A extraordinária odisseia da coroa de espinhos de Jesus Cristo

Nota: para ilustrar este texto, originalmente publicado no Bambi (suplemento infantil do jornal A Província de Angola), em 6/4/1969, utilizámos no blogue imagens de um livrinho muito raro, recheado de desenhos a cores do saudoso e grande artista Vítor Péon — livro esse destinado a apoiar as aulas de catequese, preparatórias da primeira comunhão, e publicado em finais de 1953, com um prefácio de Sua Eminência, o Cardeal Patriarca.

Artigo de Jorge Magalhães

Na Páscoa, recordamos os passos de Jesus Cristo, desde a sua entrada triunfal em Jerusalém (Domingo de Ramos), da ceia com os Apóstolos e da marcha dolorosa para o Calvário, depois de ser preso e julgado, até ao milagre da Ressurreição.

Diz-se que foram os discípulos que, logo após a sua morte, esconderam a túnica e a coroa de espinhos de Jesus, símbolos trágicos e piedosos do sacrifício. Durante muitos séculos, enquanto os cristãos sofreram perseguições e martírios, nada se soube dessas relíquias. Os próprios cristãos eram obrigados a esconder-se, para escapar às prisões em massa. No circo de Roma, um espectáculo bárbaro e san­grento tinha lugar todos os dias: os cristãos eram lançados às feras ou queimados vivos em cruzes de madeira iguais àquela em que Jesus foi supliciado.

Mas, no século IV, o generoso imperador romano Constantino converteu-se à nova religião, procla- mando-a culto oficial em todo o império. Os cristãos puderam, enfim, viver livremente. E as Santas Relíquias saíram dos seus esconderijos, para serem expostas à veneração dos fiéis.

A coroa de espinhos que tinha ensanguentado a testa do Salvador ficou durante muito tempo em Jerusalém. Até que um dia Constantino transferiu a capital do império para Constantinopla, onde a sagrada relíquia também foi parar, não se sabe por que razão, talvez para a subtrair às mãos dos sarracenos.

O seu significado tornou-se tão valioso para os soberanos de Constantino­pla, que estes a guardaram em lugar seguro, junto dos seus tesouros. Entretanto, os cristãos da Europa resolveram organizar uma grande expedição militar para libertar Jerusalém dos infiéis. Foi a primeira cruzada, a que outras três se seguiram, no espaço de pouco mais de 100 anos. O chefe da quarta cruzada, Balduíno, conde da Flandres, antes de seguir para Jerusalém, atacou Constantinopla, onde reinava um príncipe despótico e cruel. Durante o cerco, esse príncipe morreu e Balduíno ocupou-lhe o trono.

Mas este valente imperador não foi feliz, pois governou apenas durante dois anos. Os príncipes que lhe sucederam tiveram de lutar valorosamente contra os in­fiéis, que ameaçavam as muralhas de Constantinopla. E já se sabe que a guerra, o maior de todos os males, importa sempre na ruína de vidas e bens.

Foi por isso que um jovem imperador chamado Balduíno II resolveu, um dia, pedir auxílio ao rei de França. Tinha apenas 20 anos, mas desde os doze que não fazia outra coisa senão guerrear os seus inimigos. O rei de França recebeu-o com afecto e prometeu dar-lhe todo o dinheiro e todos os soldados de que precisava. Era também bastante jovem este monarca e com fama de virtuoso. Por isso, a Igreja louvou os seus actos, canonizando-o com o nome de São Luís.

Como sinal de gratidão pela ajuda prestada, Balduíno, antes de regressar ao seu país, ofereceu ao soberano francês a coroa de espinhos de Jesus. O rei Luís exultou com essa dádiva, bem mais preciosa do que todos os exércitos e todo o ouro do seu reino. E encarregou imediatamente dois frades, os irmãos Jacques e André, de irem a Constantinopla buscar a sagrada relíquia.

