Os Gatos e o Crime – 1

A GATA PERSA por Alessandro Varaldo

A Gata PersaEste é o primeiro “post” conjunto da Montra dos Livros e de Gatos, Gati- nhos e Gatarrões, o blogue orientado por Catherine Labey, que continua a partilhar connosco os seus conhe- cimentos técnicos. E o tema deste “post”, obrigatoriamente, tinha de ser sobre gatos. Um tema escolhido por ela e, aliás, ao que creio, pouco debatido: a presença (e a impor- tância) destes simpáticos e enigmá- ticos felinos na literatura policial, nomeadamente nalgumas obras de referência publicadas em colecções portuguesas. A pesquisa, a selecção de imagens e as notas biográficas são também da Catherine.

Começamos por um livro da Colecção Xis, que na sua época de maior êxito era um dos mais fortes concorrentes da emblemática Colecção Vampiro, cuja longa carreira chegou às sete centenas de títulos (703). A Xis, editada pela popular Minerva, foi muito mais modesta, quedando-se, no total das suas duas séries, pelo nº 210. Ambas publicaram uma apurada selecção de obras, fomentando o conhe- cimento dos maiores nomes da literatura policial (ou policiária) entre um público numeroso que aderiu prontamente a este género.

2014-02-06 09.00.12No 33º volume da Colecção Xis, Alessandro Varaldo, considerado o pri- meiro autor italiano de romances policiais, apresenta o inspector Ascanio Bonichi e o detective particular Gino Arrighi, num complexo caso intitulado “A Gata Persa”, que se desenrola em Roma, durante a época do fascismo.

A tradução foi confiada a um veterano dessas lides, José da Natividade Gaspar, e a magnífica ilustração da capa atesta o criativo talento de Edmundo Muge, ambos devidamente creditados neste volume, saído do prelo em 1954, e cuja maior pecu- liaridade reside no facto de ser escrito por um novelista italiano, coisa nunca vista na Colecção Vampiro, que dava preferência aos autores anglo-saxónicos. Entre ambas, a Xis foi também a única que publicou autores portugueses.

A ilustração de E. Muge tem curiosas analogias com a de uma edição italiana da Mondadori, que acima reproduzimos. Não se trata de plágio nem de cópia — aliás, o trabalho de Muge é superior —, mas de flagrantes semelhanças, que nos apraz registar. Segue-se uma breve biografia do romancista italiano, compilada pela Catherine.

A. Varaldo 2Alessandro Varaldo nasceu em Ventimiglia a 25 de Janeiro de 1876, filho de Giuseppe Varaldo e de Eugenia Rolando. Passou parte da mocidade na cidade natal, onde fez a escola primária, frequentando depois o liceu de San Remo. Bastante jovem ainda, mudou-se com a família para Génova, onde iniciou a sua actividade literária com 21 anos, participando no «Il primo libro dei trittici» (1897), texto de vanguarda do simbolismo italiano, com sonetos de Giribaldi, Molfettani e Varaldo.

Em 1898, publicou «La principessa lontana» e seguidamente escreveu poesia, teatro, ensaios e, sobretudo, romances e novelas, colaborando também intensamente em jornais e revistas. Ao todo, terá produzido cerca de 60 romances, 30 peças de teatro (das quais uma dúzia eram comédias), três volumes de poesia, três de crítica, dezenas de novelas e alguns livros para crianças, além de 136 artigos em jornais, alguns deles espanhóis e portugueses.

2014-02-06 09.03.12Na sua escrita transparecia o apego à terra natalícia, tendo situado frequentemente a acção dos seus romances em Ventimiglia. Em 1920, fundou a SIAE (Sociedade Italiana de Autores e Editores), que dirigiu até finais de 1928, quando, por decisão do governo, foi substituído por um director fascista.

Em 1931, criou a personagem do inspector Ascanio Bonichi no romance «Il sette bello», o primeiro policial italiano publicado (com o nº 21) na colecção I Gialli Mondadori, ou seja, os livros policiais da editora Mondadori. Bonichi, um inspector romano bonacheirão — com algumas características que o assemelham a Maigret —, foi protagonista de uma curta série terminada em 1938, que incluiu «Le scarpette rosse», «Circolo chiuso» e «Il tesoro dei Borboni», entre outras obras,  inaugurando o género «giallo», sinónimo de inquérito policial.

imagesZ6IGHGG4Entretanto, Varaldo dera vida ao detective particular Gino Arrighi, antigo braço direito de Bonichi, de carácter muito mais vigoroso, que surge nomeadamente em «A Gata Persa» (1933). Com a acção do seu «privado», Varaldo criticava veladamente a polícia nacional, reflectindo uma mudança de atitude para com as instituições fascistas, durante os anos 30.

Em «A Gata Persa» (La gatta persiana), Bonichi continua a tomar notas numa agenda de bolso, embora se fie princi- palmente na sua memória; evita sempre falar demais aos jornalistas; e fuma desal- madamente charutos toscanos, o que faz com que às 10 da manhã o seu gabinete já esteja cheio de fumo. Revela também um forte apetite pela boa mesa e por lindas mulheres, sem que Varaldo insista demasiado nesse comportamento. Gosta de gatos, cita versos de Belli e sentenças de outros autores e, por vezes, emprega o dialecto romano para captar as simpatias e confidências dos mafiosos de Roma.

Em 1943, Alessandro Varaldo assumiu a direcção da Academia de Arte Dramática de Roma, cidade onde morreu a 18 de Fevereiro de 1953.Gatas italianas e brasileiras

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