Recordando o “ABC-zinho” (1921-1932)

“ABC-ZINHO” – A PRIMEIRA REVISTA DE BANDA DESENHADA PORTUGUESA

Artigo de Carlos Gonçalves

Esta afirmação talvez seja pouco credível para quem não se tenha apercebido da evolução das revistas de histórias aos quadradinhos em Portugal. Senão vejamos: se analisarmos as revistas que até então tinham aparecido no nosso país sobre o tema, vemos que quase todas elas publicavam caricaturas ou anedotas. Muito esporadicamente incluíam nas suas páginas banda desenhada.

Só depois de 1872 (ano em que Rafael Bordalo Pinheiro cria a primeira história aos quadradinhos, que intitulou “Apontamentos da Picaresca Viagem do Imperador do Rasilb pela Europa” e que seria publicada num pequeno álbum naquela altura), surge uma ou outra história apresentada na linguagem figurativa. As revistas “O Amigo da Infância”, “As Creanças” e “O Jornal da Infância” publicavam textos infantis e ilustrações. No caso de “A Corja”, “A Caratonha”, “A Marselheza” e “A Paródia”, estas eram revistas satíricas, bem como muitas outras que surgiram na época. A que se aproximou mais de uma revista infantil sobre este tema foi “O Gafanhoto” (1ª e 2ª séries).

Quanto a nós, seria o “ABC-zinho” a verdadeira revista infantil, com histórias aos quadradinhos desde o primeiro dia da sua publicação. Um dos principais desenhadores desta revista foi o próprio director da revista, José Ângelo Cottinelli Telmo, arquitecto oficial do Governo de Salazar e que colaborou intensamente na vida nacional da altura. Urbanizou a Praça do Império, criou o Liceu D. João de Castro, o Monumento das Descobertas e a tão falada prisão de Caxias, além de ter planificado a Exposição do Mundo Português. Também foi realizador de Cinema e dos bons, cabendo-lhe o primeiro filme sonoro português, tão do agrado de todo o público: “A Canção de Lisboa”.

Outros desenhadores desta revista foram o Albino (Stuart Carvalhais, com pseudónimo) e Rocha Vieira, um dos grandes desenhadores portugueses, cujo estilo se assemelhava bastante aos traços das histórias produzidas em Inglaterra e que seriam posteriormente importadas pelo “Tic-Tac”, “O Senhor Doutor” e “O Mosquito”, mais de uma dezena de anos depois. Os trabalhos de Rocha Vieira são já o resultado de um desenhador experiente e de grande maturidade. Os de Stuart mantêm-se na sua vertente, como nos habitou, não defraudando ninguém nos resultados alcançados.

As histórias são pejadas de aventuras, tão em voga nesse tempo, em que os leitores davam azo à sua imaginação e eram transportados nas asas do sonho, vivendo do mesmo modo que as personagens as peripécias narradas de vinheta para vinheta. Foi talvez por isso que esta revista se tornaria num dos maiores êxitos como publicação infantil, pois foi absolutamente completa e no campo didáctico pouco ou nada poderemos acrescentar quanto aos objetivos alcançados, que seria educar e distrair, ao mesmo tempo, a juventude dos anos 20.

Além da panóplia de desenhadores de grande qualidade que apresentou, alguns dando os seus primeiros passos na arte de desenhar histórias aos quadradinhos, como Cottinelli Telmo, Tiotónio, o próprio Suart, agora mais solto, António Cristino (uma esperança ainda, pois era muito jovem), Carlos Botelho e outros de que falaremos a seguir.

AS CONSTRUÇÕES DE ARMAR

Mas acima de tudo, um dos seus maiores pontos de interesse e de sucesso seria o de incluir, desde o seu primeiro número, construções de armar. Inicialmente eram simples, mas pouco a pouco e com o passar dos meses passariam a ser já de uma qualidade indiscutível. O seu número 14 incluiu uma folha A3 dupla com o Hidroavião Lusitânia, uma autêntica obra-prima nos seus detalhes, sendo também, por isso, difícil de montar.

