Livros que deram filmes – 2

“NOITE SEM LUA” (por John Steinbeck)

Noite sem Lua 201

Numa nova iniciativa cultural do Público que merece destaque, a colecção sugestivamente intitulada Quem vê capas vê corações — composta por doze livros editados em várias épocas, de autores de renome como Erich Maria Remarque, John Steinbeck, Colette, José Rodrigues Miguéis, António Ferro, Stefan Zweig, John Updike, Victor Hugo, João Gaspar Simões e outros, apresentados em fac-simile, com as capas e ilustrações originais de grandes artistas gráficos portugueses —, figura uma obra que deu ainda mais prestígio ao seu autor, o escritor norte-americano John Steinbeck (1902-1968), laureado com o Prémio Nobel em 1962, de cuja pena saíram alguns dos maiores romances da literatura universal, como A Leste do Paraíso, As Vinhas da Ira, A Um Deus Desconhecido, Ratos e Homens, Tortilla Flat, Batalha Incerta, alguns deles adaptados ao cinema com grande êxito.

John Steinbeck (The moon is down) - 1Publicado em 1942, durante o trágico desenrolar da Segunda Guerra Mundial (em que os Estados Unidos se envolveram nesse mesmo ano), Noite sem Lua tornou-se, por causa do seu tema, um hino à liberdade e um manifesto da resistência nos países europeus ocupados pelos exércitos do Terceiro Reich, onde foi impresso clandes- tinamente, desafiando a proibição da censura nazi, que o considerava um livro subversivo e ameaçava com severas punições quem o tivesse na sua posse. Em Itália, a ditadura fascista foi ainda mais longe, aplicando a pena de morte aos prevaricadores e pondo Steinbeck na lista dos “escritores malditos”.

Tão cruéis represálias de uma “nova ordem” que desprezava os direitos humanos, assim como a liberdade de pensamento defendida pelos regimes democráticos, não impediram que Noite sem Lua (no original, The Moon is Down) fosse lido por um número crescente de pessoas que viviam sob o jugo da tirania nazi, em países como a França, a Holanda, a Noruega e a Dinamarca, onde as edições clandestinas se multiplicavam, passando de mão em mão com tanta rapidez como as mensagens trocadas entre os membros da Resistência.

John Steinbeck (novel)E assim Noite sem Lua tornou-se também um símbolo dos heróicos combatentes que, na sombra, procuravam de todas as formas minar o poder nazi, abrindo caminho aos libertadores que não tardariam a sulcar o Atlântico, com todo o seu arsenal bélico, e a invadir vitoriosamente o continente.

Menos de um ano após a sua publicação nos Estados Unidos, a novela de Steinbeck — cuja escrita configurava, aliás, uma trama teatral, fiel à unidade de tempo, lugar e acção — subiu aos palcos, numa adaptação do próprio autor; e pouco tempo depois deu também origem a um filme realizado por Irving Pichel, com um excelente naipe de actores: Lee J. Cobb, Cedric Hardwicke, Henry Travers, Peter Van Eyck, Jeff Corey e Natalie Wood (num dos seus primeiros papéis). A adaptação cinematográfica coube a um dos mais experientes argumentistas de Hollywood, Nunnally Johnson, e a música de fundo a um dos seus mais inspirados compositores: Alfred Newman.

A obra de Steinbeck retratava a ocupação de uma pequena cidade do norte da Europa (localizada, notoriamente, na Noruega) por um implacável exército inimigo, mas sem mencionar a Alemanha nazi, embora as aparências fossem demasiado evidentes (no filme, até se ouve a voz de Hitler na rádio).

John Steinbeck (The moon is down)Depois das primeiras reacções de medo e de incerteza, os habi- tantes, forçados a trabalhar por turnos nas minas de carvão para abastecer as forças invasoras, aumentando assim o seu poder bélico, revoltam-se abertamente, aproveitando todas as oportu- nidades para sabotar os planos do inimigo, que retalia com dureza, executando reféns e chegando mesmo a condenar à morte o mayor da cidade, que se recusa corajosamente a incitar os seus concidadãos à obediência.

O livro — publicado em Portugal pela Ulisseia, em 1955, com capa de Querubim Lapa e ilustrações de Costa Pinheiro — voltou agora a surgir nas bancas (embora numa edição em fac-simile), mas o filme há muito que está ausente dos lançamentos videográficos… lacuna que esperamos seja sanada em breve, para satisfação de todos quantos, ao (re)lerem a obra, se recordem da sua adaptação cinematográfica ou tenham curiosidade em conhecê-la.  

Podem ver neste blogue (consultando a rubrica Escaparate: Quem vê capas vê corações – vol. 5) uma página do Público dedicada ao romance de John Steinbeck, que tanto contribuiu para alimentar o heróico espírito da resistência nos países vítimas da opressão nazi, durante a Segunda Guerra Mundial.

 

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