Os livros que guardo na memória – 1

O TESOURO AFRICANO

por RIDER HAGGARD 

Nesta ala da nossa loja, que está cada vez maior, temos também uma montra onde o gato que nos faz companhia gosta de preguiçar ao sol… no meio dos livros de todos os géneros e de todas as idades (alguns já bem antigos) que se expõem, por turnos, à curiosidade de quem nos visita, perante o olhar sonolento e indiferente do bichano. Hoje, o livro em destaque, para além do nome do seu autor, tem um interesse muito especial…

Não se admirem de ver aqui com frequência outros livros de aventuras, pois estão carregados (como dizia Henry Miller) com o “perfume” nostálgico da infância. Para mim, muitos deles são ainda hoje os livros da minha vida, criados por autores que o tempo arrebatou, mas que continuo a guardar na memória…

Há alguns anos, quando elaborei uma resenha das históriasCapa Coelho - O Tesouro Africano 749 de Eduardo Teixeira Coelho publicadas em Portugal, antes e depois da sua partida para outras paragens, em busca de melhores condições de trabalho, pretendi incluir nessa extensa lista uma relação de livros ilustrados pelo seu punho, muitos deles mais difíceis de encontrar do que as revistas de banda desenhada onde largamente colaborou.

A lista, realizada em colaboração com Carlos Pinheiro, foi publicada numa brochura com 16 páginas, separata da revista Biblioteca (nºs 1 e 2, 1998) da Câmara Municipal de Lisboa, mas, no tocante aos livros, estava obviamente incompleta. E. T. Coelho fez inúmeros trabalhos desse género, sobretudo entre finais dos anos 40 e meados da década seguinte, para editoras como a Portugália, cujas colecções juvenis Biblioteca dos Rapazes e Biblioteca das Raparigas alcançaram, nessa época, um invejável sucesso. Não hesito em atribuir parte desse êxito às sugestivas capas concebidas pelo notável artista, com destaque para as dos romances de autores clássicos publicados na Biblioteca dos Rapazes, como “O Último dos Moicanos”, “O Cavalo Preto”, “D. Quixote de La Mancha”, “Tom Sawyer”, etc.

Neste escaparate surge, como peça inaugural, um livro de um dos meus escritores favoritos, Rider Haggard, célebre autor inglês que viveu em plena época vitoriana (1856-1925), com obras que lhe granjearam grande popularidade, desenroladas em cenários africanos — como “As Minas de Salomão”, “Allan Quatermain”, “She” e “O Anel da Rainha de Sabá”.

E. T. Coelho realizou uma magnífica ilustração para a capa desse livro (18º volume da colecção Os Romances Sensacionais, da Portugália Editora), hoje em dia bastante raro e que creio nunca ter sido reeditado entre nós. No Brasil foi publicado em 1933, com o título original “Benita”, pela Companhia Editora Nacional, de S. Paulo, na sua popular colecção Para Todos.

Benita754Benita é o nome de uma jovem inglesa descendente de portugueses pelo lado materno, que volta a África para se reencontrar com o pai e descobre que este anda à cata de um misterioso tesouro oculto por colonos portugueses numa velha fortaleza em ruínas, situada no país dos Matabeles. Mas a fortaleza é uma espécie de santuário proibido, onde paira o sortilégio de uma estranha profecia…

Curiosamente existe outro romance com o título “O Tesouro Africano”, mas de ambiente histórico, passado em plena época dos Descobrimentos portugueses, cuja autoria se deve ao jornalista Luís Almeida Martins, outro admirador confesso e grande divulgador em Portugal da obra de Rider Haggard, que traduziu e prefaciou para o Círculo de Leitores (cinco títulos).

Tal como o livro de Haggard, publicado em 1906, a novela de Almeida Martins tem como cerne a busca de um tesouro, que leva um moço audaz e sonhador numa aventurosa viagem até às remotas plagas do continente africano — embora sejam de assinalar outros matizes que dão colorido ao fundo histórico e a forma mais cuidada do texto (Haggard perde muito em ambas as traduções). Esse tesouro, de origem fenícia, jaz na costa da Mina, ao sul de Cabo Verde… mas a expedição organizada em segredo por um abastado mercador, da confiança do príncipe regente, futuro rei D. João II, com o fito de o encontrar, acaba em fracasso, devido à hostilidade dos nativos, que se juntam em grande número para impedir o desembarque dos navegadores portugueses.

Luís Almeida Martins glosou nitidamente Capa Almeida Martins - O Tesouro Africano751o tema de “Benita” — a busca do tesouro perdido, aliás recorrente em muitas obras de Haggard —, mas noutra época e num contexto diferente, pois a África de Quinhentos não era a mesma do tempo da Rainha Vitória, embora essas diferenças não sejam palpáveis para o leitor.

É pena que a capa deste livro, publicado em 2002 pela Editorial Notícias — num formato pouco comum, 13×23, que deu o título à colecção —, nada tenha do vigor, da emoção e do dinamismo que ETC imprimia à maioria das suas ilustrações, às vezes com um traço cheio (como no presente volume), outras com linhas mais suaves.

Mas isso não me impede de aconselhar vivamente a leitura da  curta novela de Luís Almeida Martins, tal como a do outro “Tesouro Africano”, de sabor tão pitoresco como “As Minas de Salomão” e as demais obras de Sir Henry Rider Haggard. Um grande novelista que aparecerá mais vezes nesta montra…

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