Olha as lindas marchas!

Pelo traço de Mestre José Ruy, em Quadradinhos nº 54, 2ª série, de 20/6/1981 (suplemento do saudoso vespertino A Capital, dirigido por Adolfo Simões Müller), chega-nos um pitoresco desfile das marchas populares desse festivo mês de Junho, enquadradas por famosos heróis de papel, de arquinho e balão em punho, que ainda hoje fazem as delícias dos seus admiradores, num renovado preito de homenagem aos magistrais artistas que os criaram há muitas décadas.

E até Tom Sawyer e Ivanhoe se aliaram à festa… como convidados especiais do Quadradinhos, um suplemento que, fiel ao lema do seu director, procurava não só divertir como instruir, fomentando também entre os mais jovens o convívio com os heróis dos clássicos literários, através da fusão entre o texto e a imagem.   

Os Homens e a História – 1

A conquista de Gibraltar

Com um título algo diferente, “Histórias da História”, mas com o mesmo significado, publiquei há mais de 30 anos, no vespertino A Capital, que deixou há muito de aparecer nas bancas, uma série de artigos sobre personagens e efemérides que, embora sendo do domínio público, acabaram por ficar esquecidas nos bastidores desse grande teatro que é a história dos povos, das guerras, das descobertas, das conquistas, das catástrofes e, por inerência, da civilização que faz o homem avançar no tempo, nas artes, na ciência, na política e na cultura, continuando sempre a desbravar novos horizontes.

CapitalTodos esses artigos tiveram direito a magníficas ilustrações de Augusto Trigo, um artista cujo talento começava, então, a ser reconhecido e apreciado entre os leitores do Mundo de Aven- turas e de outras revistas de banda desenhada, pois chegara a Portugal apenas dois anos antes. Com ele, criei os meus primeiros personagens para séries de temática aventurosa que foram publicadas em álbuns pela Edinter e pela Méribérica/Liber: Wakantanka (dois volumes), Ranger e Excalibur.

Anos depois, mais concretamente em 2004, alguns desses artigos reapareceram noutro jornal que já deixou também de se publicar: o 24 Horas. Como me pediram para prolongar a série, escrevi outros textos, que o Trigo se encarregou também de ilustrar, mas, à última hora, a redacção mudou de ideias e cancelou a rubrica, que se intitulava pomposamente (a ideia foi deles) “Grandes Histórias”. Resultado: os novos artigos e os respectivas desenhos ficaram na “gaveta”, isto é, no computador, termo mais correcto para a imagem dos tempos modernos, em que já pouco utilizamos os papéis.

E, entretanto, já passaram mais alguns anos desde essa nova experiência, infelizmente interrompida… o que me deu a ideia de aproveitar os meus textos e as ilustrações do Augusto Trigo, para os dar a conhecer aos nossos amigos que se interessam por temas históricos. Aliás, n’A Capital subscrevi-os com um pseudónimo, para baralhar os curiosos. E resultou em cheio! Nem o Geraldes Lino adivinhou quem era o J. Arnaut!…

Posto isto, aqui têm o primeiro artigo desta série, dedicado a um assunto que esteve muito em foco recentemente: a guerra diplomática, de palavras e de ameaças — algumas quase para levar a sério —, entre a Espanha e a Inglaterra por causa de Gibraltar, minúscula parcela de território em solo espanhol de que uma frota naval inglesa, sob o comando do Almirante Sir George Rooke, se apoderou em Agosto de 1704 e que, desde então, nunca mais voltou à posse dos seus naturais (e legítimos donos) — até porque actualmente uma boa parte da população prefere a soberania inglesa.

Creio que entre os nossos leitores haverá, por certo, quem ignore a verdadeira história deste conflito, desencadeado numa época em que Ingleses e Espanhóis eram ferrenhos inimigos, degladiando-se em vários campos de batalha. Hoje, até parece que essas velhas rivalidades não se extinguiram completamente!

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A CONQUISTA DE GIBRALTAR

Texto: Jorge Magalhães    Ilustração: Augusto Trigo

Gibraltar — que voltou a ser tema de polémica, reacendendo despiques antigos entre a Espanha e a Inglaterra — tornou-se possessão inglesa devido a um desses episódios meramente acidentais que modificam, por vezes, o curso das guerras e o destino das grandes potências.

Em 1700, a rivalidade entre a França e a Inglaterra atingiu o seu ponto crítico quando o Duque de Anjou, neto de Luís XIV, se tornou herdeiro presuntivo da coroa de Espanha. Senhora das vastas possessões espanholas de além-mar, a França tornar-se-ia incontestavelmente a maior potência europeia, capaz de disputar à sua velha inimiga a hegemonia territorial e marítima, tanto no velho como no novo mundo.

