Os Homens e a História – 4

Uma história verdadeira de Natal

“Napoleão foi grande”, escreveu Tolstoi em Guerra e Paz, “porque se colocou acima da revolução, esmagou os abusos e conservou tudo o que ela tinha de bom, a emancipação dos preconceitos, a igualdade dos cidadãos, a liberdade da imprensa e da palavra”.

conde-de-lavaletteMas Napoleão foi grande, também, porque os seus amigos nunca o abandonaram. Homens como o conde Antoine-Marie Chamans de Lavalette (1769-1830), seu conselheiro e ajudante de campo, de quem ele diria mais tarde: “é a honra, a probidade e a rectidão em pessoa”, foram-lhe sempre dedicados, do princípio ao fim da grande epopeia napoleónica.

Depois da derrota, na batalha de Waterloo, esses fiéis amigos do imperador pagaram com a vida o seu juramento de lealdade. Lavalette, condenado à guilhotina, conseguiu evadir-se, nas vésperas do Natal de 1815. Essa rocambolesca evasão já a contámos aos leitores do Mundo de Aventuras, no número especial de Natal (1975) desta revista, de onde o artigo seguinte, com ilustrações de Baptista Mendes, foi reproduzido.

Lavalette era de origem humilde. Mas, na época do Império, qualquer pessoa podia ascender às posições mais honrosas, mesmo alguém que fora um simples soldado da Guarda Nacional, quando a revolução contra a monarquia mergulhou a França num mar de sangue. Vinte anos depois, em recompensa dos valiosos serviços prestados à pátria (e a Napoleão), já era par de França. O obscuro guarda-nacional, nascido numa humilde família de operários, galgou em tão pouco tempo os mais altos degraus da hierarquia social.

napoleao-a-cavaloMas a “águia” napoleónica estava prestes a ensaiar o seu último voo… Waterloo, o fim de todos os sonhos de grandeza. Napoleão tinha um encontro marcado com a fatalidade numa pequena ilha do Atlântico: Santa Helena. Nenhum dos seus partidários, porém, traiu a palavra dada. Labédoyère e Ney, que se lhe juntaram durante a marcha triunfal para Paris, foram fuzilados, e Lavalette, que fora o principal artífice da sua evasão do primeiro exílio, na ilha de Elba, viu suspender-se sobre ele o sangrento cutelo da guilhotina.

Preso numa cela da Conciergerie, sabia que também tinha os dias contados. Debalde sua mulher implorou o perdão do rei. Todos os ouvidos se fecharam às súplicas da nobre dama. Depois, foi a fuga de Lavalette, em circunstâncias extraordinárias, ajudado por alguns homens de origens e crenças políticas diferentes, que o milagre da fraternidade (ou seria de Natal?) uniu no esquecimento dos seus ódios e rivalidades.  

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Texto de Jorge Magalhães ◊ Ilustrações de Baptista Mendes

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Os Homens e a História – 3

Leif Erikson e o continente misteriosoLeif Erikson descobre a América (quadro de Christian Krohg)

Apresentamos hoje mais um artigo que foi publicado, há algumas décadas, no desaparecido vespertino A Capital — com texto meu e uma ilustração de Augusto Trigo —, subordinado ao título Histórias da História, comum a essa série de artigos que dediquei a figuras e a factos heróicos do passado que estimularam a minha imaginação — como os relatos da aventurosa viagem de um destemido navegador Viking, Leif Erikson em retratode seu nome Leif Erikson, que pela primeira vez pisou solo americano e desbravou a orla de um continente desconhecido onde outros navegadores europeus, chefiados por Cristóvão Colombo (um nome bem mais célebre), só chegariam 500 anos depois.

Nem sempre a História faz justiça aos mais audazes pioneiros, àqueles que enfrentaram, em épocas remotas, os perigos dos oceanos e das longas travessias, sem bússolas, sem astrolábios e sem outros instrumentos de navegação, guiados apenas pela sua coragem e pelo seu ardente desejo de chegar cada vez mais longe, de sulcar mares desconhecidos, de avistar novas terras e descobrir imensas riquezas… mas cujos feitos, no caso de Leif Erikson (ou Leif-o-Feliz), ficaram obscuramente registados em sagas e canções nórdicas, escritas numa linguagem muito menos universal do que a de Homero.

