CELEBRANDO MAIS UM ANIVERSÁRIO DO “MUNDO DE AVENTURAS” (DESAPARECIDO HÁ 30 ANOS)

Nascido em 18/8/1949, o Mundo de Aventuras — um dos títulos mais emblemáticos da nossa imprensa juvenil — teve publicação ininterrupta durante cerca de 38 anos, até 15/1/1987. Um autêntico recorde de longevidade que nenhuma outra revista periódica de banda desenhada logrou sequer almejar, pois todas ficaram a grande distância dessa meta, mesmo as que no seu tempo foram tão populares como o Mundo de Aventuras.

Essa longa carreira, abruptamente interrompida pela crise da APR, que acabou também pouco tempo depois, foi assinalada, como é óbvio, por várias fases de maior e menor êxito, em que o MA mudou não só de periodicidade, de formato e de aspecto gráfico, como de sede, de oficinas, de director e de colaboradores.

Transcrevemos, a propósito, um pará- grafo da bela dedicatória “Em cada quinta-feira um novo mundo”, que o nosso amigo Professor António Martinó colocou, há três anos, no seu blogue Largo dos Correios, onde reluz o dom da palavra e da escrita de um mestre conceituado:

(…) Confrontando-se durante uma parte da sua longa vida com uma concorrência de peso, a revista conseguiu subsistir e atravessar diversas fases editoriais e modelos/formatos distintos. Mudando mesmo a sua filosofia, das histórias de continuação para as histórias completas, prenunciou o fim irreversível dessa saudosa fase onde aguardávamos com impaciência cada 5ª feira que nos fornecia o episódio seguinte de aventuras movimentadas, aptas a preencher um pouco da nossa própria vida.

Sobrevivemos sem “play-stations” e sem telemóveis, sem brinquedos sofisticados, até mesmo, imagine-se, sem televisão e, obviamente, desprovidos de acesso à internet… Sobrevivemos, sem traumas nem stresses, e isso deve-se em boa parte aos diabretes, aos mosquitos, aos mundos de aventuras e quejandos…”

A última série, iniciada em 4/10/1973, sob a direcção de Vitoriano Rosa, que sucedeu a José de Oliveira Cosme, falecido pouco tempo antes, teve também vários formatos e periodicidades, além de uma controversa interrupção cronológica, como se de uma nova revista se tratasse, com a numeração a voltar ao ponto de partida, após 1252 semanas de presença contínua nas bancas. O segundo director dessa série foi António Verde, que se manteve no cargo até ao último número (589), sempre coadjuvado pelo chefe de redacção (coordenador) Jorge Magalhães.

Mas o nascimento do Mundo de Aventuras está ligado a um facto pitoresco que poucos bedéfilos conhecem… a história de dois “mundos”, como a baptizou Orlando Marques (consagrado novelista e colaborador de longa data do MA), que foi um dos seus protagonistas.

Reproduzimos seguidamente um artigo publicado no nº 559 (15/9/1985), em que, pelo punho de Orlando Marques, se relata esse pitoresco episódio, cujo desfecho quase ia arruinando a sua carreira literária.

O regresso de Valérian – Vol. 4

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Novela Gráfica III – Vol. 7

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Nos 120 anos de Enid Blyton

Enid Blyton faria hoje [11-8-2017] 120 anos. Não disse nada aos do meu tempo, que preferimos Jules Verne e Emílio Salgari. Porém, a partir da geração dos nossos filhos, tudo mudou quanto ao universo das leituras in- fanto-juvenis, onde ela dominou. A partir das adaptações para séries de TV das suas obras de refe- rência, sobretudo Os Cinco, Os Sete e Nody, Enid Blyton tornou-se a rainha da literatura para os mais jovens.

Entre tudo o que se escreveu sobre a inspi- rada autora, foi na pági- na Mistério Juvenil que encontrei um trabalho biográfico mais interessante. Com a justa e devida vénia aqui o transcrevo, juntando mais algumas gravuras alusivas às ilustrações originais. Anexo um videograma, dedicado à Herança da escritora.

