O regresso de Valérian – Vol. 6

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Fanzines de José Pires (Agosto 2017)

Com exemplar pontualidade, José Pires continua a editar no seu fanzine FandClassics a famosa série Terry e os Piratas, que já vai no 8º volume, cada um deles com cerca de 70 páginas em formato à “italiana”, reproduzindo integralmente os episódios criados desde 22/10/1934 pelo génio ficcional e artístico do mestre Milton Caniff.

Trata-se, aliás, na sua grande maioria, de material ainda inédito no nosso país, apesar desta série ter sido divulgada em revistas juvenis muito populares na sua época como O Mosquito, o Titã e o Mundo de Aventuras, mas com episódios de uma fase bastante posterior, a cargo de George Wunder, que já pouco tem a ver (tematicamente até) com a de Caniff. 

Por esse motivo, tem sido cada vez maior o acolhimento dispensado a esta edição de José Pires, cujo trabalho não se cinge apenas à tradução e legendação das tiras e páginas dominicais, visando também, com especial cuidado, o aspecto gráfico destas últimas, para evitar a sistemática repetição de logótipos, “substituídos por imagens do próprio Caniff, resgatadas, combinadas e arranjadas para preencher o espaço”.

“Além disso”, acrescenta José Pires, “há as mais de 4.380 pequenas tarjas com as legendas dos direitos de publicação, que, embora diminutas e colocadas em sítios estratégicos, acabavam prejudicando o aspecto geral e que foram  também removidas, para já não falar de alguns milhares de redes ratadas ou entupidas que também foram melhoradas”.

Outra série clássica a que José Pires tem dedicado especial atenção é o western inglês Matt Marriott (também conhecido em Portugal, quando se estreou no Mundo de Aventuras, pelo bizarro nome de Calidano), que alia à extraordinária realização gráfica de Tony Weare, um virtuoso do traço realista, a originalidade e o dramatismo dos argumentos, na sua maioria escritos pelo prolífico James Edgar, grande especialista de temas do Oeste, como provam também as séries Matt Dillon (Gunsmoke) e Wes Slade.

No corrente mês de Agosto saiu outro número deste fanzine, com a trepidante aventura “Sargento Dulanty” — publicada anteriormente, pela primeira vez, no Mundo de Aventuras nº 1020 (1969), com o título “O Sargento Proscrito”.

Constituída por 70 episódios, publicados entre 1955 e 1977, a série Matt Marriott foi bastante divulgada nalgumas revistas portuguesas, mas por vezes em condições deploráveis, devido às más práticas de editores, tradutores, legendadores e paginadores. Numa tarefa quase homérica, mantendo incansavelmente um ritmo de publicação regular, José Pires já recuperou mais de cinco dezenas de episódios, em formato big size e com as tiras integrais, restauradas a partir de publicações inglesas, propondo-se reeditar toda a série, embora seja difícil encontrar os dois últimos episódios.

Um trabalho ambicioso, digno de aplausos, que faz também desta colecção uma das melhores e mais completas realizadas até hoje, embora sem o carácter comercial de outras edições, pois se destina a um pequeno círculo de assinantes, não ultrapassando os respectivos pedidos de reserva. Estes fanzines podem ser encomendados directamente a José Pires, bastando contactá-lo pelo e-mail gussy.pires@sapo.pt

Corto Maltese: uma viagem com 50 anos

ESTANTE – Revista FNAC (Verão 2017)

Foi em Julho de 1967 que Hugo Pratt nos apresentou Corto Maltese, o lacónico, rapidamente icónico, capitão da Marinha Mercante Britânica, protagonista de uma das séries gráficas mais veneradas do século XX. Meio século depois do embarque na «Balada do Mar Salgado», os ventos da realidade voltam a empurrar-nos para ele(s).

Em «Corto Maltese na Sibéria», há um momento em que o famoso marinheiro, prestes a ser capturado pela divisão de cavalaria asiática do barão Von Ungern-Sternberg, se refugia num poema de Rimbaud. “Pelas tardes azuis do verão, irei pelas sendas, guarnecidas pelo trigal, pisando a erva miúda”, declama para dentro, rodeado de neve e a tremer de frio, a fitar uma espingarda a aproximar-se. “Sonhador, sentirei a frescura em meus pés. Deixarei o vento banhar a minha cabeça nua. Não falarei mais, não pensarei mais; mas um amor infinito invadir-me-á a alma. E irei longe, bem longe, como um boémio, pela natureza — feliz como com uma mulher.”

