Wolinski: a despedida

Volinski a despedida

Eis o último cartoon de Wolinski (quase premonitório do fim que o esperava), publicado no Paris-Match um dia depois do atentado contra o Charlie Hebdo, em que também pereceram outros grandes humoristas, seus companheiros de redacção, como Cabu, Charb e Tignous.

Colaborador habitual do Paris-Match desde 8/11/1990, Wolinski assinava todas as semanas um cartoon sobre a actualidade política, salvo raros períodos de férias em que foi substituído por Cabu, um dos seus melhores amigos.

Volinski retrato316Ao prestar-lhe a última home- nagem, publicando este de- senho recebido na redacção três dias antes, o histórico semanário francês não deixou de salientar uma estranha coincidência: a última palavra que Wolinski escreveu no seu cartoon tinha já uma carga tão fatalista como o inexo- rável destino de que em breve seria vítima! Curiosamente (se é que se pode empregar este advérbio), o mesmo destino que tivera o seu pai, assassinado a tiro na Tunísia, terra natal do irreverente e mordaz desenhador… para quem o trabalho, aos 80 anos, era a maior e mais divertida de todas as recompensas.

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Os livros que guardo na memória – 2

“ALLAN QUATERMAIN”por Rider Haggard

Rider HaggardParece que o gato gostou dos livros de Sir Henry Rider Haggard que já estiveram expostos nesta montra, em especial da capa de Eduardo Teixeira Coelho, o que prova que o nosso bichano tem sensibilidade estética, como a maioria dos felinos.

Para lhe agradar, decidimos escolher outro livro do prolífico escritor inglês, embora com capas que certamente não lhe despertarão tanto interesse. Trata-se de uma obra pouco conhecida entre nós, escrita em 1887, como sequela de “As Minas de Salomão” — o romance mais famoso do autor e já com inúmeras edições portuguesas, muitas delas atribuindo a sua paternidade a Eça de Queirós, que, fascinado pelo tema, apenas o verteu magistralmente para a nossa língua.

De facto, embora “Allan Quatermain” prolongue no tempo as aventuras do famoso caçador sul-africano e dos seus amigos, o barão Henry Curtis e o capitão John Good, acompanhados pelo régulo Zulu Umbopa (ou Umslopogaas), levando-os até novas e inexploradas regiões —Allan Quatermain a terra de Zu-Vendi, onde encontram uma espécie de civilização desaparecida, governada por duas rainhas gémeas de raça branca que se guerreiam mortalmente —, a importância maior foi sempre atribuída ao primeiro volume do ciclo, ou seja “As Minas de Salomão”, cujo enorme êxito inspirou a Rider Haggard nada mais nada menos do que dezoito contos e novelas com Allan Quatermain como personagem central.

Embora essas obras não sigam uma ordem cronológica (Haggard escreveu-as, segundo parece, ao sabor do acaso e da fantasia), há um fio condutor que liga todas elas, dando rédea livre ao novelista para se debruçar sobre vários períodos da vida de Allan Quatermain, desde o seu primeiro casamento, ainda muito jovem, até à sua morte. E esta ocorre, de forma algo abrupta, no livro que Haggard decidiu intitular simplesmente com o nome do seu herói, como uma espécie de elegia fúnebre.

Alão QuatelmarPara a história das edições em língua portuguesa, registe-se que “Allan Quatermain” (ou Alão Quartelmar, como foi baptizado pelo Eça) surgiu primeiro no Brasil, em 1959 — data que não sabemos se corresponde à 1ª edição da Vecchi, que publicou outros livros de Haggard na popularíssima colecção “Os Audazes” —, e só teve honras de tradução portuguesa numa época mais recente (1999), por iniciativa das Publicações Europa-América, que a incluíram, depois de “As Minas de Salomão”, na colectânea Aventura & Viagens, com vários volumes ainda disponíveis nas suas livrarias.