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Leif Erikson e o continente misterioso

Texto: Jorge Magalhães ¤ Ilustração principal: Augusto Trigo

Leif Erikson (drakkar)

Quatrocentos e noventa e dois anos antes de Cristovão Colombo, já a América do Norte era conhecida por um povo guerreiro da Europa Setentrional: os Vikings. Sabe-se hoje que foi Leif Erikson o primeiro nave- gador que explorou essas paragens, dando-lhes o nome de Vineland, isto é, “Terra dos Vinhedos”.

Leif era filho do norueguês Erik Rauda, por alcunha Erik-o-Ruivo (ou Erik-o- -Vermelho), que com toda a sua família emigrou para a Islândia em meados do século X. Certo dia, Erik, que segundo rezam as crónicas era de índole violenta, matou alguns homens numa disputa com os vizinhos. O Althing, Supremo Tribunal Viking, condenou-o ao exílio perpétuo, expulsando-o da ilha. Num pequeno barco, Erik e os seus velejaram para Oeste, durante muitos dias. A audaciosa viagem terminou junto das costas da Gronelândia, onde Erik desembarcou e estabeleceu uma nova colónia, chamando a esse continente, onde os invernos eram tão rigorosos como na Islândia, “Terra Verde”, não se sabe por que motivo, talvez saudoso dos verdes fiordes do seu país natal.

Brattahlid, a nova colónia, prosperou, no entanto, graças às frequentes trocas comerciais com a Islândia. Aí, Leif cresceu, vigoroso e feliz, tornando-se um campeão em todas as provas de destreza e um hábil caçador. O pai ensinou-lhe a ciência de navegar e aos dezoito anos Leif manifestou o desejo de conhecer a Noruega, pátria dos audaciosos Vikings cujo sangue lhe corria nas veias. A travessia do Oceano não teve obstáculos para ele. Num mês apenas repetiu a proeza de Erik e apresentou-se em Trondheim, onde o velho rei Olaf tinha a sua corte, com um barco carregado de peles e de presentes.

Leif Erikson em bronzeO rei recebeu-o com satisfação e deu todo o seu apoio ao projecto de colonizar a Gronelândia, que segundo Leif garantia a pés juntos era “uma terra verde, imensa, com boas pastagens”. Muitos Vikings, sugestionados pela sua eloquência, prontificaram-se a segui-lo, levando com eles uma nova religião: o cristianismo. E uma grande frota de drakkars (barcos a remos compridos e de proas altas, com uma única vela) acompanhou a embarcação de Leif até à sua nova pátria. Entre eles, seguia também o do nobre Bjarni, comerciante e navegador, que se juntou a Leif ao largo da Islândia. Mas uma tempestade separou os navios, fazendo Bjarni perder a rota e navegar para sudoeste.

Quando chegaram ao porto de Erik-o-Ruivo, Leif, desolado, deu ao pai a notícia de que um dos membros da frota se perdera. Mas, algumas semanas depois, a vela de um drakkar surgiu no horizonte. Eram Bjarni e os seus valentes companheiros. Arrastados pelas correntes e pelos ventos contrários, impelidos pelas formidáveis barreiras de gelo, tinham navegado para muito longe, para terras desconhecidas. Bjarni não se atrevera a desembarcar, mas tais maravilhas disse dessas terras que bordejara de perto, que Leif, entusiasmado, pensou logo em explorá-las. Claro que um Viking como Erik-o-Ruivo tinha de aprovar o projecto do filho, embora na sua idade já não pudesse acompanhá-lo. E Leif partiu com trinta e cinco homens decididos, em busca do continente misterioso.