Corto não segue sozinho a caminho da provável morte. A seu lado vai Changai Li, a jovem chinesa que quer capturar antes dele o ouro do almirante Kolchark, e Rasputin. Quem nunca leu a famosa BD de Hugo Pratt estará a questionar-se se esse Rasputin é “aquele”, o real, o místico louco que soprava conspirações ao ouvido de Nicolau II e que contribuiu para a queda do último czar da Rússia, faz agora um século.

A versão ficcionada do Barão Sanguinário (como o verdadeiro Von Ungern-Sternberg ficou conhecido no pós-revolução russa) tem a mesma dúvida quando é apresentado aos três reféns. Você que se parece com o infame Rasputin, como se chama?” — “Rasputin, excelência!

Utopia e pragmatismo

Hugo Pratt, que há cinquenta anos nos convidou a embarcar na «Balada do Mar Salgado», nunca fez segredo das suas inspirações — de todas as personagens reais com quem Corto se cruza a partir dali, só Rasputin não é suposto ser o verdadeiro.

Na aventura de estreia de Corto Maltese, que o ilustrador italiano lançou em Julho de 1967, o oficial da Marinha Mercante britânica, nascido em Malta e com residência em Hong Kong, que se recusa a criar raízes em lugares ou em ideologias, já conhecia este outro Rasputin — seu companheiro de várias viagens na aclamada série gráfica, um homem de olhar cavado e longa barba negra mais dado a interesses e loucuras do que o marinheiro errante de brinco na orelha.

Na primeira aventura, perdidos no meio do Pacífico, em plena Primeira Guerra Mundial, Corto sobe a bordo de um catamarã onde Rasputin está a planear usar dois sobreviventes de um naufrágio para enriquecer — e assim se inaugura o imaginário de Pratt. Na segunda, o criador de Corto leva-o até aos confins da China e da Sibéria e põe-lhe nas mãos a «Utopia», de Thomas More. “Nunca conseguirei ler isto até ao fim”, lamenta-se o nómada dos mares, filho de um oficial da Marinha Real britânica e de uma cigana de Sevilha.

Acho que a coisa realmente importante sobre isto, que é hilariante e tão certa, é que Corto nunca acabou de o ler”, comentava em 2012 Hall Powell, realizador e guionista de televisão que, nesse ano, começou a traduzir a BD do anti-herói para inglês (foi o primeiro lançamento nos Estados Unidos, em 20 anos). Não ler «Utopia» até ao fim, defendeu Powell, “é a definição de um utópico verdadeiramente pragmático”.

A sofisticação da literatura e da política

Há quem diga que as palavras que abrem «A Balada do Mar Salgado» — “Sou o Oceano Pacífico e sou o maior de todos” — estão para os quadradinhos como “Chamem-me Ismael”, a primeira linha de «Moby Dick», de Herman Melville, está para a literatura. Quando Pratt lançou a série com a revista Il Sergente Kirk em Itália, o protagonista ia ser o mar. Mas a complexidade literária e política que brotou do marinheiro acabaria por levar a melhor — o Pacífico foi relegado para segundo plano e Corto ganhou vida longa entre nós, levando-nos aos confins do mundo e da mente humana. Já dizia Umberto Eco: “Quando quero relaxar leio ensaios de Engels. Quando quero algo mais sério, leio Corto Maltese.”

Hoje, até quem nunca foi dado a BD já ouviu falar da personagem. Que é como quem diz, de Pratt. “Devemos lembrar-nos que as tiras reflectem as próprias experiências peripatéticas de Pratt”, explicava há alguns anos Dean Mullaney, fundador de uma das primeiras editoras independentes de BD nos EUA, a Eclipse Enterprises. “Da sua juventude na Etiópia aos muitos anos passados na Argentina, Pratt foi ganhando uma perspectiva humanista. As suas histórias ressoaram na audiência do fim dos anos 60 e do início dos anos 70, e ressoam ainda hoje em nós, porque ele escreve sobre a luta universal pela dignidade humana.”

Foi assim que Pratt trouxe ao mundo das novelas gráficas não só a sofisticação da literatura, mas a crítica social e política, com histórias em quadradinhos mais próximas da realidade do que da ficção, apesar de todo o esoterismo e magia.

Filho de um militar que apoiava Mussolini e da neta do poeta Eugenio Genero (citado na versão original de «Corto Maltese na Sibéria», em vez de Rimbaud), Pratt lançou o primeiro trabalho na Itália do pós-guerra, com críticas ocultas ao imperialismo e ao capitalismo. Foi isso e também o facto de Corto ser um aventureiro romântico que, ainda assim, desconstrói a forma como o mundo ocidental subjugou culturas e povos, que fizeram com que Pratt e o seu alter ego reflectissem o activismo do Maio de 68 e até o movimento espontâneo anti-ideológico de 1977, em Itália, antes de qualquer um deles eclodir.