Esperemos que o gato continue a gostar dos livros de Rider Haggard… e para satisfazer a sua (e a vossa) curiosidade acrescento que há algumas adaptações em BD de “Allan Quatermain” — não tantas, obviamente, como de “As Minas de Salomão” —, a melhor das quais, no meu entender, foi publicada em 1966 na revista Ranger, com o soberbo traço de um desenhador que muito se distinguiu no panorama dos comics ingleses: Michael Hubbard.

Allan Quartermain BD 1   Allan Quartermain BD 2

Há algum tempo descobri numa colecção da editora mexicana La Prensa, com o título Clasicos Ilustrados, outra adaptação desta história, não muito fiel ao original (pelo menos na última parte, omitindo a morte de Quatermain) e cujo desenhador não identificado me parece ser espanhol. Embora a revista e o seu conteúdo não mereçam grandes comentários, reproduzo também a capa e a página de abertura para que todos as desfrutem… incluindo o gato.

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Exposição e venda de originais de Fernando Relvas

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A não perder, no Espaço Arte (Livraria Europa-América), de 21 de Janeiro a 6 de Fevereiro. 120 pranchas originais de algumas das melhores histórias de Fernando Relvas.

Recordações do Royal Cine

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royal-cine-vista-interiorAinda me lembro do entu- siasmo com que assisti a muitas sessões de cinema, durante as décadas de 40 e 50 do século passado, numa sala de reprise do velho bairro da Graça, o Royal Cine, que ficava a poucos quarteirões da minha casa e onde passei, por isso, alguns dos momentos mais felizes da minha mocidade, vivendo intensamente o esplendor do cinema, não só na tela como no próprio ambiente dessa magnífica sala de espectáculos. Com uma fachada imponente, obra do arquitecto Norte Júnior, a lembrar um templo egípcio, o Royal Cine — que chegou a ser considerado “o mais elegante cinema de Lisboa”, com 900 lugares —, foi, aliás, o primeiro em todo o país a dispor de equipamento para projecção de filmes sonoros (na foto supra, sob o título, aspecto da frontaria, em 1977, já muito degradada, e na seguinte vista geral do balcão e da plateia; em baixo, plantas da vasta sala e anúncio da histórica inauguração do cinema sonoro em Portugal, com o filme “Sombras Brancas nos Mares do Sul”).

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fachada-do-royal-cineActualmente, este autêntico e venerável templo da 7ª Arte, inaugurado em 26-12-1929, está reduzido à triste condição de super-mercado da cadeia Pingo Doce (passe a publicidade), pois como tantos outros não resistiu à passagem do tempo e à implantação de novas “modas”, gostos e mentalidades, que tornaram quase obsoleto o ritual (fascinante) de ir ao cinema com a família, a namorada ou os amigos. No “meu” tempo, isto é, há 50 e tal anos, ainda se podia saborear o prazer de passear nos largos salões, de cavaquear, durante os intervalos (que não tinham menos de 15 minutos), bebericando um café e fumando sem pressas um cigarro, até de ler um livro ou um jornal… E o momento mágico repetia-se (nas sessões duplas) quando se descerravam, com um suave rangido, as enormes cortinas antes do ecrã se iluminar com imagens oníricas, atraindo-nos para uma faixa brilhante que, tal como um tapete voador das “Mil e Uma Noites”, nos arrastava para outra dimensão, durante um curto intermezzo de hora e meia, sem que, na realidade, déssemos conta disso…

Como a mocidade que vimos inexoravelmente passar, e de que apenas ficaram as memórias mais gratas, são muitas, mas irremediáveis, as saudades do Royal Cine! Cujo lamentável destino continuará a ser o de super-mercado, até que este encerre também, devido à crise (se é que já não encerrou!)…

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Somos todos Charlie!

Memória do Charlie

Em memória destes quatro grandes cartunistas e das outras vítimas do cobarde atentado contra o Charlie Hebdo.

 PELA LIBERDADE DE EXPRESSÃO… PELA LIBERDADE DE PENSAR… PELA LIBERDADE DE VIVER NUM MUNDO MAIS TOLERANTE, SEM ÓDIOS NEM FANATISMOS!

O HUMOR É UMA ARMA… MAS NÃO MATA!

