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As imprecações do Capitão HaddockTintin - Haddock 1

Haddock (delírio)É frequente os mais carismáticos heróis da Banda Desenhada, tanto nas séries humorísticas como realistas, terem um parceiro, um inseparável amigo e companheiro de aventuras, que serve quase sempre de seu contraponto, distinguindo-se por possuir outros dons e outras características (que caem também no goto dos leitores), mostrando uma faceta mais humana, com defeitos, fraquezas e virtudes — o que contribui para elevar o padrão das suas aventuras, sem prejuízo do estatuto mítico do herói principal.

Nesta peculiar categoria de personagens secundárias que rapidamente ascendem também ao “estrelato”, vem-nos de imediato à memória a incontornável figura do Capitão Haddock, talvez o mais famoso de todos os comparsas que enriqueceram criações emblemáticas, onde a aliança entre duas personagens, mesmo que diametralmente opostas, pede meças aos heróis solitários…

Tintin - Capa CaranguejoTintin apenas o conheceu na sua 9ª aventura, “O Caranguejo das Tenazes de Ouro” (Le crabe aux pinces d’or), em que Haddock fazia o papel de um marinheiro alcoólico e embrutecido, com frequentes acessos de cólera, alucinações e perdas de memória, mas que graças à amizade com o jovem aventureiro e aos seus exemplos de coragem e virtude, conseguiu regenerar-se, passando a ter hábitos mais moderados.

Excepto quanto à linguagem… que, pelo contrário, se tornou ainda mais irascível, recheada de extravagantes expressões oriundas de um copioso “jargão” que o velho marinheiro se compraz em refinar, continuando a somar-lhe novas injúrias, como uma espécie de glossário (a sua obra-prima) que não se cansa de rever e enriquecer.

Tintin - Haddock 2 a 5

Mais tarde, ao descobrir o tesouro da “Licorne”, Haddock fica na posse de um nome aristocrático e de um sumptuoso palacete em Moulinsart, onde habita, em boa paz e harmonia, juntamente com Tintin, o “surdo que nem uma porta” professor Tournesol e o fleumático mordomo Nestor… mas nem por isso aprendeu a refrear os seus excessos de linguagem.

Aqui têm mais um hilariante exemplo (à boa maneira de Hergé) dessas intempestivas manifestações de mau humor — quase sempre provocadas por peripécias que bulem com os seus sentimentos e a sua noção de justiça, mas também, sob o efeito do álcool, com o seu vício e o seu feitio brigão —, extraído igualmente do episódio “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”, que é um autêntico festival de impropérios… para deleite dos leitores!

Tintin - Haddock 6 a 9

Tintin - Cavaleiro Andante capa nº 405Ninguém consegue ter como Haddock, na ponta da língua, um vocabulário tão truculento, tão vivo, tão espontâneo, de tão grande riqueza e variedade verbal, lembrando uma torrente que jorra de um geiser fumegante ou uma cascata que rola fragorosamente por uma encosta, abafando todos os outros ruídos. Sobretudo quando ele usa um megafone, como na cena seguinte, a todos os títulos memorável, de Coke en stock (em português, “Carvão no Porão” ou “Mercadores de Ébano”).

Esta página foi publicada no Cavaleiro Andante nº 405, de 3 de Outubro de 1959, revista onde Haddock ficou conhecido como Capitão Rosa, nome que o Diabrete tinha sido o primeiro a consagrar entre os leitores portugueses, na aventura “O Tesoiro do Cavaleiro da Rosa”.

Tintin - mercadores de ébano

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