Numa hábil manobra política, a Inglaterra aliou-se à Áustria e aos Países-Baixos, recentemente libertos do domínio espanhol, e enviou uma poderosa esquadra ao Mediterrâneo, sob o comando do almirante George Rooke. O principal objectivo dessa esquadra era impedir a junção das flotilhas francesas de Toulon e Brest, mas Rooke não foi feliz na sua missão. Na rota para o sul, os ingleses tentaram ainda inutilmente apoderar-se de Cádis e Barcelona.

Temendo o desagrado da Rainha Ann e do poderoso Duque de Marlborough, capitão-general do exército aliado, Rooke lembrou-se de atacar Gibraltar, apesar da fama de inexpugnável do lendário rochedo com 430 metros de altura, do alto do qual se avista um horizonte de 200 quilómetros. Foi por aí que começou a invasão árabe sob o comando de Tarik, no ano 710 d.C., e por aí, também, os árabes se retiraram da Península Ibérica, depois da queda de Granada em 1492 — o mesmo ano em que Cristóvão Colombo descobriu a América e se iniciou a expansão espanhola no novo mundo.

A conquista de Gibraltar

De vila árabe, Gibraltar transformara-se em tranquila aldeia de pescadores, sem perder a sua importância estratégica. Mas a guarnição militar dispunha apenas de 150 homens e de algumas peças de artilharia antiquadas. Rooke sabia que as posições consideradas inexpugnáveis são quase sempre as pior defendidas.

O desembarque começou na baía de Algeciras, durante a noite de 3 de Agosto de 1704, aproveitando a falta de luar, com 1800 soldados sob as ordens do general austríaco Príncipe de Hesse-Darmstadt. De madrugada, Rooke abriu fogo com todos os seus canhões. O pânico rebentou na pequena vila de pescadores devastada pela impiedosa metralha.

Os espanhóis trataram de convocar todos os homens válidos para a defesa, enquanto as mulheres e as crianças corriam a refugiar-se numa ermida chamada Nossa Senhora dos Rochedos, em Punta de Europa, onde existia uma imagem da Virgem que era, há longos anos, objecto de peregrinação.

Almirante George RookeAs preces elevaram-se no ar, mas não bastavam preces para salvar os sitiados. Com efeito, tudo parecia estar contra eles. Não tinham munições suficientes para resistir a um longo cerco e viam-se em apuros para disparar os arcaicos canhões da guarnição. De resto, o alcance das velhas bombardas era tão curto que os sitiantes não corriam sequer o risco de serem salpicados pelas colunas de água levantadas pelas balas.

Era um duelo desigual, de milhares de ingleses e holandeses contra 500 espanhóis, incluindo os civis que tinham pegado em armas. Mas as muralhas de Gibraltar resistiam a tudo. Durante três horas, choveram sobre o formidável bastião perto de 15 mil obuses, que não fizeram quaisquer vítimas entre os defensores. E Rooke compreendeu que, apesar da esmagadora superioridade  das suas forças, o assédio era inútil.

Ainda essa manhã de 4 de Agosto não tinha findado, quando o almirante inglês decidiu dar ordens às tropas de desembarque para voltarem a bordo. Mas, entretanto, um oficial que se aventurara em território inimigo, apresentou-se ao Príncipe de Hesse com uma boa nova: acabava de descobrir um atalho que conduzia ao alto do rochedo, em pleno coração do reduto espanhol.

O general austríaco não perdeu tempo. Reunindo os seus homens, internou-se pela passagem e não tardou a surpreender as mulheres e as crianças refugiadas no santuário de Nossa Senhora. De posse desses preciosos reféns, foi-lhe fácil assenhorear-se da vila e dominar a resistência dos homens da guarnição.

800px-A_British_Man_of_War_before_the_Rock_of_Gibraltar_by_Thomas_WhitcombeQuando a bandeira branca que punha termo ao com- bate flutuou na cidadela, uma salva entusiástica partiu dos navios, onde os canhões se tinham calado. O Príncipe de Hesse foi o primeiro a penetrar no reduto e, depois de nego- ciar rapidamente a capitu- lação com os defensores, teve um gesto simbólico, içando a bandeira austríaca, acto que ofendeu o brio patriótico dos seus aliados. Sir George Rooke não tardou a mandar hastear também o seu pavilhão e, embora Hesse reivindicasse para si as honras da vitória, foi a bandeira inglesa que ficou a tremular mais alto e mais orgulhosamente no mastro.

A conquista de Gibraltar e a guerra da Sucessão espanhola, desastrosa para a França, foram os primeiros alicerces do poderoso império colonial britânico. Consciente da importância estratégica de Gibraltar, a Inglaterra nunca mais a devolveu aos espanhóis, que durante o século XVIII tentaram por duas vezes reconquistá-la. E ainda hoje, como se tem visto, os dois países, parceiros na União Europeia e aliados na Nato, disputam no campo diplomático (e em actos quase de beligerância) a soberania do célebre rochedo, símbolo de um pequeno território cuja população — composta por ingleses, espanhóis, italianos, malteses e até portugueses — ronda actualmente os 30 mil habitantes.

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