Histórias Fantásticas de Edgar Poe – 2

“A Carta Roubada” (2ª parte)

a-carta-roubada-páginaApresentamos hoje a 2ª e última parte desta história, com desenhos de Catherine Labey, baseada no conto de Edgar Allan Poe, segundo a versão que surgiu no Diabrete, quando esta popular revista infanto-juvenil publicou, em folhetins destacáveis, os “Contos Fantásticos” do célebre escritor norte-americano, mestre absoluto do “horror gótico” e da poesia lúgubre, mas também considerado um dos grandes percursores da literatura policial e de mistério, com narrativas que ainda hoje figuram entre as melhores do género, como “O Escaravelho de Ouro”, “O Duplo Crime da Rua Morgue” e “A Carta Roubada”.

quadradinhos-11Como, na altura, éramos colabo- radores (num dos jornais mais lidos há 30 anos, A Capital) do suplemento Quadradinhos – 2ª série, dirigido por Adolfo Simões Müller, grande apreciador de adaptações literárias, foi nas suas páginas que esta história teve honras de estreia, publicando-se a duas cores e a preto e branco desde o nº 72, de 31 de Outubro de 1981, até ao nº 86, de 6 de Fevereiro de 1982.

Devemos sublinhar que “A Carta Roubada” (The Purloined Letter) é um conto concebido por Edgar Poe de forma peculiar, em dois tempos diferentes, sempre narrados em flash-back. No primeiro tempo, correspondente às páginas 1 a 8 desta adaptação, o narrador é um Prefeito da polícia parisiense que revela ao seu amigo C. Auguste Dupin — uma “mente brilhante” atraída pelos meandros da lógica dedutiva —, as investigações infrutíferas que levara a cabo, com os seus agentes, para encontrar a carta roubada a uma dama da alta aristocracia por um político sem escrúpulos, e como esse documento podia comprometer a honra e a segurança familiar da distinta senhora.

No segundo tempo, o narrador é o próprio Chevalier Dupin, que se limita a expor, com a maior naturalidade, os passos que deu em sentido inverso, guiado apenas pela intuição e pelo exercício da lógica,quadradinhos-21 que cultivava com o mesmo fervor de um certo detective privado que iria estabelecer os cânones da literatura policial muitos anos depois.

Estamos, portanto, perante o exemplo paradigmático de um caso aparen- temente simples, sem mistérios nem grandes emoções, narrado a três vozes e cuja acção, dividida em duas partes, tem como fulcro acontecimentos ocorridos num tempo anterior. Poe veste a pele do terceiro personagem presente em casa de Dupin — um amigo íntimo cujo nome também desconhecemos e que assume um papel contextual e reflexivo, expondo ao leitor, como uma voz off, os factos concretos e o singular “mecanismo” dedutivo de Dupin, assente na maníaca observação dos rostos e da linguagem corporal e no raciocínio puro, que explora o aspecto “superficial” das coisas como a melhor fonte de informações. Sherlock Holmes e Watson nasceram, sem dúvida, destes modelos.

Claro que, no âmbito das histórias ilustradas, esse discreto comparsa, o (quase) abstracto narrador que podemos subjectivamente comparar ao próprio Edgar Allan Poe, tem de possuir uma identidade física, um aspecto que o torne mais real aos olhos do leitor, embora a sua presença no conto seja um mero artifício literário. Pessoalmente gosto da caracterização que Catherine Labey lhe deu, sem se cingir a nenhum retrato específico.

Resta assinalar que esta adaptação de “A Carta Roubada” (uma das poucas que julgamos existir de um dos primeiros clássicos da literatura policial) foi também publicada no nº 4 dos Cadernos Sobreda BD, em 1991.

Para voltar à 1ª parte clicar aqui

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Le chat dans tous ses états - Gatos... gatinhos e gatarrões! de Catherine Labey

Pour les fans de chats e de tous les animaux en général - Para os amantes de gatos e de todos os animais em geral

largodoscorreios

Largo dos Correios, Portalegre

Interesting Literature

A Library of Literary Interestingness

almanaque silva

histórias da ilustração portuguesa