Uma desagradável surpresa aguardava, porém, os dois mensageiros. Na ausência de Balduíno, o Conselho da Regência decidira empenhar a coroa de espinhos a um mercador italiano chamado Nicolas Quirino, pela soma de 177.300 libras. Constantinopla necessitava tanto de dinheiro para a sua defesa que os leais conselheiros não tinham hesitado em recorrer àquele meio.

A promessa de Balduíno era, portanto, vã. Mas o irmão André não desistiu. Enquanto o seu companheiro regressava a França, pelo caminho mais curto, a fim de pedir ins­truções ao rei, o irmão André conseguiu permissão para embarcar na galera que trans­portava para Veneza a coroa de espinhos. Era a época do Natal. Mas a paz e o amor ao seu semelhante andavam arredios do coração de muitos homens, que mesmo nessa quadra sagrada para os cristãos não hesitavam em saquear e matar.

O Mediterrâneo estava infestado de piratas, que surgiram a cortar o caminho à galera e aos marinheiros de Veneza. Vinham de mando do imperador de Niceia, homem ambicioso e cruel, que sonhava há muito apoderar-se da coroa de espinhos para depois a vender, por uma fortuna, a outro rei estrangeiro.

Foi o vento que salvou Frei André e os seus companheiros. A galera de Veneza, mais rápida, desfraldando todas as velas, conseguiu distanciar-se do barco dos pira­tas e chegou ao seu destino sem voltar a ter maus encontros.

Aí, esperava-os uma recepção apoteótica. A coroa de espinhos foi conduzida num relicário à Basílica de São Marcos, onde ficou exposta à veneração do povo. Entretan­to, o irmão Jacques, cumprida a sua missão, regressou de França, com a quantia neces­sária para comprar ao mercador italiano a sagrada relíquia. Mais uma vez a coroa de espinhos mudou de mãos. Mas com que amor e devoção Frei André e Frei Jacques a transportaram! O seu coração estava inundado de alegria! Tanta, que nem sentiram os rigores da travessia através do monte São Bernardo, coberto de neve, e das numerosas estradas onde os desprotegidos viajantes estavam à mercê dos ladrões e dos fora-da-lei.

Mas a providência divina protegia-os. E, no dia 19 de Agosto de 1239, a coroa de espinhos chegou a Paris e foi conduzida à Catedral de Notre-Dame, diante de uma procissão triunfal em que seguiam o próprio rei São Luís e os seus irmãos, descalços e vestidos humildemente como penitentes.

Mais tarde, o piedoso Luís IX mandou construir uma capela onde a venerável relíquia da Cristandade ficou a bom recato. Assim terminou a extraordinária e verídica odisseia da sagrada coroa de espinhos de Jesus Cristo, o mártir do Gólgota.

  

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Uma história de Páscoa (por José Garcês)

“COMO FOI DESCOBERTA A CRUZ” 

José Garcês no seu estúdioIntegrada na rubrica Contos e Lendas — onde já surgiram “Os 12 trabalhos de Hércules”, pelo traço de Marcello de Morais —, apresen- tamos hoje uma história curta com a assinatura de mestre José Garcês, um dos mais infatigáveis obreiros da BD nacional, cuja carreira iniciada em 1946, nas páginas d’O Mosquito, nunca foi interrompida. Mesmo 70 anos depois, José Garcês continua a ter uma agenda cheia de projectos, acalentando o sonho de voltar a fazer BD com temas didácticos e animalistas, duas áreas em que se tornou um consagrado especialista, assim como na das construções de armar, com monumentos nacionais fielmente reproduzidos (a Torre de Belém, os Mosteiros da Batalha e dos Jerónimos, etc), num meticuloso e impressionante labor arquitectónico que lhe tem granjeado os maiores elogios.