Enid Blyton, pela sua inspirada dedicação aos mais novos, merece amplamente que a lembremos.

(Nota: este texto e o artigo seguinte foram reproduzidos, com a devida vénia, do blogue “Largo dos Correios”).

Enid Mary Blyton nasceu a 11 de Agosto de 1897, num pequeno andar sobre uma loja em Lordship Lane, zona Este de Dulwich, em Londres. Com alguns meses de idade, a sua família mudou-se para Beckenham, em Kent, local onde Enid e os seus irmãos, Hanly e Carcey, passaram a sua infância. Hoje Beckenham é uma cidade activa, mas no século passado foi uma localidade calma e rural.

Enid foi uma apreciadora da história natural e sempre recordava os passeios que fazia com o seu pai, Thomas Blyton. Ele ensinou-lhe tudo sobre a natureza, animais, insectos, aves e plantas, que viviam nos campos em volta da sua casa. O seu entusiasmo pelo estudo da natureza foi muito importante para o resto da sua vida, aplicando esses conhecimentos em muitos livros, poemas e artigos.

Também gostava muito de ler. Lia tudo o que lhe caía nas mãos, até mesmo enciclopédias, por mais difíceis que fossem. Com o incentivo do pai, começou a inventar as suas próprias histórias e poemas.

Tal como gostava de escrever, também detestava ajudar em casa e cuidar dos seus irmãos mais pequenos. A sua mãe Theresa não compartilhava nenhum interesse de Enid ou do seu pai. Com o tempo, Thomas e Theresa concluíram que já não tinham nada em comum e separaram-se quando Enid tinha 13 ou 14 anos, tendo ela ficado com a mãe. Enid sofreu muito com a partida do pai.

Thomas foi um bom pianista e tinha planeado uma carreira musical para a sua filha, mas em 1916 Enid decidiu  que a única coisa que queria era estudar para professora. Telefonou ao pai e convenceu-o a assinar os papéis necessários e um ano depois começou a estudar para professora primária na Ipswich High Scholl.

Tempos depois, nas suas horas vagas, começou a escrever seriamente.

No início, Enid Blyton teve dificuldade em encontrar um editor para publicar as suas histórias e durante alguns anos o seu trabalho foi recusado constantemente.

Como uma pessoa determinada, Enid não desistiu e continuou a escrever em cada minuto que tinha livre. Finalmente publicou um pequeno poema numa revista editada por Arthur Mee e um outro no “Nash’s Magazine”. Até hoje nenhum deles é conhecido, pois na altura foram publicados sem o nome do autor. O primeiro poema assinado, com o titulo “Have You…!” (”Tu tens…”), apareceu em Março de 1917 no “Nash’s Magazine”. Alguns meses depois, a mesma revista publicou outro, chamado “My Summer Prayer” (“O Meu Desejo de Verão”).

Quando terminou os seus estudos e começou a trabalhar como professora, Enid não parou de escrever. Em Fevereiro de 1922 começou a escrever artigos para a revista “Teacher’s World”. No início os seus trabalhos eram publicados com pouca regularidade, mas a partir de 1929 teve uma página semanal com o título “Enid Blyton’s Children Page”, que normalmente continha uma carta, um poema e uma história. Escreveu regularmente para a “Teacher’s World” até 1945.

No Verão de 1922, Enid publicou o seu primeiro livro, intitulado “Child Whispers”, com uma colectânea dos seus poemas. A capa foi ilustrada com pouca qualidade por um amigo da escola, Phyllis Chase. Mas dado o êxito obtido, o editor publicou outra colectânea no ano seguinte, chamada “Real Fairies”.

E assim Enid Blyton começou a sua carreira como autora.