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Durante muitas semanas navegaram entre icebergs de esmagadora imponência. O barco foi assolado por violentas tempestades. Os homens passaram tormentos de toda a espécie. Por fim, avistaram terra. Mas esta era pedregosa, desolada, sem vegetação. Chamaram-lhe Helluland, “a Terra das Pedras Chatas”, e corajosamente prosseguiram a viagem. Já não tinham forças nem provisões para regressar. Se fracassassem, ficariam para sempre perdidos no oceano, até que os deuses fúnebres viessem cobrar o seu tributo. Por fim, um belo dia, avistaram dois extensos promontórios verdes, uma baía larga e bem abrigada.

Havia ali mais árvores do que em toda a Gronelândia. Desembarcaram e Leif man- dou cortar madeira para construírem casas. O inverno aproximava-se e Brattahlid estava muito longe. Como a caça era abundante e os rios fervilhavam de peixes, sobretudo salmões, resolveram ficar ali até à Primavera. Leif, sempre audaz e previdente, organizou quatro grupos com a missão de explorarem o interior.

Todos os Vikings regressaram na lua nova, com excepção de Tyrker, um marinheiro natural do país dos Francos, que tinha fama de imprudente. Mas Tyrker apareceu pouco depois, dando pulos de alegria, rindo a bom rir, como se estivesse embriagado. Encontrara uvas, grandes extensões de vinhas rubras como os cabelos de Erik! E mostrava as mãos cheias de cachos, perante o olhar atónito dos companheiros… que já o julgavam morto.

Esse dia em que os Vikings provaram o sabor de um novo fruto pertence à História e à Lenda. As Sagas dos rudes homens do Norte falam-nos dele. As Sagas cantadas pelos bardos (scalds) nas longas noites de inverno, quando o vento e a neve varriam as grandes florestas da Escânia e os telhados de Eastbygd, a capital do reino de Erik. A Saga Eyrbiggia, a Saga de Thorwald, de Karlsefni e das novas terras, nos distantes mares do sul.

Em memória da descoberta de Tyrker, Leif Erikson pôs àquela região o nome de Vineland. E na primavera, já refeito das provações da viagem, regressou à Gronelândia. Entusiasmado com o que ouviu, Thorwald, outro dos filhos de Erik, organizou uma nova frota e partiu na esteira do irmão. Thorwald, em cujas veias corria também sangue aventureiro, esperava navegar ainda mais longe e descobrir outras terras. Mas esta segunda expedição foi menos feliz. Num primeiro recontro com os “peles-vermelhas” (a quem os Vikings puseram o nome de Skraellings), Thorwald foi mortalmente ferido. Os seus homens sepultaram-no em Vineland e, temendo novos ataques dos selvagens e aguerridos Skraellings, apressaram-se a regressar à Gronelândia.

Leif Erikson - selos de S.Tomé e Príncipe e EUANão seria essa a última expedição Viking ao “País das Uvas”. Mas nenhuma tentativa dos guerreiros do Norte para se fixarem naquela terra verdejante e de clima hospitaleiro foi bem sucedida, por causa da animosidade dos Skraellings e das disputas entre os seus próprios chefes, que não possuíam a fibra nem a capacidade organizadora de Leif Erikson.

Há provas, hoje, de que as Sagas Vikings, as Sagas que falam de Erik e de seus filhos, de Bjarni e dos seus companheiros, são verdadeiras. Em Agosto de 1898, em Salém, no Minnesota (EUA), um lavrador de ascendência sueca, Olaf Ohman, ao abater uma velha árvore, descobriu sob as suas raízes uma pedra onde estavam gravados estranhos sinais semelhantes à escrita rúnica. Um professor da Universidade de Minnesota conseguiu decifrá-los. Soube-se, assim, que no ano 1000 tinha passado por ali um grupo de Vikings em jornada de descoberta para o interior. Esses homens estavam a catorze dias de marcha dos seus barcos.

Estátua de Leif Erikson em Newport (EUA)Hoje, a “Pedra de Kensington”, como se tornou conhecida, cons- titui uma das mais preciosas relíquias do Museu Nacional de Washington. E não é o único vestígio arqueológico que confirma o que narram as Sagas. Desde 1964 (por decisão do presidente Lyndon B. Johnson), celebra-se nos Estados Unidos, a 9 de Outubro, o Leif Erikson’s Day, assinalando a chegada do primeiro europeu à América do Norte. Leif tornou-se um herói nacional, com estátuas por toda a parte!