Viriato por José GarcêsJosé Garcês espera também lançar este ano um álbum (já concluído) sobre a história de Silves e tem sido alvo de várias homenagens, uma delas a decorrer ainda na Biblioteca Nacional, onde uma exposição dos seus trabalhos está patente até 12 de Abril. Em 2015, teve também uma exposição em Viseu, com particular destaque para a sua famosa obra “Viriato”, reeditada pelo Gicav (Grupo de Intervenção e Criatividade Artís- tica de Viseu), em grande formato, a partir das páginas publicadas, em 1952, no Cavaleiro Andante.

A história que seguidamente reprodu- zimos — incluída numa retrospectiva que iremos dedicar a este veterano da BD portuguesa, começando por algumas das suas criações menos conhecidas (anos 40-50) — apareceu originalmente na revista mensal Pisca-Pisca, onde José Garcês deixou também a marca do seu multifacetado talento artístico. 

No sumário do nº 4 do Pisca-Pisca (Abril de 1968), há outra história de Garcês, baseada na lenda de Amadis de Gaula, um tema que abordou de forma inspirada, como os nossos leitores poderão brevemente confirmar nesta rubrica. Dentro da mesma temática, que sempre o seduziu, registam-se ainda as magníficas versões do Palmeirim de Inglaterra e de Os Cavaleiros de Almourol, duas lendas bem conhecidas da historiografia medieval portuguesa, adaptadas por Garcês na Fagulha e no Mundo de Aventuras Especial.

Garcês Páscoa 1 e 2

Garcês Páscoa 3 e 4

Histórias dos Velhos Deuses (por Marcelo de Morais) – 2

hc3a9rcules-1-1481Surge hoje no nosso blogue o 2º episódio desta série ilustrada por Marcelo de Morais, que o Diabrete publicou entre os nºs 794, de 7/2/1951, e 806, de 21/3/1951.

Tal como o cinema, numa recente produção com um musculoso actor cujo nome não fixámos — e que nunca conseguirá ofuscar a imagem do mítico Steve Reeves, protagonista de vários peplums italianos de boa memória realizados nos anos 50 do século passado —, também a BD evocou em múltiplas edições, com o selo de populares editoras como a Charlton Comics, o célebre herói da mitologia grega, cujas façanhas quase se assemelham, ironicamente, aos traba- lhos que o actual governo helénico tem enfrentado, também de forma hercúlea, para conseguir a ajuda dos seus parceiros europeus, evitando que os efeitos da austeridade se façam sentir de forma ainda mais dramática no seu país.

Trabalhos de Hércules - 7“Histórias dos Velhos Deuses” foi, como já referimos, um dos melhores trabalhos de um novo colaborador do Diabrete, na época 1949-51, que já se distinguira no Camarada, a revista da Mocidade Portuguesa, extinta em 1950, cuja vida curta foi uma espécie de “farol” no panorama dos quadradinhos nacionais, pela renovação que operou em termos gráficos, estéticos e temáticos.

Essa “lufada de ar fresco” — apesar de toda a carga ideológica da Mocidade Portuguesa, organização criada pelo governo de Salazar para promover a educação física e cultural da juventude, e a sua integração no seio do novo regime político — teve em Marcelo de Morais, jovem artista formado pelas Belas Artes, admirador da escola belga e do estilo de Hergé, um dos seus maiores expoentes.

Como continuou a demonstrar no Diabrete, onde lhe coube a honrosa tarefa de fazer equipa, no plano gráfico, com Fernando Bento e Fernandes Silva, outro talentoso recém-chegado às páginas do “grande camaradão”, que também contribuiu em larga escala para o progressivo desenvolvimento, em termos mais modernistas, da 9ª Arte portuguesa.

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Histórias dos Velhos Deuses (por Marcelo de Morais) – 1

Os Doze Trabalhos de Hércules (1ª parte)

Marcelo de Morais 1         023Com um fundo heróico e aventuroso, inspirado nas lendas da mitologia grega, “Os 12 Trabalhos de Hércules”, episódio da série “Histórias dos Velhos Deuses”, foi um dos expoentes máximos da obra de Marcelo de Morais (que também assi- nava Moraes) publicada no Diabrete, depois da sua passagem pelo Camarada, onde criou, entre outros, dois heróis memo- ráveis: o Inspector Litos e o aspirante a detective Vic Este, protagonistas de duas séries policiais que demonstravam a sua aptidão para um género realista narrado de forma caricatural.