Em 1924, casou com Hugh Pollock, um editor do departamento de livros da George Newnes. Por esta altura, o seu nome começou a ser conhecido e alguns editores consagrados mostra- vam interesse pelos seus livros.

Em 1926, Enid e Hugh mudaram-se para Elfin Cottage, em Beckenham. Passado algum tempo Blyton com- prou o seu primeiro animal do- méstico, um cão chamado Bobs. “Um fox-terrier de pelo macio”, como descreveu na sua autobiografia. Bobs aprendeu muitos truques: como sentar-se, balancear um biscoito no nariz e deitar-se de costas quando Enid lhe dizia: “Morre pelo Rei”. Estava treinado para fechar portas e esperar pelo “clic” da fechadura para se certificar de que realmente a porta ficara fechada.

Quando Enid começou a escrever a sua página semanal no “Teacher’s World”, incluiu nela uma carta de Bobs, “Letter from Bobs”, onde descrevia, sob o ponto de vista do Bobs, tudo o que se passara na família durante essa semana. Estas cartas eram muito divertidas e Bobs foi quase tão popular entre os leitores como a sua dona! Bobs foi o primeiro animal que Blyton apresentou aos seus milhares de jovens, nas suas histórias e nas cartas da revista.

No mesmo ano, Enid começou a escrever na gazeta “Sunny Stories for Little Folks”, que era publicada quinzenalmente para crianças mais pequenas. Muitos dos seus leitores escreviam-lhe e Blyton começou a ter uma ideia do tipo de histórias que eles mais gostavam de ler.

Pouco depois de ter começado a escrever para a “Sunny Stories”, Enid editou um livro intitulado “The Wonderful Adventure”, que relatava a busca de um tesouro perdido por um grupo de jovens. Este livro foi a primeira novela de aventuras que Enid publicou, mas como a editora era muito pequena foram feitas poucas cópias. Tristemente esta história foi esquecida em pouco tempo, mas Blyton continuou a escrever contos que foram muito populares entre os leitores da “Sunny Stories”. Alguns deles foram compilados e editados em livro.

Em 1929, Enid e Hugh voltaram a mudar-se para uma moradia típica do século XVI, em Burn End, Buckingshire, chamada Old Tatch. Esta tinha um jardim maior que Elfin Cottage e dava mais espaço para Enid ter as suas flores e os seus animais. Foi nesta moradia que nasceram as suas duas filhas, Gillian, em 1931, e Imogen, em 1935.

Durante muitos anos, Enid continuou a escrever pequenas histórias para a revista “Sunny Stories”, mas quando o seu titulo mudou para “Enid Blyton’s Sunny Stories”, em 1937, resolveu escrever uma história em série. Chamava-se “Adventurer of the Wishing Chair” e foi tão popular que continuaram a publicar-se outras histórias. Enid decidiu, então, escrever uma novela de aventuras para a edição 37 com o episódio inicial de “The Secret Island” (“A Ilha Secreta”). Esta teve tal sucesso, que foi a primeira a ser editada integralmente em livro.

Logo os leitores reclamaram mais aventuras com o João, o Miguel, a Margarida e a Nora. “A Ilha Secreta” foi publicada em 1938 e em Portugal teve a primeira edição em finais dos anos 1960 pela Livraria Clássica Editora. Em 1939, Enid Blyton escreveu na “Sunny Stories” outra história desta série, “The Secret of Spiggy Holes” (“O Segredo das Grutas de Spiggy”).

Enid sabia que as crianças gostavam de ler as suas histórias curtas, mas constatou que escrever livros de grande enredo também teria bastante aceitação e assim continuou. Em 1938, mudou de casa com toda a família. As suas filhas tinham crescido. Enid e Hugh decidiram que precisavam de mais espaço e escolheram uma casa grande, em Beaconsfield.