Uma coincidência, dirão alguns, tão atraente como o facto de a obra celebrar meio século na mesma altura do centenário da Revolução Russa. Num novo momento de convulsões sociais e com as peças do xadrez mundial outra vez em movimento, faz sentido voltar a Corto Maltese. Como diziam o ilustrador Ruben Pellejero e o escritor de BD Juan Díaz Canales, há dois anos, quando reinventaram Corto numa nova série fiel ao universo gráfico e literário de Pratt: “Corto convida-nos a viajar e a sonhar com ele.” E a mensagem de tolerância e de empatia, mesmo quando há discórdia, talvez seja o seu maior ensinamento — mais actual do que nunca.

Novela Gráfica III – Vol. 9

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Conversa(s) sobre Banda Desenhada (com Jorge Magalhães e Catherine Labey) – 4

JORGE MAGALHÃES (2)

No campo editorial, coordenou ainda livros como “O Mosquito – 60º Aniversário” (1996) e “Vasco Granja – Uma Vida, 1000 Imagens” (2003) e colaborou em jornais como Tintin, Jornal da BD e Jornal do Exército, além de ter sido chefe de redacção das Selecções BD (2ª série), entre 1998 e 2001. Escreveu também um livro com o título “O Príncipe Olaf”, publicado em 1975 na colecção juvenil Galo de Ouro (Portugal Press), a par de conceituados novelistas como Raul Correia, José Padinha e Orlando Marques.

Juntamente com Augusto Trigo (um dos desenhadores com quem mais trabalhou nos anos 80: “Luz do Oriente”, “Kumalo”, “Excalibur”, “Wakantanka”), foi autor do álbum “A Moura Cassima” (Lendas de Portugal em BD, Edições Asa), distinguido em 1992 com o prémio de melhor álbum português, criado nesse mesmo ano pelo Festival Internacional da Amadora. Voltou a colaborar com Augusto Trigo e Catherine Labey no álbum colectivo “Lenda da Moura Salúquia”, publicado no Salão Moura BD em 2009.

Foi galardoado cinco vezes com o Troféu O Mosquito do Clube Português de Banda Desenhada para melhor argumentista, entre 1981 e 1993. Em 1999, recebeu o Troféu de Honra do Festival da  Amadora (que no ano seguinte coube a Augusto Trigo) e em 2002 o Troféu Balanito Especial, atribuído pelo Salão Moura BD. A Câmara Municipal de Moura publicou estudos seus sobre vários temas:

“Carros e Motos na BD” (2001); BD e Ficção Científica – As Madrugadas do Futuro” (2005);O Western na BD portuguesa” (2007); Vítor Péon e o Western” (2010); Franco Caprioli – No Centenário do Desenhador Poeta” (2012)**

** Esta obra teve também edição em formato digital (e-book), pelo GICAV – Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu.

Actualmente, com assistência de Catherine Labey, coordena cinco blogues, que abordam desde a banda desenhada, o “western” e a aventura histórica à literatura popular e ao cinema.  O primeiro, O Gato Alfarrabista, nasceu em 2013.

Viseu realiza exposição sobre Dom Afonso Henriques na Banda Desenhada

No próximo domingo, 27 de Agosto, pelas 16:00 horas, será inaugurada em Viseu, no Pavilhão Multiusos da Feira de São Mateus, uma exposição sobre o primeiro Rei de Portugal, denominada “Dom Afonso Henriques na Banda Desenhada”.

A organização é do Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu (GICAV), com a colaboração da Câmara Municipal de Viseu, da Viseu Marca e do Instituto Português do Desporto e Juventude. Durante o evento, será lançado um álbum de banda desenhada com a reedição de um magnífico trabalho de Eduardo Teixeira Coelho, nome incontornável da BD portuguesa.

A mostra, comissariada por Carlos Almeida, é constituída por vinte painéis em grande formato, com exemplos das várias adaptações à BD da vida e dos feitos de Dom Afonso Henriques, e estará patente ao público até 17 de Setembro.

(Notícia respigada do nosso colega BDBD, orientado por Carlos Rico e Luiz Beira, que promete publicar uma reportagem fotográfica completa do evento durante os próximos dias. Na impossibilidade de também estarmos presentes, agradecemos ao GICAV o convite que gentilmente nos enviou).

O regresso de Valérian – Vol. 5

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O último adeus de Jerry Lewis – 2

Artigo publicado no jornal I, edição de 21 de Agosto de 2017, de onde o reproduzimos, com a devida vénia.

O último adeus de Jerry Lewis – 1

Texto do crítico de cinema João Lopes, publicado no Diário de Notícias de 21/8/2017, de onde o reproduzimos, com a devida vénia.

Novela Gráfica III – Vol. 8

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