Depois, incluirá como suplemento da revista mais uma série de construções: “Mimi e os seus fatinhos”, mobílias de bonecas, personagens de circo, animais, jogos, e a partir do seu número 45 uma das melhores construções até hoje criadas, “O Teatrinho do ABC-zinho”, composto por mais de duas dezenas de folhas, com a montagem de um teatro (uma construção que obrigaria os leitores a uma certa habilidade para a realizar), com personagens e cenários… e de tal modo era a imaginação, que até é possível iluminar os cenários. Seguiram-se uma aldeia do Zinho, com casinhas e tudo o que faz parte de uma aldeia (inclusive um facto inédito neste género de construções, um cemitério da aldeia com jazigos e campas), uma tourada, um castelo, automóveis, etc.

Como ponto alto e inédito também, anote-se a publicação de 12 pequenos livros com contos e ilustrações, não só de Cottinelli Telmo como de Else Althausse. Finalmente e também como um novo facto inédito desta publicação, teremos que destacar um presépio único, da autoria do arquitecto, em que as figuras se apresentam em três dimensões.

OUTRAS COLABORAÇÕES DA PRIMEIRA SÉRIE DO “ABC-ZINHO”

Depois dos artistas que já salientámos aqui e que colaboraram na revista, destacam-se ainda os nomes de Alfredo Morais (um dos maiores capistas, autor de centenas de capas e ilustrações no princípio do século XX), Emmérico Nunes, que era outro consagrado autor com ilustrações e banda desenhada, seguido de Carlos Botelho, de quem já falámos, também conhecido como o pintor de Lisboa. A maior produção portuguesa pertence a Rocha Vieira e a António Cardoso Lopes (o Tiotónio), durante a primeira série desta revista. No entanto, também irá incluir trabalhos estrangeiros: ingleses (retirados da revista “Puck”), espanhóis e franceses. “Os Sobrinhos do Capitão” serão nas suas páginas apresentados pela primeira vez em Portugal.

A primeira série da revista “ABC-zinho” surge em 15 de Outubro de 1921 e termina no número 171, em 28 de Dezembro de 1925. Era uma publicação bimensal e tinha 24 páginas impressas a preto e branco, alternando com outras a uma cor. Os seus diretores foram Cottinelli Telmo e Manuel de Oliveira Ramos. Comemoram-se, pois, os 96 anos do seu aparecimento.

A SEGUNDA SÉRIE DO “ABC-ZINHO”

A segunda série desta revista teria o mesmo impacto junto dos leitores como a primeira, não só pelo seu formato, no dobro da outra e já com algumas páginas a cores. Os artistas pouco aumentaram no seu total, mas surgiram novos estilos e novos métodos de contar uma história aos quadradinhos, já que os colaboradores anteriores tinham naturalmente evoluído.

António Cristino é um deles, mais maduro e perfeito, o Tiotónio demonstra a sua criatividade, Carlos Botelho está mais à vontade e surgem dois novos artistas nos finais da publicação: Carlos Ribeiro, outro desenhador já com provas dadas, como director da revista “O Senhor Doutor”, e Ilberino dos Santos, que mais tarde criará algumas pranchas de humor para “O Mosquito”. O seu formato salienta melhor a arte gráfica, além de que oferece maior impacto visual aos olhos dos seus leitores, com os trabalhos que são publicados. Dedica também algumas das suas páginas aos contos, quer históricos quer de aventuras. Não há dúvidas que esta revista teve um papel importante na sua divulgação. 

Até aqui pouco mudaram as revistas do género, como o  “Carlitos” e o “Cócórócó”… De qualquer dos modos, com a passagem dos anos as histórias aos quadradinhos viriam a afirmar-se no nosso país. Com as várias experiências conseguiu-se encontrar a fórmula ideal para satisfação dos leitores. No entanto, muitos educadores e professores acusavam estas publicações de criar um desinteresse pelos livros. Não é verdade, hoje sim, os meios audiovisuais é que têm sido um dos maiores factores para o afastamento da leitura. E até da própria banda desenhada. Para colmatar tal situação criaram-se as novelas gráficas (algumas vezes republicando histórias já impressas em álbuns ou revistas).

O “ABC-zinho” (2ª série) apareceu a 4 de Janeiro de 1926, vindo a terminar no seu nº 350, a 26 de Setembro de 1932.

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