Nas suas cartas em “Teacher’s World”, Enid descreveu a vivenda e os seus jardins, perguntando aos seus leitores qual o nome mais apropriado para a nova casa. Anos depois, contou na sua autobiografia como centenas de crianças lhe enviaram sugestões e muitas delas escolheram o mesmo nome: “Green Hedges”. Enid viveu em Green Hedges o resto da sua vida, e durante esses anos a sua direcção foi tão popular como o palácio de Buckingham ou o número 10 de Downing Street. Ao mudar-se para Green Hedges, viu o início da sua época mais positiva.

Além das suas histórias semanais no “Sunny Stories” e na página do “Teacher’s World”, Enid concentrou-se nos seus romances. Escreveu histórias sobre a escola e o circo. Mas o seu êxito mais popular foram as suas séries de aventura e mistério. Paralelamente a este sucesso, Enid separou-se de Hugh Pollock em 1942, meses depois do seu primeiro livro da série “Os Cinco”, intitulado “Os Cinco na Ilha do Tesouro”.

Em 1943, desposou em segundas núpcias Kenneth Waters, e continuou a escrever, produzindo ainda mais. Os livros “Segredo” e “Os Cinco” tornaram-se tão populares que Enid criou outras séries. Uma delas intitulava-se “Aventura” e o seu primeiro episódio, “Uma Aventura na Ilha”, foi publicado em 1944. Outros sete livros completaram esta série. Também obteve grande sucesso a colecção “Mistério”, que contava com a interpretação dos “Cinco Descobridores e o seu Cão”, aparecendo na sua primeira aventura em “O Mistério da Casa Queimada”, em 1943. Os “Cinco Descobridores” resolviam mistérios na sua vila de “Peterswood”, um lugar parecido com Bourne End, uma localidade perto de Old Tatch.

Em 1949, Enid escreveu o seu primeiro livro para jovens mais crescidos, intitulado “The Rockingdown Mystery” (“O Mistério de Rockingdown”). Um ano depois, escreveu o primeiro livro do “Clube dos Sete”. Os Sete apareceram inicialmente no livro “The Secret of the Old Mill”, em 1948, mas “O Clube dos Sete” foi a primeira aventura oficial. Em pouco tempo, grupos de crianças, em toda a Inglaterra, imitavam Os Sete, organizando reuniões, criando símbolos dos seus grupos e utilizando linguagens secretas.

Mas o momento mais decisivo foi em 1949, quando Blyton publicou “Noddy Goes to Toyland” (”Nodi no País dos Brinquedos”). Nodi foi a personagem de maior êxito para crianças mais pequenas e ainda hoje é tão popular como no início. As suas aventuras apareceram em livros, álbuns de banda desenhada, televisão e num filme de longa metragem. Muitos jogos foram editados também com Nodi, muito mais do que com qualquer outra personagem inglesa.

Enid Blyton nunca foi tão feliz como quando escrevia as suas histórias. Era uma autora inata e daí lhe ter sido fácil a criação de novas personagens e aventuras. Na sua autobiografia confi- denciou como criava uma história. Nunca a planeava antes de a escrever à máquina. Apenas se limitava a fechar os olhos e a imaginar o enredo: “É como espreitar por uma janela ou como um filme na minha cabeça, ver os meus personagens e escrever tudo no papel”.

Foi uma graça divina que lhe deu forças para escrever muitos livros e histórias. Entre Janeiro de 1940 e Dezembro de 1949, Enid Blyton tinha publicado mais de 200 livros, e nos anos 50 foram mais de 300! E não foi tudo, pois também respondia a centenas de cartas dos seus pequenos leitores, autografava livros, lia em público e sobretudo ajudava a angariar fundos para fins de caridade. Também tinha alguns passatempos, como jogar golfe e bridge.

No início de 1950, Blyton deixou de escrever no “Sunny Stories”, para poder empenhar-se na sua nova revista “Enid Blyton’s Magazine”. Esta revista – como os livros e histórias que criou com Mr. Pink-Whistle e Nodi – deu origem à criação de vários clubes que ajudavam a recolher fundos para organizações sem fins lucrativos.