Desde tempos remotos, os cami- nhos marítimos foram desbravados por homens atraídos pelo desconhecido, em pequenas e frágeis embarcações dos mais diversos tipos. E as mais temerárias dessas viagens perdem-se na noite dos séculos, embelezadas quase sempre pelo mistério e pela lenda. Antes de Leif-o- -Feliz, talvez os Fenícios de Hannon, os primeiros que ultrapassaram as Colunas de Hércules (estreito de Gibraltar), tenham descoberto o caminho das Américas. Antes dos Fenícios, quem sabe se os Atlantes, esse misterioso povo desaparecido, antepassado de muitas civilizações do continente americano.

Cristóvão Colombo, o Genovês, somente cinco séculos mais tarde repetiu o feito de um punhado de Vikings que, além de rudes navegadores, eram também poetas e tinham nos olhos e no coração o amor da aventura, dos mares revoltos e das terras desconhecidas que se erguiam além do horizonte!

 

Os Homens e a História – 2

O HERÓI DE KARTUM

Mohamed Ali (Mahdi do Sudão)O artigo de hoje é dedicado a uma das maiores figuras da história colonial inglesa, o general Charles Gordon, governador da cidade de Kartum, na região sudanesa do Alto Nilo, que resistiu heroi- camente durante meses, com uma pequena guarnição, ao assédio das fanáticas hordas de Mohamed Ali Abadalah Ahmed, o Mahdi, um chefe muçulmano que se considerava “enviado de Deus” e que como tal, sob a bandeira verde do Profeta, queria islamizar todos os habitantes daquela região, obrigando os próprios cristãos a abraçar a sua fé. (Esse fanatismo religioso é muito semelhante ao que hoje caracteriza grupos extremistas como a Al-Qaeda ou o Isis. Mas as circunstâncias históricas, há 130 anos, eram bem diferentes).

A favorita do Madi   176Tudo isto culminou, tragicamente para Gordon, no ano da graça de 1885, numa das regiões mais desérticas e inóspitas do norte de África, teatro de uma guerra cruel e sangrenta que o cinema e os romances de aventuras – Emilio Salgari (“A Favorita do Mahdi”), Alfred E. W. Mason (“As Quatro Penas Brancas”), Henrik Sienkiewicz (“Um Pequeno Herói”) –, além da BD, já retrataram várias vezes.

O texto que se segue – oriundo, com algumas alterações, do que surgiu em 1981 no vespertino A Capital – foi também publicado, em versões mais sucintas, no jornal 24 Horas, em 2004, e no Mundo de Aventuras nº 164 (2ª série), de 18 de Novembro de 1976, de onde reproduzimos duas gravuras e o cabeçalho com o título que serve de epígrafe a esta rubrica.

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O HERÓI DE KARTUM

Texto: Jorge Magalhães ¤ Ilustração principal: Augusto Trigo

Em 1884, no Sudão, sob domínio egípcio e otomano, desencadeou-se uma guerra de extermínio contra todos os infiéis, a Jihad (guerra santa) instigada por Mohamed Ahmed, o Mahdi, uma espécie de Messias para os muçulmanos, chefe da fanática seita dos derviches.

O herói de kartum 1   177Em Kartum, o general inglês Charles Gordon, ao serviço do governo do Cairo, viu-se sob a ameaça de um cerco, enquanto emissários do Mahdi lhe propunham a rendição, imediatamente seguida pela conversão de todos os cristãos e dele próprio à fé de Alá. Tão drásticas condições nunca poderiam ser aceites por um homem da têmpera de Gordon, fervoroso leitor da Bíblia e militar de carreira com uma brilhante folha de serviços. Embora a guarnição egípcia fosse bastante reduzida e os reforços que aguardava tardassem em chegar, respondeu ao Mahdi que recusava toda e qualquer negociação com os rebeldes e que a cidade, bem fortificada, seria capaz de aguentar um longo cerco.

