretanto, já passaram mais alguns anos desde essa nova experiência, infelizmente interrompida… o que me deu a ideia de aproveitar os meus textos e as ilustrações do Augusto Trigo, para os dar a conhecer aos nossos amigos que se interessam por temas históricos. Aliás, n’A Capital subscrevi-os com um pseudónimo, para baralhar os curiosos. E resultou em cheio! Nem o Geraldes Lino adivinhou quem era o J. Arnaut!…

Posto isto, aqui têm o primeiro artigo desta série, dedicado a um assunto que esteve muito em foco recentemente: a guerra diplomática, de palavras e de ameaças — algumas quase para levar a sério —, entre a Espanha e a Inglaterra por causa de Gibraltar, minúscula parcela de território em solo espanhol de que uma frota naval inglesa, sob o comando do Almirante Sir George Rooke, se apoderou em Agosto de 1704 e que, desde então, nunca mais voltou à posse dos seus naturais (e legítimos donos) — até porque actualmente uma boa parte da população prefere a soberania inglesa.

Creio que entre os nossos leitores haverá, por certo, quem ignore a verdadeira história deste conflito, desencadeado numa época em que Ingleses e Espanhóis eram ferrenhos inimigos, degladiando-se em vários campos de batalha. Hoje, até parece que essas velhas rivalidades não se extinguiram completamente!

Os Homens e a Histórias - cabeçalho848

A CONQUISTA DE GIBRALTAR

Texto: Jorge Magalhães    Ilustração: Augusto Trigo

Gibraltar — que voltou a ser tema de polémica, reacendendo despiques antigos entre a Espanha e a Inglaterra — tornou-se possessão inglesa devido a um desses episódios meramente acidentais que modificam, por vezes, o curso das guerras e o destino das grandes potências.

Em 1700, a rivalidade entre a França e a Inglaterra atingiu o seu ponto crítico quando o Duque de Anjou, neto de Luís XIV, se tornou herdeiro presuntivo da coroa de Espanha. Senhora das vastas possessões espanholas de além-mar, a França tornar-se-ia incontestavelmente a maior potência europeia, capaz de disputar à sua velha inimiga a hegemonia territorial e marítima, tanto no velho como no novo mundo.

Numa hábil manobra política, a Inglaterra aliou-se à Áustria e aos Países-Baixos, recentemente libertos do domínio espanhol, e enviou uma poderosa esquadra ao Mediterrâneo, sob o comando do almirante George Rooke. O principal objectivo dessa esquadra era impedir a junção das flotilhas francesas de Toulon e Brest, mas Rooke não foi feliz na sua missão. Na rota para o sul, os ingleses tentaram ainda inutilmente apoderar-se de Cádis e Barcelona.

Temendo o desagrado da Rainha Ann e do poderoso Duque de Marlborough, capitão-general do exército aliado, Rooke lembrou-se de atacar Gibraltar, apesar da fama de inexpugnável do lendário rochedo com 430 metros de altura, do alto do qual se avista um horizonte de 200 quilómetros. Foi por aí que começou a invasão árabe sob o comando de Tarik, no ano 710 d.C., e por aí, também, os árabes se retiraram da Península Ibérica, depois da queda de Granada em 1492 — o mesmo ano em que Cristóvão Colombo descobriu a América e se iniciou a expansão espanhola no novo mundo.

A conquista de Gibraltar

De vila árabe, Gibraltar transformara-se em tranquila aldeia de pescadores, sem perder a sua importância estratégica. Mas a guarnição militar dispunha apenas de 150 homens e de algumas peças de artilharia antiquadas. Rooke sabia que as posições consideradas inexpugnáveis são quase sempre as pior defendidas.

O desembarque começou na baía de Algeciras, durante a noite de 3 de Agosto de 1704, aproveitando a falta de luar, com 1800 soldados sob as ordens do general austríaco Príncipe de Hesse-Darmstadt. De madrugada, Rooke abriu fogo com todos os seus canhões. O pânico rebentou na pequena vila de pescadores devastada pela impiedosa metralha.

Os espanhóis trataram de convocar todos os homens válidos para a defesa, enquanto as mulheres e as crianças corriam a refugiar-se numa ermida chamada Nossa Senhora dos Rochedos, em Punta de Europa, onde existia uma imagem da Virgem que era, há longos anos, objecto de peregrinação.

Almirante George RookeAs preces elevaram-se no ar, mas não bastavam preces para salvar os sitiados. Com efeito, tudo parecia estar contra eles. Não tinham munições suficientes para resistir a um longo cerco e viam-se em apuros para disparar os arcaicos canhões da guarnição. De resto, o alcance das velhas bombardas era tão curto que os sitiantes não corriam sequer o risco de serem salpicados pelas colunas de água levantadas pelas balas.

Era um duelo desigual, de milhares de ingleses e holandeses contra 500 espanhóis, incluindo os civis que tinham pegado em armas. Mas as muralhas de Gibraltar resistiam a tudo. Durante três horas, choveram sobre o formidável bastião perto de 15 mil obuses, que não fizeram quaisquer vítimas entre os defensores. E Rooke compreendeu que, apesar da esmagadora superioridade  das suas forças, o assédio era inútil.

Ainda essa manhã de 4 de Agosto não tinha findado, quando o almirante inglês decidiu dar ordens às tropas de desembarque para voltarem a bordo. Mas, entretanto, um oficial que se aventurara em território inimigo, apresentou-se ao Príncipe de Hesse com uma boa nova: acabava de descobrir um atalho que conduzia ao alto do rochedo, em pleno coração do reduto espanhol.

O general austríaco não perdeu tempo. Reunindo os seus homens, internou-se pela passagem e não tardou a surpreender as mulheres e as crianças refugiadas no santuário de Nossa Senhora. De posse desses preciosos reféns, foi-lhe fácil assenhorear-se da vila e dominar a resistência dos homens da guarnição.

800px-A_British_Man_of_War_before_the_Rock_of_Gibraltar_by_Thomas_WhitcombeQuando a bandeira branca que punha termo ao com- bate flutuou na cidadela, uma salva entusiástica partiu dos navios, onde os canhões se tinham calado. O Príncipe de Hesse foi o primeiro a penetrar no reduto e, depois de nego- ciar rapidamente a capitu- lação com os defensores, teve um gesto simbólico, içando a bandeira austríaca, acto que ofendeu o brio patriótico dos seus aliados. Sir George Rooke não tardou a mandar hastear também o seu pavilhão e, embora Hesse reivindicasse para si as honras da vitória, foi a bandeira inglesa que ficou a tremular mais alto e mais orgulhosamente no mastro.

A conquista de Gibraltar e a guerra da Sucessão espanhola, desastrosa para a França, foram os primeiros alicerces do poderoso império colonial britânico. Consciente da importância estratégica de Gibraltar, a Inglaterra nunca mais a devolveu aos espanhóis, que durante o século XVIII tentaram por duas vezes reconquistá-la. E ainda hoje, como se tem visto, os dois países, parceiros na União Europeia e aliados na Nato, disputam no campo diplomático (e em actos quase de beligerância) a soberania do célebre rochedo, símbolo de um pequeno território cuja população — composta por ingleses, espanhóis, italianos, malteses e até portugueses — ronda actualmente os 30 mil habitantes.

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