Por exemplo, o “Busy Bee Club” angariou dinheiro para a “People’s Dispensary for Sick Animals” (P.D.S.A.), uma organização para animais doentes. O “Sunbeam’s Club” ajudou uma fundação para bebés cegos. Também o “Magazine Club” apoiou uma instituição de beneficência, antes de acabar nos finais de 1959. Este clube chegou a ter mais de 129 mil associados.

No último período da sua vida, Enid Blyton ficou gravemente doente. A morte de Kenneth, o seu segundo marido, em 1967, foi um rude golpe e um ano depois faleceu, em 28 de Novembro de 1968, vitima da que é hoje conhecida por doença de Alzheimer, deixando mais de 700 livros escritos e perto de 5000 contos.

Durante toda a sua existência, Blyton foi uma pessoa muito reservada. A sua autobiografia “The Story of My Life”, escrita em 1952, tem muitas fotografias suas, da casa e da família, mas é escassa sobre pormenores da sua vida, excepto os que se referem à sua carreira literária. Em 1974, Barbara Stoney escreveu “Enid Blyton the Biography”, que revela a verdadeira história da sua vida.

Passados quase 49 anos desde a sua morte, os livros de Enid Blyton continuam tão populares e a serem tão vendidos como as edições anteriores, quer em Inglaterra como em todo o Mundo, incluindo Portugal. Quantos de vocês não conhecem ou não têm em casa um livro dela? Como “Os Cinco”, “Aventura”, “Clube dos Sete”, “Colecção Mistério”, “As Gémeas”, “4 Torres”, etc.

As suas histórias e personagens foram reproduzidas em jogos, séries de televisão, revistas, banda desenhada, filmes e teatro. Mas onde está o segredo de todo este êxito? Qual a razão das suas histórias serem tão famosas? Antes de mais, foi uma escritora inata, que sabia exactamente o que as crianças e jovens gostariam de ler. Nas suas histórias o mundo é novo e verde, os dias são grandes e ensolarados, os adultos não aborrecem muito e as crianças podem fazer tudo o que desejam: explorar túneis secretos, acampar em ilhas com árvores, rodeadas pela natureza, descobrir mistérios, procurar tesouros e até “vagabundear” no meio ambiente, com carroças puxadas a cavalos. É um mundo mágico onde triunfam os bons, as iguarias abundam e há sempre um final feliz. Pode desejar-se algo melhor?

Todos os anos é prestado um tributo a esta autora, o chamado “Enid Blyton Day”, organizado pela Enid Blyton Society. As últimas edições tiveram lugar em Twyford, a 30 km de Londres. Neste dia, reúnem-se entusiastas que compram, trocam e vendem livros e outros artigos. Realizam-se palestras e convidados falam de variados assuntos.


O regresso de Valérian – Vol. 3

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Relendo “A Balada do Mar Salgado” como intróito às novas aventuras de Corto Maltese

Texto de Jorge Magalhães, publicado em Selecções BD (2ª série) nº 6, Abril 1999. Refira-se a este propósito a excelente reedição de “A Balada do Mar Salgado”, com o selo da Arte de Autor, que surgiu nos escaparates em Junho deste ano, recuperando o prefácio da edição de 1991, assinado por Umberto Eco. Uma boa leitura de férias!  

 

“Sou o Oceano Pacífico e sou o Maior. É assim que me chamam há já muito tempo, embora não seja verdade que eu seja sempre pacífico”. É com esta frase que começa “A Balada do Mar Salgado”, a história em que surge pela primeira vez Corto Maltese, personagem considerada por muitos a maior criação de Hugo Pratt e que nasceu na revista italiana Sgt. Kirk, a 10 de Julho de 1967, comemorando, portanto, 50 anos em 2017.