Mas em Kartum havia apenas dois oficiais europeus: ele e o coronel Stewart, seu ajudante de campo. Os habitantes, na maioria sudaneses, sentiam-se intimidados pela aproximação do inimigo, que massacrava sem piedade as populações, pondo todo o Alto Nilo a ferro e fogo.

A cidade estava situada sobre um istmo, na confluência do Nilo Branco com o Nilo Azul, e o seu porto pequeno, mas bem defendido, constituía a única comunicação com o exterior. Gordon Paxá, como era conhecido no Egipto e no Sudão, decidiu fortificar também os arredores, mandando cavar trincheiras e disseminar minas por todo o terreno.

Enquanto prosseguiam os preparativos militares e nos celeiros se arrecadava febrilmente o maior número de víveres, chegou um telegrama de Londres, convidando Gordon a abandonar Kartum sem combate, caso o cerco se apertasse. Embora estivesse ainda a tempo de retirar, o velho soldado preferiu ignorar a ordem do seu governo.

– Não sairei daqui – afirmou – nem permito que nenhum combatente o faça! A minha vida não importa! Tenho de pensar no destino de toda esta gente, que seria massacrada se a abandonássemos. Londres devia ter-me mandado víveres e tropas em vez de ordens!

Em Março, os derviches passaram o Nilo em milhares de pequenas embarcações e Kartum ficou isolada. Só restava a saída pelo rio, tanto ou mais perigosa do que uma surtida por terra. De noite, as fogueiras dos derviches brilhavam ao longo da margem, como um rosário inumerável de estrelas. Vozes guturais chegavam aos ouvidos dos defensores da cidade, entoando cantilenas de ódio e de morte, acompanhadas pelo rufar incessante dos tambores. Gordon, no seu palácio, ouvia-os, imperturbável. A um dos oficiais egípcios que certa noite, durante um bombardeamento, lhe pediu, aterrorizado, que se abrigasse, o general respondeu simplesmente: – Saiba que Deus criou Charles Gordon sem medo!

Em Inglaterra, onde todos o consideravam um herói, os jornais, apoiados pela população, lançavam vibrantes campanhas a seu favor. Por fim, Gladstone, o chefe do governo, pressionado pela própria Rainha Vitória, teve de enviar uma força sob o comando de Lorde Wolseley, que desembarcou no Cairo em 9 de Setembro, quando o cerco já se arrastava há seis meses e as águas do Nilo começavam a baixar, dificultando a navegação e atrasando os socorros.O herói de kartum 2  copy

Entretanto, Kartum continuava a resistir heroicamente a todos os ataques, mesmo os de morteiros, com a artilharia que os derviches tinham capturado, meses antes, a um destacamento anglo-egípcio comandado pelo coronel Hicks. Outras povoações foram menos felizes. Em Berber, os derviches massacraram sem piedade 50.000 habitantes. Muitos outros foram condenados ao cativeiro. A situação piorava de dia para dia.

Apesar de Wolseley ter ficado retido no Cairo, devido à má preparação das suas tropas para as campanhas do deserto, como acontecera com Hicks, Gordon continuava teimosamente apostado em resistir até ao fim e a morrer com honra, se fosse esse o seu destino. Apaixonado leitor da Bíblia, de que nunca se separava, o valoroso general respondia serenamente a todos quantos se referiam sem esperança aos anunciados socorros:

– Deus não prometeu deferir os nossos votos terrestres!

Mas o prolongado cerco tinha enfraquecido os defensores. O próprio Gordon, sempre calmo, como que indiferente ao desenrolar dos acontecimentos, resolveu tentar um golpe de sorte e enviou Stewart, o seu dedicado lugar-tenente, num pequeno barco a vapor, pelo rio infestado de inimigos e obstáculos. Com Stewart ia também um grupo de turistas americanos e outros civis que não tinham sido evacuados a tempo. Quando o ruído das enormes pás do barco deixou de se ouvir, Gordon recolheu ao seu gabinete e aí, em completa solidão, continuou a ler a Bíblia e a redigir o seu diário.