Embora o estilo gráfico reflectisse uma forte influência da chamada “escola de Bruxelas” (vulgo escola de Hergé), os argumentos não seguiam a mesma linha, procurando inspiração em temas e personagens que fugissem aos estereótipos da tradicional BD de aventuras, como a maioria, aliás, das histórias do Camarada, cujo cariz mais nacionalista agradava profundamente aos seus leitores.

Marcelo de Morais 1ANesse aspecto, a revista editada pela Mocidade Portuguesa distinguiu-se, pelo lado positivo, de todas as suas congéneres, sem cair em ladainhas de louvor ao regime nem em excessos patrióticos ditados pela evocação sistemática de feitos históricos, mas dando até preferência a cenários contemporâneos e a heróis comuns, como os de Marcelo de Morais, que se identificavam com uma certa forma de ser e estar no mundo, típica dos portugueses de todas as eras.

No Diabrete, onde pontificava o grande mestre da ilustração Fernando Bento, terá sido relativamente fácil a Marcelo de Morais fazer vingar o seu estilo, graças à presença assídua do mais célebre herói da BD europeia e dos seus inseparáveis companheiros de aventuras. Mas não existiam ainda condições para que Marcelo pudesse repetir os êxitos do Camarada, criando outras personagens fixas que, como o Inspector Litos e o jovem estudante de arquitectura (e autor de “aventuras em quadradinhos”!) Vic Este, conquistassem também o apreço dos leitores. Tanto mais que era difícil competir com heróis como Tintin e Bob e Bobette, ou seja, com a mestria dos dois maiores expoentes da emergente escola franco-belga: Hergé e Willy Wandersteen.

Marcelo de Morais 2Tendo de escolher outro caminho, o jovem arquitecto — vocação que transmitira ao seu herói Vic Este — optou, e bem, pelos assuntos didácticos, pelas biografias de célebres actores de cinema, pelos passa- tempos e pelas curiosidades, conseguindo, no cômputo geral, um crédito bastante positivo com toda a inovação, jovialidade e modernismo artístico que trouxe ao Diabrete, cujo aspecto gráfico, durante esse período, se alterou profundamente.

Para o historial da revista ficaram criações risonhas, de amena e proveitosa leitura, em rubricas como “Desenhos Animados”, “Histórias dos Velhos Deuses”, “Sabias Isto?”, “Tudo Isto… e um Prémio Também!”, e algumas histórias aos quadradinhos como “O Terrível Combate” e “A Fórmula Secreta”, em que aperfeiçoou o seu modelo de realismo caricatural. Marcelo de Morais 3Ou seja, nesta fase da revista a presença de Marcelo de Morais (Moraes) não passou despercebida, tornando-se tão assídua e importante como a de Fernando Bento e de outros autores.

Em homenagem a uma prestigiosa revista e a um dos seus melhores colaboradores, começamos hoje a apresentar “Os 12 Trabalhos de Hércules”, outra faceta (algo bicéfala) do trabalho humorístico de Marcelo de Morais, cujo teor didáctico estava em perfeita harmonia com a orientação geral do Diabrete nessa última etapa da sua existência, em que o “grande camaradão” procurava abertamente, sem esquecer a vertente lúdica, cultivar o espírito dos mais jovens com páginas recheadas de textos culturais e de rubricas com conhecimentos úteis.

Dentro em breve apresentaremos a segunda e última parte desta história, estreada no nº 794 (7/2/1951) e concluída no nº 806 (21/3/1951) do Diabrete.

Trabalhos Hérculo  1 e 2Trabalhos Hérculo  3 e 4Trabalhos Hérculo  5 e 6

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