Para os nostálgicos de Corto Maltese e para os (raros) leitores que ainda não se aventuraram no seu fascinante universo, recomendamos também outro álbum da Arte de Autor com as novas aventuras do “marinheiro das sete partidas”, recriadas magistralmente por dois autores espanhóis: Rubén Pellejero e Juan Díaz Canales.

Acabado de chegar ao Panamá, acompanhado por Rasputine, Corto Maltese está novamente de partida! O destino é São Francisco e a sua Exposição Internacional, onde espera encontrar um amigo de longa data, o escritor Jack London. Em troca de um pequeno favor, London promete a Corto uma nova aventura… e um misterioso tesouro! Corto Maltese inicia assim um longo périplo pelas vastas extensões geladas do Grande Norte, numa viagem pautada por inúmeros perigos e ameaças. Porque, sob o sol da meia-noite, há outros predadores que rondam para além dos lobos e dos ursos…

Criada graficamente por Rubén Pellejero, com um traço muito semelhante ao de Hugo Pratt, e com argumento de Juan Díaz Canales, esta obra, cuja acção decorre no Alaska em 1915, é a primeira história de Corto Maltese escrita sem a participação do mestre veneziano e foi inicialmente publicada em França, em Setembro de 2015.

Ler Faz Bem: “O Coração das Trevas” (um livro de Joseph Conrad, oferecido pela “Visão”)

Novela Gráfica III – Vol. 6

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Polina: a dança e a vida de uma bailarina em versões diferentes

Nota: o texto que se segue, da autoria de António Martinó de Azevedo Coutinho, e as respectivas imagens, foram reproduzidos, com a devida vénia, do seu magnífico blogue “Largo dos Correios”, onde a banda desenhada também ocupa um lugar privilegiado, entre outros assuntos cuja abordagem nos desperta sempre interesse. Por isso, a consulta assídua do “Largo dos Correios” é um óbvio prazer que de vez em quando, como neste caso — a propósito de uma obra singular, em que o cinema prolonga a BD —, nos apetece partilhar também com os nossos leitores, convidando-os a desfrutar o filme com Juliette Binoche e a novela gráfica de Bastien Vivès.

Um filme colorido procura interpretar a história contada numa banda desenhada a preto e branco. Poderia sintetizar assim o que se passa neste momento com Polina, que acaba de chegar a Portugal tanto no cinema como na edição em papel. Mas esta síntese seria pobre e injusta.

As relações entre o cinema e os quadradinhos nasceram há muito. Se recorrermos a Luís Gasca, um reputado estudioso espanhol do tema, ele diz-nos em Tebeo y Cultura de Masas, Editorial Prensa Española, Madrid, 1996, que talvez tenham começado com uma versão da histo- rieta L’Arroseur arrosé (1887), de Hermann Vogel, a ser transposta para a tela por Louis Lumiére, em 1895.

Desde então são milhares, largos milhares, os títulos de filmes que se confundem com os da banda desenhada, sobretudo aproveitando personagens, alguns nascidos na literatura ou na mitologia. As sagas de Batman, Capitão América, Capitão Marvel, Flash Gordon, Jungle Jim, Superman, Tarzan, Tintin ou Zorro são suficientes para confirmar o fenómeno, numa lista organizada de memória, de onde excluiu — por simples exemplo – toda uma multidão de cowboys célebres.

Polina pertence a um grupo diferente, porque é uma peça única, não explora o mito de uma personagem, não promete uma série e assenta rigorosamente num argumento original da banda desenhada.

Baseado na novela gráfica homónima de Bastien Vivès lançada em 2011, Polina centra-se numa jovem dançarina russa. Desde pequena que o objectivo de Polina é tornar-se primeira-bailarina no reputado Teatro Bolshoi, em Moscovo. Mas ao crescer afasta-se desse caminho por causa da pressão que os pais depositam nela e por descobrir a dança contemporânea, acabando por se mudar para França onde vai seguir um rumo diferente.