Quinze dias depois, um negro recolhido no rio deu aos sitiados a infausta notícia: o vapor tinha sido atacado e naufragara nas rochas. Nenhum dos seus ocupantes escapara com vida. Os sectários de Mahomed Ahmed tinham-se apoderado das cartas em que Gordon pedia socorro e explicava a precária situação da cidade.

Sem esperar que o Mahdi, agora ao corrente dos seus diminutos efectivos, redobrasse os ataques, Gordon destacou outro dos seus oficiais para ir buscar socorros, no único barco que lhes restava. Com um sorriso amargo, o general desejou boa sorte aos que se afastavam, deixando a guarnição ainda mais reduzida, e acrescentou à sua mensagem uma breve frase pessoal:

O herói de kartum 3  178– Digam aos meus compatriotas que me sinto feliz por cumprir até ao fim o meu dever!

Em Janeiro, décimo mês do cerco, o heróico Gordon resistia ainda. Foi então que uma notícia correu pela cidade, entre as manifestações de regozijo do povo: dizia-se que os reforços estavam apenas a dois dias de marcha. Vitoriando Gordon, a população de Kartum correu às mesquitas para dar graças a Alá.

Passou-se uma semana, sem novidades, e o desânimo tornou a invadir os sitiados. Só Gordon, no seu posto, permanecia lúcido e enérgico. Os obuses metralhavam continuamente a cidade. Parte das muralhas já se encontrava em ruínas. Foi então que sucedeu o pior: os Besingher, soldados indígenas, recusaram-se a combater mais. Quando os primeiros derviches entraram na cidade pela muralha oeste, completamente derrocada, largaram as armas e renderam-se. Só Gordon continuou a dar o exemplo de teimosia, embora soubesse que tudo estava perdido.

Ao fim de dez meses de cerco heróico e sem tréguas, Kartum caiu nas mãos da horda do Mahdi. No seu palácio, Gordon esperou o inimigo a pé firme, sozinho como quase sempre estivera. Os derviches não o pouparam, apesar do supersticioso temor que a sua figura e a sua coragem lhes inspiravam. Tombou sob uma furiosa chuva de golpes, trespassado por dezenas de azagaias e alfanges, depois de ter despejado o tambor do seu revólver até à última bala. Era o dia 26 de Janeiro de 1885. Gordon, o general sem medo, escrevera uma das páginas de maior heroísmo da história das epopeias coloniais.

Indignados, os jornais ingleses relataram que os assaltantes lhe tinham cortado a cabeça para a oferecerem ao Mahdi, mas, verdade ou boato, esse facto nunca foi confirmado. Em 28 de Janeiro, as tropas de socorro, depois de enfrentarem os derviches em Abu Klea, chegaram à cidade devastada pelo fogo, retirando-se logo em seguida. Apesar do Mahdi ter morrido em circunstâncias misteriosas, poucos meses depois – vítima, ao que diziam os supersticiosos sudaneses, de uma maldição de Gordon –, a “guerra santa”, a jihad, continuou durante 13 anos.

Em 1898, Kitchener, um valoroso oficial que conhecia bem o Sudão, conseguiu vencer os derviches e a bandeira inglesa voltou a ser hasteada no palácio de Gordon, em Kartum, numa homenagem póstuma ao herói que soube até ao fim honrar a sua divisa: “Deus criou Charles Gordon sem medo!”

 

 

 

Os Homens e a História – 1

A conquista de Gibraltar

Com um título algo diferente, “Histórias da História”, mas com o mesmo significado, publiquei há mais de 30 anos, no vespertino A Capital, que deixou há muito de aparecer nas bancas, uma série de artigos sobre personagens e efemérides que, embora sendo do domínio público, acabaram por ficar esquecidas nos bastidores desse grande teatro que é a história dos povos, das guerras, das descobertas, das conquistas, das catástrofes e, por inerência, da civilização que faz o homem avançar no tempo, nas artes, na ciência, na política e na cultura, continuando sempre a desbravar novos horizontes.

CapitalTodos esses artigos tiveram direito a magníficas ilustrações de Augusto Trigo, um artista cujo talento começava, então, a ser reconhecido e apreciado entre os leitores do Mundo de Aven- turas e de outras revistas de banda desenhada, pois chegara a Portugal apenas dois anos antes. Com ele, criei os meus primeiros personagens para séries de temática aventurosa que foram publicadas em álbuns pela Edinter e pela Méribérica/Liber: Wakantanka (dois volumes), Ranger e Excalibur.

Anos depois, mais concretamente em 2004, alguns desses artigos reapareceram noutro jornal que já deixou também de se publicar: o 24 Horas. Como me pediram para prolongar a série, escrevi outros textos, que o Trigo se encarregou também de ilustrar, mas, à última hora, a redacção mudou de ideias e cancelou a rubrica, que se intitulava pomposamente (a ideia foi deles) “Grandes Histórias”. Resultado: os novos artigos e os respectivas desenhos ficaram na “gaveta”, isto é, no computador, termo mais correcto para a imagem dos tempos modernos, em que já pouco utilizamos os papéis.

E, entretanto, já passaram mais alguns anos desde essa nova experiência, infelizmente interrompida… o que me deu a ideia de aproveitar os meus textos e as ilustrações do Augusto Trigo, para os dar a conhecer aos nossos amigos que se interessam por temas históricos. Aliás, n’A Capital subscrevi-os com um pseudónimo, para baralhar os curiosos. E resultou em cheio! Nem o Geraldes Lino adivinhou quem era o J. Arnaut!…

Posto isto, aqui têm o primeiro artigo desta série, dedicado a um assunto que esteve muito em foco recentemente: a guerra diplomática, de palavras e de ameaças — algumas quase para levar a sério —, entre a Espanha e a Inglaterra por causa de Gibraltar, minúscula parcela de território em solo espanhol de que uma frota naval inglesa, sob o comando do Almirante Sir George Rooke, se apoderou em Agosto de 1704 e que, desde então, nunca mais voltou à posse dos seus naturais (e legítimos donos) — até porque actualmente uma boa parte da população prefere a soberania inglesa.

Creio que entre os nossos leitores haverá, por certo, quem ignore a verdadeira história deste conflito, desencadeado numa época em que Ingleses e Espanhóis eram ferrenhos inimigos, degladiando-se em vários campos de batalha. Hoje, até parece que essas velhas rivalidades não se extinguiram completamente!

Os Homens e a Histórias - cabeçalho848

A CONQUISTA DE GIBRALTAR

Texto: Jorge Magalhães    Ilustração: Augusto Trigo

Gibraltar — que voltou a ser tema de polémica, reacendendo despiques antigos entre a Espanha e a Inglaterra — tornou-se possessão inglesa devido a um desses episódios meramente acidentais que modificam, por vezes, o curso das guerras e o destino das grandes potências.

Em 1700, a rivalidade entre a França e a Inglaterra atingiu o seu ponto crítico quando o Duque de Anjou, neto de Luís XIV, se tornou herdeiro presuntivo da coroa de Espanha. Senhora das vastas possessões espanholas de além-mar, a França tornar-se-ia incontestavelmente a maior potência europeia, capaz de disputar à sua velha inimiga a hegemonia territorial e marítima, tanto no velho como no novo mundo.

Numa hábil manobra política, a Inglaterra aliou-se à Áustria e aos Países-Baixos, recentemente libertos do domínio espanhol, e enviou uma poderosa esquadra ao Mediterrâneo, sob o comando do almirante George Rooke. O principal objectivo dessa esquadra era impedir a junção das flotilhas francesas de Toulon e Brest, mas Rooke não foi feliz na sua missão. Na rota para o sul, os ingleses tentaram ainda inutilmente apoderar-se de Cádis e Barcelona.

Temendo o desagrado da Rainha Ann e do poderoso Duque de Marlborough, capitão-general do exército aliado, Rooke lembrou-se de atacar Gibraltar, apesar da fama de inexpugnável do lendário rochedo com 430 metros de altura, do alto do qual se avista um horizonte de 200 quilómetros. Foi por aí que começou a invasão árabe sob o comando de Tarik, no ano 710 d.C., e por aí, também, os árabes se retiraram da Península Ibérica, depois da queda de Granada em 1492 — o mesmo ano em que Cristóvão Colombo descobriu a América e se iniciou a expansão espanhola no novo mundo.