Esta adaptação cinematográfica não é, logo à partida, uma tarefa fácil, pretendendo contar na tela um argumento complexo e acidentado, a história de uma personagem enigmática animada por um sopro de liberdade. O argumento, fundamental, terá germinado depois de Bastien Vivès visionar um vídeo da bailarina Polina Semionova.

Quando o álbum original surgiu nos inícios de 2011, muito rapidamente foi descoberto pelos leitores e logo a seguir aclamado pela crítica. Depois vieram sucessivos prémios.

Polina, como banda desenhada, pode não agradar a todos os leitores.

O traço de caneta do autor é grosso, deliberadamente quase esquecendo os detalhes de rostos, as dobras dos vestidos e até os vários acessórios, concentrando-se totalmente na pura emoção e sobretudo na linguagem corporal.

Desprovido de cor, o preto-branco-cinza cria uma atmosfera despojada e um cenário minimalista, o que  força o leitor a aplicar as suas próprias cores neste universo, um contraste permanente de luz e sombra.

Ora a presente transposição, ainda que adaptada a outra linguagem, onde sobretudo o movimento é decisivo, não pode contemplar a exemplar subjectividade da obra original.

Não se prognostica, por tudo isto, um futuro de grandes êxitos para o filme Polina, apesar das óbvias e honestas intenções colocadas na sua competente realização de Valère Müller e Angelin Preljocaj.

Conversa(s) sobre Banda Desenhada (com Jorge Magalhães e Catherine Labey) – 3

JORGE MAGALHÃES

Jorge Magalhães nasceu no Porto em 22 de Março de 1938. Entre 1959 e 1961, iniciou transitoriamente a sua carreira na Banda Desenhada, escrevendo contos para o Mundo de Aventuras e para O Mosquito (2ª série), editado por José Ruy e Ezequiel Carradinha. Anos depois (1970), publicou também um conto no último número de Pisca-Pisca, revista da MP dirigida por Álvaro Parreira.

Em Maio de 1974, dez meses após regressar de Angola, onde era funcionário público (tendo colaborado também, entre 1967 e 1972, em vários jornais e revistas, como A Província de Angola, TrópicoABC e O Comércio), concretizou um sonho de juventude ao ingressar na Agência Portuguesa de Revistas, onde assumiu a coordenação do Mundo de Aventuras (2ª série), MA Especial e Selecções do MA, entre outros títulos de menor importância, permanecendo naquela empresa durante 13 anos, até ao seu encerramento.

Em 1976, estreou-se como argumentista no Mundo de Aventuras com uma história desenhada por Baptista Mendes, “A Lenda de Gaia”, tendo depois assinado numerosos argumentos para revistas e álbuns (individuais e colectivos), ilustrados por alguns dos principais desenhadores portugueses, como Augusto Trigo, Carlos Alberto, Carlos Roque, Catherine Labey, Eugénio Silva, Fernando Bento, João Amaral, José Abrantes, José Carlos Fernandes, José Garcês, José Pires, José Ruy, Pedro Massano, Rui Lacas, Vítor Péon e outros. Também colaborou com jovens desenhadores que trocaram a BD por outras carreiras, como Irene Trigo, João Mendonça, José Projecto, Ricardo Cabrita e Zenetto. 

Foi fundador e membro directivo do Clube Português de Banda Desenhada, criado em 1976, e coordenou outras revistas de BD como TV Júnior, Intrépido, AventureiroHeróis da Marvel, O Mosquito (5ª série), Almanaque O Mosquito, Heróis Inesquecíveis, etc. Também editou e dirigiu fanzines como os Cadernos de Banda Desenhada (com três séries) e a Colecção Audácia. Traduziu muitas histórias de BD, escreveu artigos de investigação e análise crítica para vários livros, revistas, catálogos, fanzines e suplementos de jornais, e dirigiu colecções da Editorial Futura como Antologia da BD Portuguesa, Antologia da BD Clássica, Colecção Aventura, Tarzan, Torpedo, etc.

(continua)

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