A conquista de Gibraltar

De vila árabe, Gibraltar transformara-se em tranquila aldeia de pescadores, sem perder a sua importância estratégica. Mas a guarnição militar dispunha apenas de 150 homens e de algumas peças de artilharia antiquadas. Rooke sabia que as posições consideradas inexpugnáveis são quase sempre as pior defendidas.

O desembarque começou na baía de Algeciras, durante a noite de 3 de Agosto de 1704, aproveitando a falta de luar, com 1800 soldados sob as ordens do general austríaco Príncipe de Hesse-Darmstadt. De madrugada, Rooke abriu fogo com todos os seus canhões. O pânico rebentou na pequena vila de pescadores devastada pela impiedosa metralha.

Os espanhóis trataram de convocar todos os homens válidos para a defesa, enquanto as mulheres e as crianças corriam a refugiar-se numa ermida chamada Nossa Senhora dos Rochedos, em Punta de Europa, onde existia uma imagem da Virgem que era, há longos anos, objecto de peregrinação.

Almirante George RookeAs preces elevaram-se no ar, mas não bastavam preces para salvar os sitiados. Com efeito, tudo parecia estar contra eles. Não tinham munições suficientes para resistir a um longo cerco e viam-se em apuros para disparar os arcaicos canhões da guarnição. De resto, o alcance das velhas bombardas era tão curto que os sitiantes não corriam sequer o risco de serem salpicados pelas colunas de água levantadas pelas balas.

Era um duelo desigual, de milhares de ingleses e holandeses contra 500 espanhóis, incluindo os civis que tinham pegado em armas. Mas as muralhas de Gibraltar resistiam a tudo. Durante três horas, choveram sobre o formidável bastião perto de 15 mil obuses, que não fizeram quaisquer vítimas entre os defensores. E Rooke compreendeu que, apesar da esmagadora superioridade  das suas forças, o assédio era inútil.

Ainda essa manhã de 4 de Agosto não tinha findado, quando o almirante inglês decidiu dar ordens às tropas de desembarque para voltarem a bordo. Mas, entretanto, um oficial que se aventurara em território inimigo, apresentou-se ao Príncipe de Hesse com uma boa nova: acabava de descobrir um atalho que conduzia ao alto do rochedo, em pleno coração do reduto espanhol.

O general austríaco não perdeu tempo. Reunindo os seus homens, internou-se pela passagem e não tardou a surpreender as mulheres e as crianças refugiadas no santuário de Nossa Senhora. De posse desses preciosos reféns, foi-lhe fácil assenhorear-se da vila e dominar a resistência dos homens da guarnição.

800px-A_British_Man_of_War_before_the_Rock_of_Gibraltar_by_Thomas_WhitcombeQuando a bandeira branca que punha termo ao com- bate flutuou na cidadela, uma salva entusiástica partiu dos navios, onde os canhões se tinham calado. O Príncipe de Hesse foi o primeiro a penetrar no reduto e, depois de nego- ciar rapidamente a capitu- lação com os defensores, teve um gesto simbólico, içando a bandeira austríaca, acto que ofendeu o brio patriótico dos seus aliados. Sir George Rooke não tardou a mandar hastear também o seu pavilhão e, embora Hesse reivindicasse para si as honras da vitória, foi a bandeira inglesa que ficou a tremular mais alto e mais orgulhosamente no mastro.

A conquista de Gibraltar e a guerra da Sucessão espanhola, desastrosa para a França, foram os primeiros alicerces do poderoso império colonial britânico. Consciente da importância estratégica de Gibraltar, a Inglaterra nunca mais a devolveu aos espanhóis, que durante o século XVIII tentaram por duas vezes reconquistá-la. E ainda hoje, como se tem visto, os dois países, parceiros na União Europeia e aliados na Nato, disputam no campo diplomático (e em actos quase de beligerância) a soberania do célebre rochedo, símbolo de um pequeno território cuja população — composta por ingleses, espanhóis, italianos, malteses e até portugueses — ronda actualmente os 30 mil habitantes.

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